Publicada em 21/05/2026 às 12h57.
Estrela pede recuperação judicial: entenda a crise e relembre brinquedos que marcaram época
Com crédito restrito e 'maior competição com alternativas digitais', como motivos para crise. Operações serão mantidas enquanto dívida é reestruturada.

Foto: Divulgação. 


 Em 90 anos de história, a Estrela — fabricante de brinquedos icônicos como Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Pogobol e Susi — atravessou gerações sobrevivendo a crises econômicas e mudanças no mercado de brinquedos.


Agora, porém, a companhia sofre um novo “revés”, como determina aos jogadores uma das cartas clássicas do seu Banco Imobiliário: a marca anunciou ontem ter entrado com um pedido de recuperação judicial, com dívidas que somam R$ 109 milhões.


Segundo comunicado enviado pela empresa ao mercado, a decisão “decorre da necessidade de reestruturação do passivo do grupo, em um contexto de pressões econômicas e setoriais relevantes”. A Estrela cita fatores como o aumento do custo de capital e as restrições de crédito, além de mudanças no comportamento do consumidor, "com maior competição de alternativas digitais".


Banco Imobiliário


Com o objetivo de se tornar o jogador mais rico e evitar a falência, o jogo conquistou gerações. Nesse pequeno simulacro do capitalismo, é possível comprar propriedades, construir imóveis e cobrar aluguel. Além do tradicional, chamado de Retrô, há o de Realidade Aumentada e uma versão Mundo para comprar propriedades em Londres ou Doha.


Jogo da Vida


A trama se complica. Neste jogo de tabuleiro, o objetivo é acumular a maior quantia em dinheiro ao fim da partida. Mas, para isso, é preciso ir além das oportunidades financeiras. É necessário tomar decisões relacionadas aos estudos, escolher uma carreira, formar uma família e enfrentar golpes de sorte ou revezes até chegar à aposentadoria.


Detetive


“Foi o Coronel Mostarda, com o castiçal, na biblioteca”. Esse é o palpite clássico do Detetive em sua versão tradicional. Mais recentemente, os personagens mudaram, mas a ideia é a mesma: um crime aconteceu e todo mundo é suspeito. Os jogadores fazem perguntas e tentam descobrir quem é o culpado, qual foi a arma e onde aconteceu.


Susi
 

Um dos maiores ícones dos brinquedos no Brasil, a boneca Susi foi lançada em 1966. Foi uma resposta à americana Barbie. Ela representava o ideal da jovem brasileira, com roupas focadas nas últimas tendências. Versões antigas viraram item de colecionador. Este ano, foi lançado em São Paulo o musical “Susi - O tempo dispara”, inspirado na boneca.


Concorrência com importados


As agruras da Estrela, fundada em 1937 pelo alemão Siegfried Adler, não são recentes, mas se acumulam desde os anos 1990, quando o mercado brasileiro se abriu e os brinquedos importados ganharam espaço na rotina das crianças.


Quem acompanha a companhia lembra que, naquela época, o faturamento da Estrela caiu 50% num único ano, dada a concorrência com brinquedos importados principalmente da Ásia, de menor custo.


Segundo estatísticas da Abrinq, associação que reúne os fabricantes de brinquedos do Brasil, o faturamento total do setor foi de R$ 10,39 bilhões em 2025. Deste total, a produção nacional respondeu por R$ 5,535 bilhões, ou 53% do total. Em 2017, o faturamento do setor era de US$ 6,39 bilhões, e a produção nacional respondia por 59% do total.


— Desde os anos 1990, a empresa perdeu muita competitividade. Os percalços de mercado vão se acumulando — avalia José Antonio Ferraiuolo, sócio da 2xCapital, consultoria que presta assessoria administrativa e financeira à Estrela.


De lá para cá, entraram no tabuleiro também as mudanças comportamentais ao longo dos anos, com eletrônicos ganhando mais atenção do público infantil do que os brinquedos tradicionais.


Sócio-diretor da Gouvêa Consulting, Roberto Wajnsztok observa que o setor como um todo sofre com o interesse menor das crianças por produtos como bonecas, carrinhos e jogos de tabuleiros. Mas a sensibilidade da Estrela a esses fatores é ainda maior, já que a empresa manteve o portfólio fiel aos brinquedos tradicionais.


— A maior participação dos eletrônicos para o público infantil afetou diretamente as receitas da empresa, impactado também pelas importações, principalmente do mercado asiático, o que acaba drenando a demanda — analisa.


Se soma a esse cenário o contexto macroeconômico. Com o pedido de reestruturação, a Estrela se soma a um grupo de companhias que, nos últimos meses, recorreram a reestruturação judicial no país. Analistas avaliam que, em muitos casos, problemas de gestão vieram à tona diante de um cenário de manutenção da taxa de juros básica Selic em patamar elevado por muito tempo. Alguns exemplos são a Toky, dona da Mobly e da Tok&Stok, e a Casa&Vídeo.


No caso da Estrela, os credores são principalmente bancos e fundos de investimento.


A reestruturação da companhia, segundo ele, também inclui mudanças na operação, como ajustes de custo, com a terceirização de parte da produção e até aumento da importação de alguns produtos.


— São caminhos que estamos estudando companhia e que podem tornar a operação mais leve.


Com o anúncio da reestruturação, as ações da Estrela acumularam queda de 33,48% no fechamento do mercado ontem, negociadas a R$ 3 e levando o valor de mercado da companhia a R$ 24,25 milhões.


Nostalgia não funcionou


Nos últimos anos, a Estrela investiu no fator nostalgia para diversificar a receita, e relançou brinquedos clássicos como Banco Imobiliário e Detetive numa pegada retrô, mas não funcionou.


Ainda que exista uma busca por parte das famílias por brincadeiras desconectadas das telas e até adultos retomando brinquedos da infância, o que causa algum impacto nas vendas, não são movimentos suficientes para compensar o faturamento mais fraco, aponta Wajnsztok, da Gouvêa:


— Houve uma reinvenção em alguns aspectos, mas nem de longe esses mercados têm o impacto da demanda tradicional dos brinquedos. Não resolve o problema.



FONTE: FOLHA PE.




          

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