
Imagem: Marcos Santos / USP Imagens
O trabalho informal cresce de maneira persistente, quebrando recorde atr?s de recorde. Se por um lado isso indica que h? um respiro para quem precisa ganhar a vida, por outro, a lenta retomada do emprego formal, com carteira assinada, sinaliza que uma recupera??o robusta no mercado de trabalho tende a demorar.Mantido o ritmo atual de cria??o de vagas, a taxa de desemprego deve cair aos n?veis pr?-crise em 2024, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.
Na percep??o deles, o aumento cont?nuo da informalidade em velocidade muito superior ? cria??o de vagas formais indica que ainda h? desconfian?a dos empres?rios sobre a retomada econ?mica, o que trava investimentos e a consequente gera??o de empregos.
"Investidores e empresas ainda n?o est?o confiantes em rela??o ? retomada. Ent?o, ningu?m quer dar um passo forte e contratar de maneira formal", diz Juliana Inhasz, economista do Insper.
"Se n?o h? perspectiva de crescimento duradouro, j? que as reformas demoram para sair e os sinais est?o trocados da economia, o mercado acaba apostando em uma contrata??o 'com menos compromisso'", afirma.
Conforme os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat?stica), divulgados na sexta-feira (27), a informalidade bateu recorde no trimestre encerrado em agosto, com 38,8 milh?es de brasileiros nessa condi??o.
O n?mero considera empregados do setor privado e trabalhadores dom?sticos sem carteira assinada, trabalhadores por conta pr?pria e empregadores sem CNPJ e trabalhadores familiares auxiliares.
Esse contingente representa 41,4% da popula??o que est? trabalhando, a maior taxa desde que o IBGE passou a calcular esse indicador, em 2016.
J? a taxa de desemprego segue em queda, mas em ritmo t?mido. No trimestre fechado em agosto, o percentual foi de 11,8%, contra 12,3% nos tr?s meses at? maio.H? um ano era de 12,1%, e em agosto de 2017, de 12,6%.
"Tivemos um recuo de um ponto percentual do desemprego nos ?ltimos dois anos. Isso ? muito pouco. ? bom ver a queda, claro, mas estamos longe de alcan?ar os patamares pr?-crise", afirma La?sa Rachter do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Funda??o Getulio Vargas).
Para Cosmo Donato, economista da LCA Consultores, a conjuntura do pa?s tem for?ado pessoas que n?o trabalhavam (seja porque estudavam, tinha alguma renda guardada ou por n?o precisar) a procurar emprego, engrossando o total de desocupados no pa?s.Na sua avalia??o, esse cen?rio deve persistir ainda por muito tempo e isso vai fazer com que a queda do desemprego ocorra de forma lenta e gradual. "Projetamos que essa taxa s? vai cair na m?dia anual abaixo de 10% em 2024", diz.
O desemprego no Brasil era de 6,7% no trimestre terminado em fevereiro de 2014. Tr?s anos depois, em 2017, ela chegou a 13,2%, segundo dados do IBGE.
Donato diz, por?m, que s? observar recortes de ocupados e desocupados n?o basta para entender o cen?rio do mercado de trabalho. Ele afirma que o tempo de procura tamb?m ? relevante.
Nessa linha, a ?ltima Carta de Conjuntura do Ipea (Instituto de Pesquisa Econ?mica Aplicada), publicada h? duas semanas, mostra que a persist?ncia da crise e a lenta retomada alimentaram o desemprego de longo prazo no pa?s.
Por meio de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic?lios) Cont?nua do IBGE, os pesquisadores do Ipea mostram que, no segundo trimestre deste ano, 26,2% dos trabalhadores desempregados estavam nessa condi??o h? pelo menos dois anos.No mesmo per?odo de 2018, esse n?mero era de 24,4%.
Mas n?o ? apenas a falta de emprego que indica que o mercado est? demorando para reagir. Tanto os trabalhos formais quanto os informais emitem sinais sobre a dificuldade de retomada.
Adriana Beringuy, analista da coordena??o de trabalho e rendimento do IBGE, diz que isso ? n?tido na m?dia dos sal?rios. "Mesmo com mais pessoas trabalhando, esse crescimento n?o foi suficiente para aumentar a massa de rendimentos da economia, porque as pessoas est?o se inserindo com sal?rios mais baixos".
No caso das vagas celetistas, os empregos que abrem s?o justamente aqueles que pagam de um a dois sal?rios m?nimos e exigem menos qualifica??o.
De acordo com dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), em agosto foram abertas 42,4 mil postos formais com sal?rios de at? um sal?rio m?nimo. Outras 99,8 mil vagas aberta naquele m?s ofereceram sal?rio de at? dois sal?rios m?nimos. Ao mesmo tempo, o saldo de vagas com rendimentos superiores ficaram negativos.
A faixa et?ria que mais vem sendo contemplada com postos formais ? aquela que engloba jovens que acabam de entrar no mercado e tem entre 17 e 25 anos.
Juliana Inhasz, do Insper, lembra que o grande n?mero de pessoas em busca de uma vaga tamb?m pressiona os sal?rios para baixo.
O rendimento m?dio n?o tem tido grandes altera??es. Saiu de R$ 2.297 no trimestre at? maio e foi para R$ 2.298 nos tr?s meses at? agosto, segundo dados do IBGE. Em agosto de 2018, era de R$ 2.302.
Donato, da LCA, recomenda cautela com a ideia de que a informalidade ? um fen?meno do mundo moderno que ganha espa?o no Brasil. Em parte, diz ele, ? verdade que h? novas modalidades de atua??o profissional, mas o fen?meno ocorre de maneira for?ada e ainda pouco estruturado no pa?s.
"A crise l? atr?s pode at? ter antecipado um movimento estrutural de mudan?as no mercado de trabalho, mas por ser seguida de uma retomada lenta est? gerando uma debilidade na oferta de emprego de mais qualidade".
Vagas informais tamb?m costumam oferecer ganhos menores e sua expans?o contribui para reduzir o valor dos ganhos dos trabalhadores.
"As pessoas querem voltar para o mercado de trabalho e deixam de exigir uma remunera??o maior do que poderiam", afirma Inhasz.
FONTE: NOT?CIAS AO MINUTO