
Defesa Civil fez a primeira simulação de tragédias / Foto: Folha PE.
A Defesa Civil do Estado realizou, na manhã desta sexta-feira (17), o 1º Simulado de Desastres como etapa de prevenção às chuvas no bairro de Jardim Monte Verde, extremo sul do Recife, na divisa com Jaboatão dos Guararapes.
O local, há cerca de dois anos, foi um dos pontos mais afetado pelas chuvas que marcaram o maior desastre natural da história de Pernambuco. Ao todo, apenas no bairro foram 43 mortos - 22 na divisa do Recife e mais 21 na parte de Jaboatão -, além de dezenas de desabrigados. No Estado, 133 pessoas perderam a vida, entre elas 23 crianças.
Os agentes simularam, nesta sexta, casos de deslizamento de barreiras no Alto Santa Isabel, que fica do lado de Jaboatão. Lá, em 2022, morreram quatro moradores de uma casa que foi soterrada pela queda da encosta. Foi justamente por fatores desse tipo que Jardim Monte Verde, cercado por morros e montes, sofreu com tantas mortes e tristeza há dois anos. A reforma de contenção da área vale ressaltar, é uma cobrança de longa data da população que não foi cumprida a tempo de evitar a tragédia.
Dinâmica da simulação
Neste ano, o objetivo da Defesa Civil foi treinar o tempo de resposta das
Forças de Segurança em catástrofes. No momento, foi estabelecido um plano
tático para atuação em desastre geológico/geotécnico, de acordo com o plano de
contingência municipal e com as normas operacionais do Corpo de Bombeiros
Militar de Pernambuco (CBMPE).
"A gente simulou um desastre de chuvas que já vêm perdurando há muitos anos, com a remoção de pessoas que moram em áreas de risco. Na ação, a gente traz pessoas que simulam moradores dessas zonas de risco e as levamos para atendimento em um abrigo, fazendo esse deslocamento. Ao mesmo tempo, também fizemos uma ocorrência de movimento de massa de pessoas que ficaram presos. O Corpo de Bombeiros faz essa simulação de resgate. Também temos mobilizado no Centro de Comando e Controle do Estado todos os pontos focais de órgãos para monitorar a situação", exemplificou o secretário estadual da Defesa Civil, coronel Clovis Ramalho.
Para a simulação foram estabelecidos 23 pontos de riscos, nove rotas de fugas, um abrigo e cinco vítimas. Também foram feitos bloqueios temporários na Avenida Serra da Mantiqueira e na Rua Monte Guararapes. Ao todo, 163 pessoas foram envolvidas, 55 veículos e aproximadamente e a população local também irão participar, cerca de 50 pessoas também foram ensinadas a como sair de casa no momento da emergência. O CBMPE participou com seis viaturas e 18 bombeiros, sendo dos veículos de comando, duas ambulâncias, dois carros de busca e salvamento, incluindo uma com cães.
Foram desenvolvidas ações como estruturação de posto de comando, simulando buscas realizadas por bombeiros e cães, por vítimas soterradas, atendimento à população e transporte para serviço de saúde. O GTA estará com uma aeronave para simular o resgate das vítimas e a Polícia Militar contará com 05 viaturas e 21 policiais envolvidos.
"Cenário de guerra"
Para os moradores, o que fica é uma apreensão constante para o período de chuva
neste ano. Uma dessas pessoas é Drayton Martins Gomes, funcionário público de 37
anos que morava no bairro em 2022 e relatou à Folha ter vivido um "cenário
de guerra". "Espero que nunca mais aconteça porque foi como o que
está acontecendo no Rio Grande do Sul. Os órgãos públicos têm conhecimento da
nossa situação, sabem que é uma grande área de risco, e têm que fazer algo
sobre", contou.
