Publicada em 05/12/2016 às 11h55.
ANALFABETO DE PENSAMENTO

José Francisco de Melo Neto (zé de melo neto)

Professor Titular e Pesquisador da UFPB

Membro do Movimento Colônia e Cidadania - MCC

Membro da Academia de Cultura de Colônia - ACCL 

Ex-presidente do Conselho Estadual de Educação da Paraíba

 

 

 

 

Há um tipo de analfabeto, pouco divulgado, que é aquele promovido pela própria escola institucionalizada, presente na escola fundamental e no ensino médio, na escola universitária, inclusive, no seu mais elevado nível acadêmico, os cursos de doutoramento. Ele sabe ler, escrever, usa a informática, trabalha, ensina e pesquisa, mas não aprendeu a pensar e buscar o novo. É o analfabeto de pensamento, de ideias.


A escola, desde a alfabetização, procura inserir a criança nas linguagens e códigos da língua materna. Nesse momento, exercita-se o aprendizado das letras, escrita e falada, considerado correto, tanto em forma como em conteúdo. Essa caminhada continua em nível das séries seguintes, até o nono ano. No ensino médio, continua o seu estudo na matemática e suas tecnologias, nas ciências naturais e suas tecnologias, nas linguagens e códigos e suas tecnologias, além das ciências humanas e suas tecnologias. Aceitável se faz entender que esse nível escolar seja mesmo aquele que assegure a aprendizagem dos conhecimentos existentes, desejando que eles se tornem senso comum para toda a população. A pedagogia da repetição é a técnica por excelência de todo esse processo.

 

Tal recurso invade ainda os cursos técnicos com o enfático discurso de que importante é o saber fazer, priorizando unicamente uma competência técnica, mesmo que o mundo esteja a cobrar uma competência ampla para a vida. Na universidade, permanece a não preocupação para com a produção do conhecimento novo, mesmo em cursos como o doutoramento, cuja função principal é a busca desse algo. O percurso escolar, dessa maneira, torna-se um permanente exercício de mera reprodução do conhecimento dominante, em todos os níveis da educação no país e em todos os campos do conhecimento, com poucas contradições.

               

Tal pedagogia tem levado à falta da inovação em todos os setores das ciências e tecnologias, no empreendedorismo, no campo econômico, e, no campo político, à falta de políticos e de projetos políticos que possam alavancar estados com menor força econômica ao cenário nacional. Sem terem aprendido a pensar algo diferente, sem procurar alternativas, convertem-se em meros mendigos da política nacional. E, no campo da qualidade da educação, pode-se assistir a queda da média nas ciências e suas tecnologias, em provas do ENEM, como nos últimos anos. Acarreta um desleixo para com a redação nesta mesma prova, deixando-a de lado nas contagens técnicas das médias das escolas e dos alunos. 

            

Nos programas de pós-graduação, particularmente mestrado e doutorado, os docentes engalfinham-se no malabarismo geral de uma burocracia crescente, em busca de melhores conceitos avaliativos, esquecendo-se da sua meta principal - a produção do conhecimento novo. Claro é que não se trata de se descobrir permanentemente a roda. Vive-se a mais renhida competitividade, conduzindo-os a uma dedicação muito maior à ocupação de responderem relatórios e questionários solicitados por órgãos públicos (Capes, CNPq e outros) do que mesmo ao seu trabalho específico de pesquisa e ensino. Estabelece-se uma produção acadêmica a qualquer custo, a pedagogia da repetição, para atender aos ditames desses órgãos, pois isto lhes assegurará mais bolsas ou menos bolsas e o conceito do programa. É a produção desenfreada de mais livros, artigos para revistas internacionais, relatórios de pesquisas, nenhuma produção local, pois o local não pontua, busca de revistas indexadas, curtos prazos de conclusão de pesquisa tanto no mestrado como no doutorado, significando tudo isto a qualidade do trabalho acadêmico.

 

O País também precisa aparecer bonito no ranqueamento mundial da corrida acadêmica, mesmo que tudo isto não passe de mera reprodução de conhecimento. As construções das monografias, sejam dissertações ou teses, do ponto de vista de incentivo ao pensamento novo, estão formando muito mais uns “baitas” técnicos em citações de pensamentos alheios, sumindo a construção do seu próprio pensamento – o exercício da crítica.

 

Como se vê, bacana é o professor ser um doutor no pensamento de fulano ou de sicrano, mesmo que seja isto importante. Ficando apenas nisto, contudo, perde-se definitivamente a capacidade de também se tornar um pensador. Deste, há no país uma grande necessidade: é urgente o repensar a atividade docente em todos os níveis da escola, procurando superar esse ensino e essa pesquisa sem novidade para o conhecimento que a transformou em mera fazedora de analfabetos sem ideias novas, sem pensamento novo.

 

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