Publicada em 03/10/2019 às 08h37.
Incêndios na Amazônia afetam crianças e custam R$ 1,5 milhão ao SUS
Em cinco cidades, o número de internações foi cinco vezes maior do que a média observada nos meses de maio e junho entre 2008 e 2018.

Imagem: Lula Sampaio/AFP


Pesquisadores da Funda??o Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Universidade de S?o Paulo (USP) e da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) divulgaram na ?ltima quarta-feira (2) resultados de um estudo sobre os efeitos que as queimadas na regi?o na Amaz?nia Legal t?m provocado sobre a sa?de infantil. Os dados mostram que, entre maio e junho deste ano, as interna??es de crian?as com menos de 10 anos que apresentavam problemas respirat?rios chegaram a 5.091, o dobro em rela??o ? m?dia calculada para o mesmo per?odo na s?rie hist?rica dos ?ltimos dez anos.


Esse aumento, puxado por aproximadamente 100 munic?pios situados pr?ximos a ?reas mais afetadas por inc?ndios, representa um custo excedente de aproximadamente R$ 1,5 milh?o ao Sistema ?nico de Sa?de (SUS). Foram 2.502 interna??es acima do esperado. Cada interna??o dura em m?dia quatro dias, custando R$ 630. Em cinco cidades, o n?mero de interna??es foi cinco vezes maior do que a m?dia observada nos meses de maio e junho entre 2008 e 2018: Santo Ant?nio do Tau?, Ouril?ndia do Norte e Bannach, no Par?; Santa Luzia d'Oeste, em Rond?nia; e Comodoro,em Mato Grosso.


"Isso ? s? de interna??es em hospitais que atendem pelo SUS. N?o est?o sendo contabilizados a? o atendimento em pequenas unidades de sa?de, nem os atendimentos domiciliares pelo m?dico de fam?lia, por exemplo. As interna??es na rede privada tamb?m n?o entram nessa conta", disse pesquisador da Fiocruz Christovam Barcellos.


O estudo foi realizado com base em informa??es p?blicas reunidas no Sistema de Informa??es Hospitalares (SIH) do Departamento de Inform?tica do SUS (DataSUS). Foi feita uma varredura para separar apenas os dados de interna??o hospitalar dos meses de maio e junho, o ?ltimo per?odo dispon?vel. Ao realizar esse procedimento, os pesquisadores tamb?m identificaram que a crian?a que vive em ?rea mais pr?xima aos inc?ndios tem 36% mais chances de precisar se internar por problemas respirat?rios.


O levantamento mostra ainda que, em cinco dos nove estados da regi?o, houve aumento das mortes de crian?as com menos de 10 anos hospitalizadas por problemas respirat?rios. Em Roraima, por exemplo, houve 2.398 ?bitos para cada grupo de 100 mil crian?as entre janeiro e julho de 2019. No mesmo per?odo do ano passado, a propor??o foi de 1.427 para cada grupo de 100 mil.


Queimadas


A Amaz?nia Legal corresponde a cerca de 61% do territ?rio brasileiro e engloba nove estados: Acre, Amap?, Amazonas, Mato Grosso, Par?, Rond?nia, Roraima e Tocantins e parte do Maranh?o. Nesta ?rea, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat?stica (IBGE), est?o 772 munic?pios.


Os inc?ndios s?o comuns na Amaz?nia no per?odo de seca, que se estende de maio a setembro. Nos ?ltimos meses, o aumento das ocorr?ncias gerou repercuss?o internacional. Para contornar a situa??o, o presidente Jair Bolsonaro decretou, em 23 de agosto, a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) Ambiental para ampliar o trabalho de combate ?s queimadas e a investiga??o sobre suas origens.


Uma apura??o em andamento verifica ind?cios de que fazendeiros se organizaram para atear fogo em ?reas de floresta no sudoeste do Par?. Um balan?o divulgado pelo Minist?rio da Defesa informou que j? foram aplicados R$ 36,37 milh?es em multas pela Opera??o Verde Brasil, que mobiliza as For?as Armadas, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov?veis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conserva??o da Biodiversidade (ICMBio).


Para Christovam Barcellos, parte desses recursos deveria cobrir os gastos excedentes com a sa?de p?blica. "O Ibama aplica multas aos propriet?rios rurais por infra??es relacionadas a queimadas e desmatamento. Por que n?o usar uma parte dessas multas para ressarcimento ao SUS? Isso pode ser uma proposta", afirmou.


Desafios


Os resultados do estudo foram reunidos em um um informe t?cnico do Observat?rio de Clima e Sa?de, coordenado pela Fiocruz.


De acordo com Christovam Barcellos, o informe alerta gestores e profissionais do SUS sobre a necessidade de programar atendimento a popula??es mais vulner?veis, idosos, ind?genas e pessoas com doen?as cr?nicas, al?m de crian?as. Mesmo adultos com boa sa?de s?o afetados. "? bom lembrar ao fazendeiro que provoca um inc?ndio que o filho dele tamb?m est? vulner?vel", enfatiizou o pesquisador.


Al?m disso, o estudo sugere refor?o na aten??o b?sica e na busca ativa, j? que alguns grupos populacionais podem n?o ter acesso a hospitais. Segundo Christovam, embora as maiores cidades da regi?o sejam bem estruturadas, h? um grande contingente populacional na Amaz?nia que vive em pequenas comunidades agr?colas, em ?reas de acesso remoto. S?o locais onde a investiga??o sobre a incid?ncia de doen?as se torna mais dif?cil.


"H? pessoas que podem ter sofrido com asma e bronquite, mas n?o tiveram acesso a hospital. Os ?ndios, muitas vezes, t?m que andar dias, usar canoa, para chegar a uma cidade. E isso tamb?m exige mais investimentos do SUS. As equipes de m?dicos da fam?lia precisam se deslocar longas dist?ncias. Em alguns lugares, ? preciso helic?ptero", destacou.


FONTE: FOLHA PE 

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