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Imagem: Reprodu??o
Circula pelas redes sociais uma mensagem que diz que Anita Roddick, fundadora da marca de cosm?ticos The Body Shop, doou US$ 10 milh?es ao cacique Raoni por meio da Funda??o Cobra Coral para comprar rem?dios e instalar ambulat?rios e escolas nas comunidades ind?genas e descobriu que o dinheiro, na verdade, foi gasto na compra de picapes e m?quinas para garimpo e extra??o de madeira ilegal das suas reservas. Mais: o texto diz que ela revelou essa hist?ria em um de seus livros. A mensagem ? #FAKE.
Anita escreveu diversos livros antes de morrer. A imagem que circula junto com a mensagem ? a capa de "Meu jeito de fazer neg?cios", vers?o em portugu?s para "Business as unusual", de 2001. Nele, n?o h? nenhuma men??o ao l?der ind?gena.
No livro, a escritora cita, de fato, que fez neg?cios com ?ndios da etnia caiap?, a mesma de Raoni. Mas ela n?o menciona o nome dele, e sim de outras duas lideran?as: Paulinho Paiakan e Pykative Pykatire ? ambos da Terra Ind?gena Kayap?, no sul do Par?. Raoni vive na Terra Ind?gena Capoto Jarina, em Mato Grosso.
Ela relata que a hist?ria teve in?cio durante uma viagem a Altamira, em 1989. E que foi Paiakan quem sugeriu, no in?cio, a possibilidade de um neg?cio entre as partes. Anita estava interessada em obter o ?leo da castanha-do-par? para seus produtos. "Seria o primeiro elo de com?rcio direto sustent?vel com a sociedade branca e tive orgulho de estar envolvida nisso", destaca, no livro.
As cifras, no entanto, est?o longe do propalado no texto falso viral ? ela cita, no livro, que a ideia era gerar uma renda potencial de US$ 50 mil ? comunidade em um ano.
Mais ? frente, a escritora diz que ficou decepcionada porque, apesar dos recursos enviados, os ind?genas continuaram recebendo dinheiro de madeireiros e que parte do dinheiro pago n?o estava chegando a toda a comunidade. Isso fez com que o acordo fosse quebrado.
Ela realmente fez investimentos em casas de sa?de em Altamira e Reden??o e na distribui??o de medicamentos. N?o ? verdade, portanto, que ela conte na publica??o que os ?ndios usaram o dinheiro dado por sua empresa pelo ?leo para comprar picapes F1000 e m?quinas para garimpo e extra??o de madeira ilegal nem que um avi?o tenha sido apreendido por contrabando.
Outro ponto que n?o faz o menor sentido na mensagem falsa ? o que diz que a fundadora da The Body Shop fez uma doa??o por meio da Funda??o Cacique Cobra Coral. A funda??o n?o tem nenhuma rela??o com os ?ndios caiap? e n?o atua na Amaz?nia.
Com sede em Guarulhos, na Grande S?o Paulo, ela ? conhecida por intervir para fazer ou n?o chover. Foi fundada por ?ngelo Scritori, morto em 2002. Hoje, ela ? dirigida pela filha Adelaide ? que diz incorporar o esp?rito do cacique Cobra Coral.
Em seu site, a funda??o diz que "atua no monitoramento das quest?es clim?ticas e na altera??o, por vias espirituais, de quadros adversos da meteorologia, como falta de chuva em locais com muita seca e chuvas muito fortes em outros locais". Ela j? fez conv?nios com as prefeituras de S?o Paulo e do Rio e atuou em grandes eventos, como o Rock in Rio.
Procurada, a funda??o diz que
nunca ouviu falar nas afirma??es contidas no texto falso.
Andr? Villas-B?as, secret?rio-executivo do Instituto Socioambiental, diz que o cacique nunca flertou com atividades predat?rias. "Ele sempre foi um incans?vel defensor da quest?o ambiental, da integridade do territ?rio, da floresta. Ele sempre foi assim e nunca se misturou.
A amizade com o Sting o levou pelo mundo afora e o tornou uma lideran?a conhecida internacionalmente, mas j? num discurso totalmente alinhado com a Eco 92, quest?o ambiental, prote??o das florestas, prote??o do patrim?nio cultural deles. Esse sempre foi o Raoni."
Por meio de sua assessoria, a The Body Shop diz desconhecer totalmente as informa??es contidas na mensagem. A empresa diz que Dame Anita Roddick, fundadora da companhia, foi pioneira no segmento de beleza sustent?vel no mundo.
"Em 1987, Anita lan?ou o programa Trade not Aid, hoje conhecido como community trade, ou com?rcio com comunidades, vigente at? hoje na The Body Shop, que consiste na compra de acess?rios e ingredientes naturais de comunidades produtoras por um pre?o justo, permitindo que elas se desenvolvam social e economicamente", diz, na nota.
"Por meio desse programa, a The Body j? comprou ?leo de castanha de uma etnia na Amaz?nia brasileira, assim como j? o fez em outros pa?ses. Hoje a The Body Shop conta com diversas comunidades produtoras de ingredientes no mundo todo, incluindo o Brasil com a comunidade de ?leo de baba?u na regi?o do Lago do Junco, no Maranh?o, rela??o essa que existe h? mais de 20 anos."
O texto falso apresenta v?rios dados errados. Ele diz que Anita Roddick morreu em 2017, mas, na verdade, ela morreu em 2007. Afirma ainda que o l?der ? yanomami, quando, na verdade, ele ? caiap?. A publica??o tamb?m fala que a Body Shop tem 5.400 lojas no mundo, mas a marca tem, na verdade, 3 mil lojas em 66 pa?ses.
Antes de Anita falecer, ali?s, ela e o marido, Gordon, conheceram os fundadores da Natura em uma de suas vindas ao Brasil. Na edi??o, apesar da decep??o com as lideran?as caiap?, a escritora diz que n?o tem como culpar os ?ndios pelo envolvimento com os madeireiros. "Isso seria culpar as v?timas."
FONTE: G1