Publicada em 29/03/2017 às 10h57.
A CULTURA DO INSTANTÂNEO

Admmauro Gommes

Poeta, cronista e professor de Teoria Literária

admmaurogommes@hotmail.com



 

Viver em sintonia com os dias atuais implica adotar a cultura do instantâneo. Assim, objetos e pessoas passam a ser descartáveis, em nome de um consumismo desenfreado e momentâneo. Uma operação plástica, por exemplo, nem sempre acontece para corrigir lesão ou defeito mas para colocar o corpo em evidência, conforme um padrão anunciado, na semana passada.

 

A última palavra da moda caracteriza-se pela rejeição absoluta do modelo anterior. Os valores morais e éticos também são substituídos com uma velocidade muito grande. O que ontem parecia consenso, hoje, se transmuta com rapidez exatamente em direção oposta. E a intenção é nítida: confundir a mente da geração que se forma em torno das incertezas. Tudo é relativo e nada tem importância diante dos interesses pessoais.

 

O problema é que ninguém percebe, ao certo, para onde se está indo. Mesmo assim, muitos se colocam na condição de mentores, dirigentes, sem saber o caminho a seguir, e continuam arrastando outros para suas dúvidas. Ainda que se entenda que a influência imediata sempre foi absorvida por todas as recentes gerações, no momento atual, se um determinado líder descobrir que palmilhou por muito tempo um caminho torto, distorcido, e de repente mudar de partido político, a multidão que lhe acompanha fica dispersa, descartada. E uma nova bandeira ideológica é erguida pelas mesmas mãos que manipularam o engano. Assim, esquecemos com brevidade coisas perenes.

 

Sem perceber, trouxemos para a vida cotidiana as regras rígidas da ditadura da moda e da mídia. A internet tem influência direta nas mudanças de nosso tempo. Um lançamento de um produto chega em tempo real através dos smartphones. Aliás, um novo modelo do celular faz com que eu me aborreça com o que atualmente possuo, mesmo que esse seja eficiente e esteja atendendo todas as minhas necessidades. 


Deste modo, a propaganda abusiva produz efeito destruidor sobre a tradição, ao tempo que promove enorme encantamento para que todos descartem os seus pertences. Nas últimas décadas, jogamos fora os discos (Long Play, o LP). Colocamos em seu lugar o CD. Agora estão querendo nos convencer que voltar a usar LP é algo fascinante, pois se adota uma cultura retrô. 

 

Não é que devamos ser retrógrados e viver somente do passado mas é bom ponderar as situações propostas do mundo contemporâneo quando alteram a nossa condição de vida. Isso deve ser algo a se pensar: Por que rejeitarmos aquilo que tanto prezamos e o que tem apresentado efeito positivo por comprovados longos anos? Na época em que tudo se dissolve com muita facilidade, nem os amores são feitos para durar. Irremediavelmente, depois que descartarmos tudo que estimamos, seremos descartados pela mesma força instantânea que nos cerca e nos impulsiona para o descarte.

 

 

                                                                                                                                                                 

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