Publicada em 10/08/2017 às 11h53.
A FAMÍLIA VAI ALÉM DE UM CONTRATO SOCIAL

 

 


Admmauro Gommes
Poeta, cronista, palestrante, professor
de Literatura da FAMASUL (Palmares/PE)

admmaurogommes@hotmail.com 

 

 

Por ser a primeira instituição criada, e que se mantém tradicional, a família tem lutado muito para se adequar às regras de nosso tempo. Ninguém tem dúvida de que nos últimos anos tudo mudou, e que ela também vai mudar. O problema é saber onde exatamente cabe a mudança. Mesmo que assim se entenda, será impossível alterar sua essência. Traços como afeto e ternura, comunhão e partilha são indissociáveis de seu núcleo. Para que não haja confusão, é bom destacar a linha tênue que divisa casamento e família, família e empresa, o que faremos mais adiante.

 

Parece contraditório, mas ainda nesta era de tanta tecnologia e modismos universais, os preceitos para se criar filhos obedecem a uma forma instintiva por parte da mãe e do pai. Tanta psicologia não tem dado conta para explicar e orientar as infinitas reações diárias que os filhos emitem (ou omitem). Não se pode colocar o rigor formal de uma cartilha para instruir uma descendência, pois os mesmos mecanismos utilizados com sucesso por uma mãe, no filho primeiro, não funcionam adequadamente no segundo, porque este é outro e a mãe também é outra, para lembrar Heráclito (não se passa pela segunda vez no mesmo rio). As sugestões científicas, postas como normas, podem indicar favoráveis caminhos mas não garantem a eficiência dos procedimentos utilizados nos diversos casos.

 

Na verdade, os manuais pouco ajudam. O cuidado com a aplicação de infindáveis regulamentos, táticos e técnicos, na condução do lar, pode ser perigoso e transformar a família em uma empresa. Esta visa primariamente ao lucro e não deve ser domesticada pois, ao perdoar as dívidas, a falência será inevitável. Enquanto aquela, procura a satisfação e o bem-estar de seus componentes e não pode ser administrada como um CNPJ porque transformaria afetos em números. Confundir empresa com família é decretar a falência de ambas. Como representam polos distintos, os fins a serem alcançados são diferentes, constituindo-se grande erro entender a organização familiar como bolsa de valores, que quantifica o benefício e o transforma em ganho. Certamente, nenhum pai espera ressarcimento de tudo quanto investiu na formação de seu filho.

          

  Que ninguém se engane, o casamento, enquanto instituição social, vai continuar sofrendo as mutações de cada geração, mas a família permanecerá. Um dos maiores golpes, felizmente fracassado contra a família (não contra o casamento) foi elaborado por Platão, em A República. Nesta obra, o filósofo sugere que todo homem fosse criado pelo Estado, logo após o nascimento, bem longe do seio materno, para que se apagassem os vínculos afetivos. A ideia era fortalecer o Estado como dominante absoluto, anulando a base doméstica o que, segundo essa proposta, isentaria o ser humano de se envolver emocionalmente ao julgar ou favorecer os seus, pois não mais os conhecia. Na verdade, o plano era destruir o núcleo familiar. Mas isso não aconteceu e nem vai acontecer, pois o humano desprovido de sentimento não é mais humano e sem a família todos perdem a raiz e facilmente se evaporam.

           


 

 

Outras postagens
Admmauro Gommes
Poeta, cronista e professor de Literatura