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Metade da população mundial — 3,3 a 3,6 bilhões de pessoas — já paga um preço alto pelas mudanças climáticas e, mesmo que a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris seja cumprida, haverá "impactos severos e irreversíveis" nos ecossistemas, com consequências graves para abastecimento de água, energia e segurança alimentar. Os alertas são do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC/ONU), um grupo que reúne cientistas independentes internacionais para, a partir de centenas de pesquisas, apresentar os cenários futuros de um planeta cada vez mais quente.
O volume 2 do sexto capítulo
da publicação, que serve como base para as discussões das conferências
climáticas da ONU, as COPs, destaca as perdas e danos associados às mudanças
climáticas. "O relatório de hoje é um atlas do sofrimento humano, é um
testemunho constrangedor da falta de liderança climática", afirmou o
secretário-geral da ONU, António Guterres, na coletiva de imprensa onde os
resultados foram apresentados. Bastante irritado, criticou o setor privado por
fazer promessas de corte de emissões sem, contudo, tomar medidas. Também cobrou
de governos ações robustas, como o fim do uso de carvão mineral até 2040.
"Eu vi muitos relatórios científicos durante minha carreira, mas nenhum
como este."
O resumo do relatório Mudanças
Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade foi aprovado no domingo
por 195 governos membros do IPCC em uma sessão virtual e apresentado ontem. O
documento destaca que o aumento das ondas de calor, secas e inundações já está
excedendo os limites de tolerância de plantas e animais, levando à mortalidade
em massa. Cada décimo adicional de calor, diz o painel, pode levar ao
desaparecimento de até 14% das espécies terrestres.
Geografia
Esses extremos climáticos
estão ocorrendo simultaneamente, causando impactos em cascata cada vez mais
difíceis de gerenciar, diz o IPCC. Eles expuseram milhões de pessoas à
insegurança alimentar e hídrica aguda, especialmente na África, Ásia, América
Central e do Sul, em Pequenas Ilhas e no Ártico. "Essa vulnerabilidade tem
cor, raça, gênero, etnia e geografia", comenta Patrícia Pinho, um dos
autores do relatório e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da
Amazônia. "A grande mensagem é que a mudança climática é um brutal
agravador de desigualdades e um perpetuador da pobreza", acredita Stela
Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima.
O relatório destaca que um dos
ecossistemas afetados é a Floresta Amazônica, onde os impactos das mudanças
climáticas e do desmatamento produzem "perdas severas e irreversíveis de
serviços ecossistêmicos e biodiversidade", caso a temperatura, no fim do
século, esteja 2°C acima da registrada na era pré-industrial. O documento
mostra que doenças que já são desafiadoras para regiões tropicais, como a
dengue, podem afetar bilhões de pessoas em outras posições geográficas devido
ao aumento da área de incidência do mosquito transmissor, Aedes aeqypti.
Jeffrey Kargel, cientista do
Instituto de Ciências Planetárias de Tucson, no Texas (EUA), se diz
"chocado" com as revelações do IPCC. "Os impactos listados —
como secas, inundações, precipitação e abastecimento de água, furacões,
derretimento de geleiras e camadas de gelo, aumento do nível do mar,
derretimento do gelo marinho do Ártico e incêndios florestais — foram previstos
por décadas. No entanto, admito estar chocado e surpreso com a rapidez e a
intensidade com que eles estão se acumulando. Pessoas ao redor do mundo estão
observando com seus próprios olhos em suas próprias cidades, vilarejos e
fazendas."
"Este relatório reconhece
a interdependência do clima, da biodiversidade e das pessoas e integra as
ciências naturais, sociais e econômicas mais fortemente do que as avaliações
anteriores do IPCC", disse Hoesung Lee, presidente do IPCC. "Ele
enfatiza a urgência de ações imediatas e mais ambiciosas para lidar com os
riscos climáticos. Meias medidas não são mais uma opção", comentou.
"Em cidades, o número de
pessoas expostas a secas e enchentes muito provavelmente mais do que dobraria
entre 2000 e 2030, com 350 milhões de pessoas a mais expostas a escassez
hídrica devido a secas com 1,5°C de aquecimento", diz o relatório. "Muitos
impactos de trajetórias de overshoot (quando se ultrapassam os limites seguros)
seriam irreversíveis numa escala de séculos a milênios." Entre eles, estão
a possibilidade de derretimento de geleiras e solos congelados (permafrost) e a
perda de habitats costeiros. E isso se o mundo conseguir alcançar a meta mais
ambiciosa do Acordo de Paris, limitando a 1,5°C o aumento da temperatura em
2100, tendo como base o fim do século 19. Desde essa época, o mundo está 1,1ºC
mais quente e, segundo os especialistas do IPCC, até 2030 (uma década antes do
previsto), aumentará mais 0,4ºC.
"À luz dos compromissos
atuais, as emissões globais vão aumentar quase 14% na década atual. Isso
representará uma catástrofe. Vai destruir qualquer chance de manter viva a meta
de 1,5ºC", destacou António Guterres, apontando o dedo para os grandes
países emissores. Para abril, é esperado o terceiro capítulo do relatório, onde
serão apresentadas soluções para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Porém, o documento atual enfatiza que muitas das tendências previstas pela
ciência já podem ser consideradas irreversíveis.
Ameaça ao bem-estar
"A evidência científica
cumulativa deste relatório é indiscutível: a mudança climática é uma ameaça ao
bem-estar humano e à saúde do planeta. Este relatório baseia-se nas mensagens
dos documentos anteriores do IPCC, mostrando que os impactos e riscos
climáticos estão se proliferando em níveis específicos de aquecimento global.
Enquanto ações de adaptação (e mitigação) estão sendo tomadas em todo o mundo,
há crescentes lacunas no que diz respeito a evitar e reduzir riscos, bem como
lidar com impactos e riscos evitáveis e inevitáveis. Os limites de adaptação
serão alcançados em breve nos sistemas naturais e humanos sem ação urgente
sobre adaptação e mecanismos de perdas e danos. A ambição global de 1,5°C na
mitigação do clima é real: além desse nível de aquecimento, os impactos e
riscos se tornarão cada vez mais existenciais e irreversíveis",
Reinhard Mechler, um dos autores do relatório e pesquisador do Instituto Internacional de Análises de Sistemas Aplicados.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.