Publicada em 13/03/2018 às 09h20.
Crânio de 2 mil anos encontrado no Agreste terá rosto reconstituído
Índio morto há cerca de 2.000 anos terá sua aparência restaurada a partir do estudo das características do seu crânio, encontrado na década de 1980.

Roberta Richard acredita que o índio tinha ascendência sobre os demais integrantes da tribo

Roberta Richard acredita que o índio tinha ascendência sobre os demais integrantes da tribo

Foto: Rafael Furtado

 

Um crânio de idade aproximada de 2.000 anos, encontrado no Sítio Arqueológico Furna do Estrago, no município de Brejo da Madre de Deus, no Agreste pernambucano (a 199 km do Recife), terá seu rosto revelado pela ciência no dia 24 de abril. Será a primeira reconstituição de um ser pré-histórico da região nordestina por meio de um programa de reconstrução facial forense (RFF), técnica que consiste em restaurar a aparência de um indivíduo em vida por meio das características do crânio.

Chamado apenas de “flautista”, a peça histórica, integrante de uma tribo indígena, foi encontrada durante uma escavação realizada na década de 1980, quando foram recuperados outros 83 crânios, que hoje estão no acervo científico do Museu de Arqueologia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). A reconstituição ocorrerá graças ao grau de conservação em que o flautista foi encontrado. O trabalho será feito por uma equipe multidisciplinar de várias partes do País, composta por arqueólogos, cirurgião plástico, biólogo, designer e historiador.


A possibilidade de reconstituir as feições do índio ganhou vida após os estudiosos se interessarem em conhecer a face da população pré-histórica da tribo, que vem sendo associada às primeiras características do homem nordestino contemporâneo. Escolhido por ser uma das peças mais emblemáticas do museu, sabe-se que o crânio em questão é de um homem adulto, com cerca de 45 anos, que morreu possivelmente de morte natural. Ele se destacou durante as escavações por conta do seu “enxoval” funerário - como são chamados os adornos enterrados junto ao corpo.

Chamou a atenção, em primeiro lugar, uma flauta confeccionada em uma tíbia humana (um dos ossos da perna), que estava entre os seus braços, talvez para emitir algum som de alerta para a tribo. Ainda com ele havia 22 contas de sementes, supõem os pesquisadores, de um provável colar, que o destacava dos demais integrantes do grupo. “Acredita-se que ele tinha uma postura importante na tribo, pois quanto maior o número de contas de semente, maior a hierarquia dentro dessa tribo da Furna do Estrago”, observa a coordenadora do Museu de Arqueologia e uma das participantes do projeto, a bióloga Roberta Richard.

Outro fato curioso é o estado em que foram encontrados os crânios na Furna do Estrago. Todos estavam encobertos por fibras vegetais, como num ritual de sepultamento. Entre as plantas, o caroá (da família das bromélias) e folhas de palmeiras, usadas também para a fabricação de cestas e redes. A dieta, porém, não era das melhores. As inflamações encontradas na dentadura do flautista dá indícios de que era alto o consumo de glicose, composta nos frutos. Eles também gostavam de se alimentar do caracol gigante, também chamado aruá-do-mato.

Pelos achados, supõe-se que o flautista vivia numa tribo caçadora-coletora. É o que acredita o coordenador de Pesquisa e Estudos Arqueológicos e Históricos da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Flávio Moraes, um dos pesquisadores envolvidos no trabalho. “Revelar o rosto do flautista será um avanço significativo para a arqueologia, uma vez que vamos nos deparar diretamente com um indivíduo ainda não compreendido em sua totalidade pela ciência. Por meio das características físicas, vamos saber o fenótipo de toda a tribo, como o tipo de olhos e cabelo, e a dinâmica da vida deles, até porque se trata de uma população de 2.000 anos que já conseguia polir e manusear utensílios para cortar carnes e quebrar sementes, por exemplo”, conta Moraes.

Próximos passos
A primeira parte do trabalho consistiu em digitalizar o crânio em 3D, por meio do escaneamento de fotos registradas em vários ângulos. O próximo passo - e o mais complexo - será modelar sobre ele os músculos principais da face e complementar com o restante dos chamados tecidos moles (a exemplo de gorduras e glândulas) e projetar a espessura da pele. O resultado será revelado ao público às 19h, no próprio Museu de Arqu
eologia da Unicap, que fica na avenida Oliveira Lima, 824, na Boa Vista. “Dia 24 de abril será o grande dia”, brinca Roberta Richard.
Folha PE
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