Publicada em 29/09/2019 às 09h50.
Deltan Dallagnol defende Lava Jato e denuncia 'vingança'
Em entrevista à AFP em Brasília, Dallagnol defendeu a legalidade dos questionáveis métodos utilizados na operação.

Imagem: Evaristo S?/AFP


O procurador Deltan Dallagnol, coordenador da maior opera??o anticorrup??o da hist?ria do Brasil, alertou que o establishment est? "se vingando" para interromper as investiga??es, como aconteceu na It?lia nos anos 1990 com o caso M?os Limpas.


Em entrevista ? AFP em Bras?lia, Dallagnol defendeu a legalidade dos question?veis m?todos utilizados na opera??o, que desde 2014 colocou atr?s das grades centenas de pol?ticos e empres?rios envolvidos em uma vasta rede de corrup??o centrada na estatal Petrobras.


Elogiado por muitos como her?i, o destino desse homem de 39 anos formando em Harvard mudou quando, em junho, o portal The Intercept Brasil revelou conversas privadas sugerindo uma intimidade entre ele e o ex-juiz  Sergio Moro, atual ministro da Justi?a, que segundo juristas poderia comprometer a imparcialidade de algumas decis?es. 


O caso levou a uma investiga??o contra ele no Minist?rio P?blico e a a??es legais contra Moro.


A entrevista coincidiu com o julgamento de um recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) que poderia levar ? anula??o de dezenas de senten?as de Lava Jato, incluindo uma que afeta seu prisioneiro mais famoso, o ex-presidente Luiz In?cio Lula da Silva.


O escopo do recurso, que poderia ser o mais duro golpe recebido pela megaopera??o at? agora, s? ser? revelado na pr?xima quarta-feira.


"N?o acredito que a Lava Jato vai ser anulada em massa ou de modo muito amplo. O que mais protege a Lava Jato s?o os resultados que ela alcan?ou. Caso se anulem os casos, o que ser? feito com os mais de 14 bilh?es de reais que est?o sendo devolvidos aos cofres p?blicos?", questionou.


P:  Voc? costuma dizer que a Lava Jato est? sendo atacada.


R: Somos um pa?s que sofre de um capitalismo de compadres, uma associa??o entre as elites econ?mica e pol?tica para garantir a impunidade dos criminosos de colarinho branco. Pela primeira vez, a Lava Jato surgiu como um movimento que rompe isso e abalou esses arranjos (...) ? natural que agora tenha uma rea??o, que ? o que a gente vive hoje.


P: Por quais setores e com qual finalidade?


R: H? um movimento de autoprote??o (do 'establishment'). Voc? v? no Congresso hoje sendo gestadas uma s?rie de projetos de lei que v?o amarrar as investiga??es de pessoas poderosas do ?mbito pol?tico e do econ?mico.


O efeito desses projetos ? colocar as institui??es de joelhos. Tamb?m existem projetos para enfraquecer os instrumentos que a gente usou na Lava Jato, como um para coibir a dela??o premiada dos r?us presos.


Tamb?m existe o lado do revanchismo (...) para  mudar as regras da Lava Jato e cortar a cabe?a dos l?deres. Hoje existem press?es no Minist?rio P?blico para que existam puni??es contra mim.


O mesmo aconteceu na opera??o M?os Limpas, na d?cada de 1990 na It?lia. A partir de um determinado momento, a classe politica conseguiu se rearranjar, se unir e agir contra esse movimento anticorrup??o, com, por exemplo, projetos contra supostos abusos de autoridade.


P: Voc? reconhece a autenticidade das mensagens vazadas ao The Intercept Brasil?


R: Os procuradores da Lava Jato foram hakeados, alvos de crimes. Essas pessoas que obtiveram as menssagens t?m sim mensagens verdadeiras (...)  Quando fomos hackeados a orienta??o oficial foi que sa?ssemos dos aplicativos e quando sa?mos, as mensagens foram apagadas tanto no celular quanto na nuvem.


N?o confiamos na origem criminosa desse material e n?o temos como atestar a autenticidade de frases publicadas tr?s anos atr?s tiradas de contexto para mudar o sentido. Mas v?rios assuntos a gente reconhece que tratou.


P: Em uma das mensagens divulgadas, voc? parece duvidar das provas que levariam Lula ? pris?o.


R: Isso ? mentira. Houve um momento anterior ? den?ncia, o momento de questionamentos (...) e antes de oferecer a acusa??o do triplex elaborei uma s?rie de teses, e submeti ? equipe uma s?rie de quest?es, 'isso est? certo?', 'isso aqui est? bem justificado?'. Isso aconteceu no caso do ex-presidente e em todos os outros casos. A maior prova de que o caso foi consistente ? que foi sentenciado com condena??o, e essa condena??o foi mantida por tr?s ju?zes independentes da segunda inst?ncia e foi mantida em terceira inst?ncia.


P: Houve excesso de pris?es preventivas ou dela??es em troca de redu??es de pena na Lava Jato. Como voc? sustenta isso? At? o novo procurador-geral nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro, Augusto Aras, prometeu corrigir esses excessos ...


R: A Lava Jato foi algo completamente inovador, sem precedentes... quando voc? faz algo novo ? poss?vel que cometa erros, no sentido de melhor ou pior. Mas do ponto de vista legal ou ilegal, n?s nunca ultrapassamos o limite.


P: No STF houve apenas uma condena??o de pol?tico com foro privilegiado


R: Se o STF julga as pessoas que tem foro privilegiado (senadores, deputados) ? de se esperar que existam tantas condena??es no STF como em primeira inst?ncia. No STF s? tivemos uma condena??o... o sistema tem suas engrenagens ajustadas para n?o funcionar contra pessoas poderosas.


FONTE: DP

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