Drayton mora logo embaixo de um morro com alto risco de desabamento, já no território de Jaboatão. A área da sua casa, no entanto, foi contemplada por obras de contenção na barreira. Outras residências, no entanto, não tiveram a mesma realidade. "Tem muita casa aqui que não tá protegida pela barreira. Aqui na minha, depois de muita luta, graças a Deus isso deu certo, mas não tá bom ainda. A gente se preocupa pelos vizinhos, que estão desesperados. Quando o clima fica nublado, eles já começam a chorar, ficam com medo mesmo de viver aquilo tudo dê novo", explicou.
Sobre o atraso nas obras do local, o superintendente da Defesa Civil de Jaboatão dos Guararapes, Robson Costa, explicou que a construção do muro de arrimo na barreira como um todo é feita por etapas e depende de verbas do Governo Federal, Governo do Estado e do próprio município. "Essas obras são feitas por partes, então não é estranho você observar que um muro de arrimo foi até determinada parte e outra não. A parte que tinha maior risco de deslizamento já foi reformada e não possui mais riscos. Mas a retomada da construção nas outras áreas está nos planos, claro, e, assim que a verba entrar faremos isso", explicou.
Essas áreas ainda não têm previsão para retomada da construção, já que o dinheiro não depende do município. Para evitar tragédias, o superintendente revela que são adotadas outras medidas para controle de deslizamentos. "A gente utiliza também das zonas plásticas, que não é um paliativo, mas sim uma mitigação utilizada no mundo todo. A gente coloca a lona para evitar que a chuva penetre no solo. Claro, no devido tempo, as obras vão ser tocadas e vai ter uma obra de terra mais estruturada", completou.
Medidas
e obras de contenção
Já estão sendo tomadas medidas para contenção de deslizamento de barreira ano
bairro. O Governo do Estado tem em aberto uma licitação para contratação de
empresas para fazer obras nas encostas de Jardim Monte Verde, com um
investimento de R$ 60 milhões. O prazo para finalização desse processo e início
dos trabalhos no local é para junho deste ano.
"Estamos em fase final desse processo licitatório. Tem contenção de encostas em três áreas de Jardim Monte Verde no Alto do Parnaioca, Alto Santa Isabel e na Chapada do Arararipe. Queremos garantir que não haja deslizamento nesses pontos", explicou secretário Executivo de Desenvolvimento Urbano do Estado, Francisco Sena.
Ainda segundo o secretário, com as obras, de 90 a 120 casas localizadas em zonas de risco no bairro devem ser desapropriadas. Essas residências ainda estão sob avaliação, e as tratativas com os moradores deve começar apenas após a assinatura do contrato licitatório. "Todos os moradores dessas residências serão devidamente indenizados no valor das casas para que saiam com segurança", garantiu Francisco Sena.
Além das obras do Governo do Estado e dos trabalhos promovidos a partir do orçamento do Governo Federal, existem medidas do município no seu lado do bairro. Uma delas é a Estação de Base Avançada, que fica instalada dentro do bairro com agentes 24 horas por dia para atendimento da população. "A nossa ideia é servir como 'ponto de encontro' da população em caso de tragédias climáticas. Aqui, elas têm atendimento especializado, podem tirar dúvidas e fazer reclamações a qualquer momento. Essas estações também têm profissionais responsáveis por fazer a previsão meteorológica e emitir sinais para as equipes de resgate caso necessárias”, afirmou o superintendente da Defesa Civil, Robson Costa.
Na parte do bairro que fica no Recife, as obras estão sendo realizadas na Chapada do Araripe e no Morro do Pilar, ainda sem previsão oficial de conclusão. O principal objetivo da cidade é preparar a população para o atendimento. "Muitas vezes o que a gente vê são as pessoas ligando para as Forças de Segurança solicitando atendimento. Mas, entre ela desligar o telefone e o atendimento chegar, o que ela vai fazer? Então a gente faz simulações para educar a população a como agir nesses momentos, porque isso também salva vidas", explicou o gerente operacional de monitoramento da Defesa Civil do Recife, Sandro Marinho.
FONTE: FOLHA PE.