Publicada em 30/01/2023 às 08h22.
No Dia da Visibilidade Trans, grupos fazem ato em defesa da população travesti e transexual; 'Falta orçamento e diálogo', diz ativista
Manifestação aconteceu no Marco Zero do Recife, neste domingo (29). Pernambuco é o estado que mais mata pessoas trans e travestis no Brasil.


Ato no Dia da Visibilidade Trans, no Marco Zero do Recife — Foto: Pedro Alves/g1


Um ato no Marco Zero do Recife marcou, em Pernambuco, o Dia da Visibilidade Trans, celebrado neste domingo (29). Pedindo respeito e denunciando as inúmeras violências praticadas contra as pessoas transexuais e travestis, dezenas de pessoas se reuniram no local e cobraram do poder público inclusão dessas populações nos orçamentos governamentais.


O protesto ocorreu também como forma de homenagear as 13 pessoas trans mortas em Pernambuco em 2022. O estado foi o que mais registrou assassinatos dessa população no ano passado, em todo o Brasil. O país teve 131 casos e o mundo, 327.


Esta foi a primeira vez que Pernambuco teve o maior número de assassinatos de pessoas trans, desde o início do dossiê elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2008. São Paulo e Ceará vêm em seguida, com 11 mortes, cada.


Uma das organizadoras do ato, Caia Maria Coelho, vice-coordenadora da Nova Associação de Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco (Natrape), fez um recorte histórico das demandas da população travesti no estado.


Ela lembrou que a mobilização pelos direitos da população transexual em Pernambuco acontece desde a década de 1960.


Um exemplo histórico foi a tentativa frustrada de realizar um Congresso de Bonecas (travestis), em Caruaru, proibido de acontecer pela ditadura militar (1964-1985). Outra, um protesto, em 1984, contra o arquivamento coletivo de casos de assassinatos de travestis em Pernambuco.


"Falta um diálogo consistente. O estado já tem escutado nossas demandas há muito tempo, não tem como gestores, o poder público, não escutarem as travestis, porque estamos reiteradamente buscando reuniões, fazendo protesto, fazendo atos como o de hoje. O que falta é orçamento e diálogo consistente, com oportunidade de escuta pública", afirmou a ativista, que faz parte do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBT em Pernambuco.


Caia contou ainda que as violências praticadas contra as pessoas trans e travestis passam, também, pela invisibilização.


Um exemplo, segundo a ativista, é a falta de pesquisas da Comissão da Verdade no estado sobre as travestis durante a ditadura, mesmo havendo recomendação da Comissão Nacional da Verdade.


"O movimento está extremamente exausto, nos sentimos exploradas pelo estado, porque o nosso trabalho é feito de forma gratuita, enquanto eles estão remunerados, sem fazer o trabalho deles. Muitas vezes estamos suprindo demandas de saúde que o estado não supre. Por exemplo, só existem 11 ambulatórios LGBT para todos os municípios de Pernambuco", disse.


Outro participante do ato foi o trabalhador autônomo Luiz Gabriel Pereira, que convocou outros homens trans presentes para se apresentarem na ação. Luiz Gabriel ressaltou que, no caso das pessoas transmasculinas, a invisibilização acontece até mesmo dentro do movimento LGBTQIA+.


"A invisibilidade das pessoas transmaculinas acontece quando a gente fala de educação, esporte, saúde, lazer. A gente fala de empregabilidade, porque quando as empresas contratam alguém, sempre procuram um corpo padronizado, e isso é bem difícil para a nossa população, que acaba procurando outros meios para se manter. A única alternativa que se encontra, às vezes, é se suicidar. A gente não quer isso. Quer que as pessoas sejam reconhecidas como pessoas", declarou.


A falta de orçamento governamental também foi uma das críticas da advogada Robeyoncé Lima (PSOL), uma das codeputadas do mandato coletivo Juntas (PSOL). Ela contou que Pernambuco é um dos poucos estados em que parlamentares não podem interferir no direcionamento do orçamento estadual - o que dificulta ainda mais a inclusão de políticas direcionadas para a população LGBTQIA+.


"Não existe no orçamento do governo uma rubrica específica para programas para a população trans e LGBTQIA+ e a gente sabe que a principal demanda do movimento é por moradia, empregabilidade, renda e segurança pública. São demandas que exigem recursos públicos, senão não vão sair do papel", destacou Robeyoncé.


"O fundamental é cobrar e exigir das autoridades governamentais que destinem recursos para que essas políticas possam sair do papel", completou.

 


FONTE: G1.

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