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Uma pesquisa inédita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vem chamando a atenção da comunidade científica brasileira nos últimos dias. Uma molécula denominada polilaminina tem se mostrado uma alternativa para o tratamento de lesões na medula.
Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, a bióloga e pesquisadora Tatiana Sampaio, que acompanha os avanços do estudo há quase 30 anos, comentou que seis dos oito pacientes com lesão medular completa que receberam a molécula tiveram alguma melhora observada na função motora.
Entre eles, o bancário Bruno Drummond, de 35 anos, que chegou a recuperar a capacidade de andar. Os outros tiveram melhoras sensitivas e motoras, mas sem ganhos funcionais consideráveis.
Apesar da expectativa criada pela descoberta, cientistas pedem cautela com a pesquisa, que ainda deve iniciar os estudos clínicos oficiais no próximo mês.
Em contato com a Folha de Pernambuco, o Sindicato de Biomédicos de Pernambuco (Sinbiope) explicou que o processo até a liberação da proteína deve ser demorado para seguir os protocolos da ciência.
"É preciso fazer vários testes para verificar qual é a melhor aplicação. Isso aí é o protocolo científico, é um protocolo de comprovação científica. Não só para a polilaminina, mas qualquer teste que você vai fazer nesse sentido para comprovar que aquilo realmente tem efeito, você tem que seguir esse protocolo e para garantir a segurança, porque a maioria dos medicamentos eles causam efeitos colaterais", afirma.
A primeira fase dos testes, que serão realizados pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), deve contar com apenas cinco voluntários para avaliar e garantir a segurança da pesquisa.
"É preciso comprovar que essas pessoas que estão usando essa medicação, tenham o benefício, mas não tenham nenhum outro dano também em relação àquilo que está sendo estudado e praticado", explica a entidade pernambucana.
Se for bem-sucedida, outras duas etapas ainda precisarão ser realizadas e aprovadas pela Anvisa até a substância poder ser, enfim, disponibilizada para o público.
"A expectativa é muito boa, mas a responsabilidade de uma intervenção científica precisa de comprovações. E para ser comprovado, precisa seguir os protocolos de comprovação científica, que é fazer os exames, testes e todo o trâmite para garantir que aquela substância é a que causa aquela melhora significativa", disse o sindicato.
Grupo controle
Durante a sua participação no Roda Viva, Tatiana Sampaio citou a possibilidade
de não contar com um grupo de controle durante as próximas fases da pesquisa.
Dentro da biologia, o grupo controle é utilizado como referência para comparar o tratamento testado com uma referência.
Em um cenário hipotético de avanços expressivos em
pacientes que receberam a substância fora de estudo, a pesquisadora argumentou
que poderia haver resistência a estudos controlados em meio a uma
"escolha" a quem receberia a substância da polilaminina.
Judicialização
Para ter o acesso ao tratamento com a polilaminina, pacientes têm recorrido à
Justiça para o uso compassivo do medicamento. Até o momento, foram pedidas
55 solicitações e 30 pessoas já receberam a aplicação, segundo a
pesquisadora da UFRJ.
Para Tatiana Sampaio, a judicialização dificulta as pesquisas científicas, já
que não traz o acompanhamento dos casos.
Além disso, a Anvisa permite que um médico solicite diretamente à agência o uso
compassivo de um medicamento experimental em casos específicos em até 45
dias.
O prazo, no entanto, é um tempo considerado longo demais para os pacientes com
as lesões na medula. Atualmente, a janela ideal para receber a polilaminina é
de 72 horas.
"Hoje está sendo constatado que os pacientes que estão fazendo uso desse protocolo de tratamento com a polilaminina estão atingindo a recuperação que antes nunca tinha sido vista. Então, isso é muito promissor até porque hoje a polilaminina está sendo utilizada em lesões neurológicas traumáticas".
Quem são os pacientes que podem receber a
polilaminina?
Segundo o Sinbiope, são pessoas que tiveram lesões recentes, como quem se
envolveu em um acidente de moto ou de carro e sofreu uma lesão medular.
"A partir dessa lesão, nas primeiras horas ou nos primeiros dois
dias, eles aplicam a proteína através de um procedimento já protocolado também.
[...] Eles vão fazer um procedimento cirúrgico para consertar a fratura,
geralmente na parte óssea, e precisa ser feita a cirurgia para poder
recuperar aquela parte estrutural, para depois aplicarem a proteína naquela
parte que foi danificada do axônio, na parte do sistema nervoso central
periférico", completa.
FONTE: FOLHA PE.