Publicada em 03/10/2019 às 10h21.
É #FAKE que fundadora da The Body Shop revelou fraude do cacique Raoni
Mensagem acompanhada da capa do livro 'Meu jeito de fazer negócios' tem viralizado nas redes. Não há nenhuma menção ao líder na publicação.

Imagem: Reprodu??o 


Circula pelas redes sociais uma mensagem que diz que Anita Roddick, fundadora da marca de cosm?ticos The Body Shop, doou US$ 10 milh?es ao cacique Raoni por meio da Funda??o Cobra Coral para comprar rem?dios e instalar ambulat?rios e escolas nas comunidades ind?genas e descobriu que o dinheiro, na verdade, foi gasto na compra de picapes e m?quinas para garimpo e extra??o de madeira ilegal das suas reservas. Mais: o texto diz que ela revelou essa hist?ria em um de seus livros. A mensagem ? #FAKE.


Anita escreveu diversos livros antes de morrer. A imagem que circula junto com a mensagem ? a capa de "Meu jeito de fazer neg?cios", vers?o em portugu?s para "Business as unusual", de 2001. Nele, n?o h? nenhuma men??o ao l?der ind?gena.


No livro, a escritora cita, de fato, que fez neg?cios com ?ndios da etnia caiap?, a mesma de Raoni. Mas ela n?o menciona o nome dele, e sim de outras duas lideran?as: Paulinho Paiakan e Pykative Pykatire ? ambos da Terra Ind?gena Kayap?, no sul do Par?. Raoni vive na Terra Ind?gena Capoto Jarina, em Mato Grosso.


Ela relata que a hist?ria teve in?cio durante uma viagem a Altamira, em 1989. E que foi Paiakan quem sugeriu, no in?cio, a possibilidade de um neg?cio entre as partes. Anita estava interessada em obter o ?leo da castanha-do-par? para seus produtos. "Seria o primeiro elo de com?rcio direto sustent?vel com a sociedade branca e tive orgulho de estar envolvida nisso", destaca, no livro.


As cifras, no entanto, est?o longe do propalado no texto falso viral ? ela cita, no livro, que a ideia era gerar uma renda potencial de US$ 50 mil ? comunidade em um ano.


Mais ? frente, a escritora diz que ficou decepcionada porque, apesar dos recursos enviados, os ind?genas continuaram recebendo dinheiro de madeireiros e que parte do dinheiro pago n?o estava chegando a toda a comunidade. Isso fez com que o acordo fosse quebrado.


Ela realmente fez investimentos em casas de sa?de em Altamira e Reden??o e na distribui??o de medicamentos. N?o ? verdade, portanto, que ela conte na publica??o que os ?ndios usaram o dinheiro dado por sua empresa pelo ?leo para comprar picapes F1000 e m?quinas para garimpo e extra??o de madeira ilegal nem que um avi?o tenha sido apreendido por contrabando.


Outro ponto que n?o faz o menor sentido na mensagem falsa ? o que diz que a fundadora da The Body Shop fez uma doa??o por meio da Funda??o Cacique Cobra Coral. A funda??o n?o tem nenhuma rela??o com os ?ndios caiap? e n?o atua na Amaz?nia.


Com sede em Guarulhos, na Grande S?o Paulo, ela ? conhecida por intervir para fazer ou n?o chover. Foi fundada por ?ngelo Scritori, morto em 2002. Hoje, ela ? dirigida pela filha Adelaide ? que diz incorporar o esp?rito do cacique Cobra Coral.


Em seu site, a funda??o diz que "atua no monitoramento das quest?es clim?ticas e na altera??o, por vias espirituais, de quadros adversos da meteorologia, como falta de chuva em locais com muita seca e chuvas muito fortes em outros locais". Ela j? fez conv?nios com as prefeituras de S?o Paulo e do Rio e atuou em grandes eventos, como o Rock in Rio.


Procurada, a funda??o diz que nunca ouviu falar nas afirma??es contidas no texto falso.

 

Andr? Villas-B?as, secret?rio-executivo do Instituto Socioambiental, diz que o cacique nunca flertou com atividades predat?rias. "Ele sempre foi um incans?vel defensor da quest?o ambiental, da integridade do territ?rio, da floresta. Ele sempre foi assim e nunca se misturou.


A amizade com o Sting o levou pelo mundo afora e o tornou uma lideran?a conhecida internacionalmente, mas j? num discurso totalmente alinhado com a Eco 92, quest?o ambiental, prote??o das florestas, prote??o do patrim?nio cultural deles. Esse sempre foi o Raoni."


Por meio de sua assessoria, a The Body Shop diz desconhecer totalmente as informa??es contidas na mensagem. A empresa diz que Dame Anita Roddick, fundadora da companhia, foi pioneira no segmento de beleza sustent?vel no mundo.


"Em 1987, Anita lan?ou o programa Trade not Aid, hoje conhecido como community trade, ou com?rcio com comunidades, vigente at? hoje na The Body Shop, que consiste na compra de acess?rios e ingredientes naturais de comunidades produtoras por um pre?o justo, permitindo que elas se desenvolvam social e economicamente", diz, na nota.


"Por meio desse programa, a The Body j? comprou ?leo de castanha de uma etnia na Amaz?nia brasileira, assim como j? o fez em outros pa?ses. Hoje a The Body Shop conta com diversas comunidades produtoras de ingredientes no mundo todo, incluindo o Brasil com a comunidade de ?leo de baba?u na regi?o do Lago do Junco, no Maranh?o, rela??o essa que existe h? mais de 20 anos."


O texto falso apresenta v?rios dados errados. Ele diz que Anita Roddick morreu em 2017, mas, na verdade, ela morreu em 2007. Afirma ainda que o l?der ? yanomami, quando, na verdade, ele ? caiap?. A publica??o tamb?m fala que a Body Shop tem 5.400 lojas no mundo, mas a marca tem, na verdade, 3 mil lojas em 66 pa?ses.


Antes de Anita falecer, ali?s, ela e o marido, Gordon, conheceram os fundadores da Natura em uma de suas vindas ao Brasil. Na edi??o, apesar da decep??o com as lideran?as caiap?, a escritora diz que n?o tem como culpar os ?ndios pelo envolvimento com os madeireiros. "Isso seria culpar as v?timas."


FONTE: G1

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