
Foto: Divulgação.
Os líderes de várias regiões
do mundo se reúnem a partir desta quinta-feira (6) na cidade de Belém (PA) para
tentar salvar a luta pelo clima, ameaçada por divisões, tensões internacionais
e a ausência dos Estados Unidos. Quase 50 chefes de Estado e de Governo
responderam ao convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comparecer
à cidade antes da COP30 da ONU (10-21 de novembro).
A escolha de Belém gerou
polêmica devido à sua infraestrutura limitada, que encareceu os preços e
complicou a viagem de pequenas delegações e representantes de ONGs. O Brasil
reservou fundos para abrigar gratuitamente delegados dos países mais pobres em
dois navios de cruzeiro fretados para a COP.
A cidade de quase 1,4 milhão
de habitantes nunca havia recebido um evento internacional de tal magnitude e
as autoridades aproveitaram para dar uma nova cara à cidade. “A COP dá a Belém
a notoriedade que merece. É importante que os olhares se voltem para nossa
região, para a Amazônia”, celebra Karol Farias, 34 anos, uma maquiadora no
emblemático mercado Ver-o-Peso, completamente reformado.
Contudo, o local que
receberá a reunião de cúpula, o Parque da Cidade, ainda era uma área em
construção na quarta-feira, repleta de operários que instalavam divisórias e
posicionavam móveis.
Os engarrafamentos em Belém
pioraram com o fechamento de algumas ruas e avenidas. “Não tenho nada contra a
COP, mas Belém não tem a infraestrutura necessária para receber um evento
assim”, protestou o taxista Agildo Cardoso. As autoridades mobilizaram quase
10.000 agentes das forças de segurança, além de 7.500 militares.
“Chega de discussão”
Para a presidência
brasileira, o objetivo é salvar a cooperação internacional 10 anos após o
Acordo de Paris. O evento acontece em um momento sombrio para o clima, depois
que a ONU admitiu que o mundo vai superar nos próximos anos o limite crítico de
1,5ºC de aquecimento global.
O Brasil não buscará grandes
decisões em Belém: o país deseja que a COP30 estabeleça compromissos concretos
e organize um monitoramento das promessas passadas, por exemplo, sobre o
desenvolvimento de energias renováveis.
“Chega de discussão, agora
tem que implementar o que nós adjetivamos”, declarou Lula em uma entrevista à
AFP e outras agências de imprensa no início da semana. O Brasil lançará nesta
quinta-feira um fundo dedicado à proteção das florestas, o Fundo Florestas Tropicais
para Sempre (“Tropical Forests Forever Facility”, TFFF), e um acordo para
quadruplicar a produção de combustíveis “sustentáveis”.
Vários países também querem
ampliar os compromissos para reduzir as emissões de metano, gás que contribui
consideravelmente para o aquecimento global.
Príncipe William, Macron,
Petro
Cento e setenta países
participam na COP30, mas o governo dos Estados Unidos, país que é o segundo
maior poluidor do mundo depois da China, não enviará uma delegação. A decisão
americana, no entanto, é um alívio para aqueles que temiam que Washington
dificultasse os avanços, como aconteceu recentemente ao bloquear um plano
mundial para reduzir as emissões de gases do efeito estufa do transporte
marítimo.
O presidente francês
Emmanuel Macron, o colombiano Gustavo Petro e o príncipe William da Inglaterra
participarão da reunião de cúpula.A maioria dos líderes do G 20, incluindo
China e Índia, não comparecerá ao encontro. Donald Trump, convidado por Lula,
ignorou a conferência. A segunda saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris
ocorreu em um cenário internacional tenso, de guerras comerciais e conflitos.
“Não é caridade”
Boa parte do mundo em
desenvolvimento segue insatisfeita após o acordo alcançado no ano passado em
Baku sobre financiamento climático e pretende discutir o tema novamente. “Não é
caridade, e sim necessidade”, declarou à AFP Evans Njewa, diplomata do Malauí
que preside o grupo dos países menos desenvolvidos.
A União Europeia (UE) e os
pequenos Estados insulares (Aosis) querem mais avanços na redução das emissões,
abordando o tema das energias fósseis. “Muitos dos nossos países não poderão
adaptar-se a um aquecimento que ultrapasse 2°C”, declarou à AFP Ilana Seid,
diplomata do arquipélago de Palau, no Pacífico, e presidente da Aosis. “Alguns
dos nossos países insulares deixariam de existir”.
O Brasil, que se apresenta como uma ponte entre o Norte e o Sul, não está isento de paradoxos: ao mesmo tempo que consegue frear o desmatamento, autorizou a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. “É muito contraditório”, disse Angela Kaxuyana, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. “Os mesmos países” que se comprometem com o clima são os que “negociam a exploração de petróleo” na maior floresta tropical do planeta, lamentou em Belém.
FONTE: FOLHA PE.