
Comunidades têm situação mais complicada durante a pandemia - Foto: Tânia Rêgo
Mais de 100 mil. Desde os dois primeiros casos no Recife, há quase cinco meses, 100.321 pernambucanos foram infectados pelo Sars-Cov-2, o vírus da Covid-19, doença de comportamento incerto que ora se manifesta sem sintomas, ora lembra uma “gripezinha”, ora se revela uma infecção letal capaz de inflamar o corpo por dentro, obstruindo o sistema cardiovascular, os pulmões e os rins. Uma doença que expõe também as mazelas de um país desigual, onde os mais pobres são os mais vulneráveis. Embora o Estado atravesse uma fase de estabilização nos números, com retomada gradual das atividades, o novo coronavírus continua circulando, ainda que por diferentes maneiras em cada lugar.
Segundo o boletim epidemiológico da Secretaria Estadual de Saúde (SES), em 24 horas, foram confirmados, na quarta-feira (5), 1.488 casos. O número veio mais alto que a média dos dias, de acordo com o órgão, por causa de um atraso no repasse dos dados pelos municípios, gerando um acúmulo de notificações. Desse total, 84 foram diagnosticados como Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAGs), a forma grave da doença. A secretaria confirmou ainda mais 41 mortes por Covid-19. Com isso, ao todo, 6.758 pacientes morreram. Por outro lado, 77.142 se recuperaram.
Para a médica sanitarista e professora Tereza Lyra, esses dados resultam de uma falta de coordenação nacional. “Isso prejudicou em todos os sentidos, inclusive na compra de equipamentos. Os estados fizeram isso individualmente e os preços foram elevados. Faltou um discurso firme nacional de que essas medidas de isolamento e distanciamento social foram as únicas adotadas em todo o mundo que deram resultado”, observa.
Um dos públicos mais atingidos são os profissionais de saúde, que combatem a pandemia na ponta, no trato direto com os doentes. De acordo com o boletim, 19.363 contraíram a infecção, sendo a maioria desses, 5.400, auxiliares e técnicos de enfermagem. Mais de 94% foram curados. Na visão da médica Tereza Lyra, o País deveria ter articulado melhor a rede de atenção básica da saúde para adotar uma estratégia específica de isolamento da população mais exposta ao vírus e evitar o contágio nas famílias.

Médica sanitarista Tereza Lyra (Arthur Mota/Folha de Pernambuco)
“Na China, os profissionais de saúde ficaram em hotéis, isolados dos familiares. Os postos de Saúde da Família, bem equipados, conhecem as comunidades e teriam a sensibilidade de saber o início de um caso para até mandar a pessoa fazer uma quarentena rígida num espaço intermediário, e aí você ia bloqueando a epidemia”, argumenta.
Em meio às análises da curva que retrata a expansão da doença pelo Estado, o pesquisador Jones Albuquerque, do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), confirma a estabilização no número de casos, mas alerta que o vírus continua se espalhando. “Hoje [quarta-feira, 5] a taxa de contágio está em 0,96, ou seja, abaixo de 1. Isso significa 100 pessoas para contaminar 96. Então, teoricamente, a pandemia está se exaurindo. Mas a gente não deve acreditar nisso cegamente”, comenta.
A incerteza se mantém porque a pandemia passa por um processo de interiorização desde o início de junho. Enquanto o Litoral e a Zona da Mata viram a pressão sobre o sistema de saúde diminuir, o Agreste e, mais recentemente, o Sertão sofreram um aumento mais acelerado na contaminação, motivando a quarentena rígida em Caruaru e Bezerros, no fim de junho, e agora em Araripina e Ouricuri. “A decisão foi certíssima”, avalia Albuquerque. No entanto, ele acredita que os índices não devem diminuir muito. “A gente espera que não estoure para centena de óbitos [por dia]”, diz.
FONTE: FOLHAPE.COM.BR