Publicada em 21/12/2022 às 08h45.
O que é a "PEC da Transição", aprovada na Câmara, e como libera gastos para promessas de Lula
Congresso discute nesta terça proposta que abre espaço no Orçamento para cumprir promessas de campanha de Lula.

Imagem meramente ilustrativa / Reprodução: Folha-PE.


O futuro governo alegou que, para honrar as promessas era preciso uma licença para gastar acima do atual teto de gastos, que limita o aumento das despesas da União à inflação do ano anterior. A solução encontrada para tal foi uma proposta de emenda à Constituição (PEC).

O texto-base da chamada "PEC da Transição" foi aprovada, em primeiro turno, na noite dessa terça (20). Veja a seguir o que foi aprovado, como foi driblada a atual regra fiscal e que diferença a decisão fará no caixa do futuro governo.

O texto havia sido aprovado no Senado. Como não houve acréscimo ao texto, não precisará ser submetido aos senadores novamente.


Teto de gastos

Em vigência desde 2017, o referido teto limitou por 20 anos os gastos do governo, considerando a necessidade de equilibrar as contas públicas, na relação entre despesas e arrecadação. A âncora central para essa barreira fiscal foi a elevação da dívida pública, atualmente em R$ 7,3 trilhões - o equivalente a 76,8% do PIB (Produto Interno Bruto) no último levantamento do Banco Central.

O ideal para essa relação de endividamento seria 60% para um país emergente como o Brasil, conforme avaliação da economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack.


Para ela, um maior nível de gastos públicos pode pressionar a dívida para uma patamar superior a 90% em relação ao PIB até 2026 - contando com a perspectiva de redução de juros no próximo ano, pois, caso contrário, seria um nível ainda maior.


— Quando a economia está forte, a arrecadação também está forte, permitindo um maior nível de gastos. Para expandir o gasto público (no cenário de enfraquecimento econômico) há duas formas. Ou você aumenta a tributação ou você financia a expansão do gasto com a elevação da dívida, trazendo prejuízo para a economia Brasileira. O Brasil perdeu o selo de bom pagador e podemos ver nossa economia sendo penalizada. O mercado financeiro não é contra o gasto social, é contrário ao fato de que não vai ser discutido um remanejamento de gastos dentro do orçamento público — avalia.


Teto ampliado em R$ 145 bi

O texto da PEC da Transição aprovado pelo Senado ampliou o teto de gastos em R$ 145 bilhões para os anos de 2023 e 2024. Quase metade desse total, R$ 70 bilhões, está previsto para garantir a continuidade do Bolsa Família no valor de R$ 600 por mês, com adicional de R$ 150 para cada criança de até seis anos.

Complementam o cálculo outros gastos adicionais, como o reajuste salarial de servidores do Poder Executivo, o aumento real do salário mínimo (acima da inflação) e liberação de recursos para políticas de saúde, como o programa Farmácia Popular.


No entanto, o valor dos gastos autorizados pela PEC, quando foi aprovada no Senado na segunda semana de dezembro, pode passar de R$ 200 bilhões de reais, considerando os gastos explicitamente quantificados.


Para alcançar essa cifra estão no radar outras despesas fora do teto de gastos, como o uso de R$ 22,9 bilhões pontilhados como excesso de arrecadação do ano passado ou uso R$ 26,6 em contas esquecidas de PIS/Pasep para investimento.


— O texto da PEC da Transiçãoé como descascar uma cebola. Depois os analistas vão descamando e entendendo um pouco mais os detalhes. Tem uma série de penduricalhos que acaba chegando a um momento próximo dos 200 bilhões. Não temos muita certeza (do valor final dos gastos) porque há um jogo político — menciona a economista Camila Abdelmalack.


Bolsa Família

Ainda que a "PEC da Transição" não tivesse sido aprovada, o futuro governo Lula teria outra alternativa para manter nos atuais R$ 600 o pagamento do Auxílio Brasil, que deve voltar a se chamar Bolsa Família em janeiro.

Em decisão do último domingo, atendendo petição da Rede Sustentabilidade, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, retirou o Auxílio Brasil das restrições orçamentárias do teto de gastos. Essa decisão tirou poder de barganha dos deputados em relação a Lula, que poderia ampliar os gastos necessários para o programa social por meio de medida provisória.


Para o ano de 2023, o ministro prevê os recursos excedentes da diferença entre o valor dos precatórios expedidos e o limite estabelecido pelo teto de gastos como fonte dos recursos. A utilização de créditos extraordinários, previsto para despesas imprevisíveis e urgentes, também foi considerada pelo ministro.



FONTE: FOLHA DE PERNAMBUCO.

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