Publicada em 03/01/2024 às 10h47.
A pior coisa que pais podem fazer pelos filhos é criá-los sem ajuda, diz pediatra
Quando você não tem outras pessoas por perto, as crianças e os pais sofrem.

Imagem meramente ilustrativa / Reprodução: Notícias ao Minuto.
Nascido em Nova York e formado em medicina pela State
University of New York, o pediatra Harvey Karp abriu seu primeiro consultório
do outro lado dos Estados Unidos, em Los Angeles. Lá, ele atendeu tanto as
pessoas por trás das câmeras, roteiristas, produtores, figurinistas, quanto as
celebridades. "Tive um bom número deles, como Pierce Brosnan, Michelle
Pfeiffer, Larry David, Madonna. As pessoas acabavam me encontrando", disse
o médico.
Karp lançou, em 2002, "O Bebê Mais Feliz do
Pedaço", um best-seller instantâneo e que não para de vender e de ser
passado de mão em mão de cuidadores de crianças mais velhas para pais de
recém-nascidos.
Tornou-se um fenômeno literário que nunca saiu da lista
dos mais vendidos. Traduzido em mais de 30 línguas, baseia-se em um conceito
muito simples: é possível fazer um bebê se acalmar e, consequentemente, dormir,
simulando os truques para os quais todos os cuidadores apelam quando nada mais
funciona: enrolar bem o bebê como um burrito, fazer um pouco de movimento, como
passear de carro ou chacoalhar de leve, um barulhinho constante, como o de um
secador de cabelo ou mesmo de uma pessoa fazendo sons com a boca, e dar uma
chupeta.
O livro fez de Karp um homem rico e famoso e resolveu o
problema de muitos pais desesperados. Mas criou outro, bastante mais complexo.
Para seguir essas regras tão simples era preciso que um adulto ficasse
acordado. Então, o pediatra tentou resolver o problema seguinte: como garantir
que o bebê dormisse a noite inteira em segurança e sozinho no quarto, para que,
assim, os pais também pudessem descansar?
E desse desafio surgiu o SNOO, um berço elétrico que faz
com que o bebê fique contido e que balança automaticamente quando percebe
choro, faz um barulhinho parecido com o que o feto ouve durante os meses em que
está sendo gestado e transmite informações aos pais por wi-fi, direto para os
celulares.
O problema do SNOO, no entanto, é que é caríssimo, cerca
de R$ 8.500. Agora, o desafio do pediatra é torná-lo acessível a todas as mães
de primeira viagem, sejam elas ricas, pobres, saudáveis, doentes, mais velhas,
mais novas, com babás ou sem ninguém. O que, aliás, Karp considera "a
grande mentira" dos nossos tempos. "A família normal não é formada
por dois pais e uma criança. Isso é uma aberração social", diz ele.
Folha - Por que o senhor diz que a família formada por um casal e uma
criança não é normal?
Harvey Karp - Quando consideramos a evolução humana, isso é
completamente anormal. A família estendida é o normal. A família nuclear é, de
muitas maneiras, um caminho errado. Pense nisso dessa forma: se são dois pais e
uma criança em uma casa, quantos relacionamentos essa criança pode ter? A
criança tem um relacionamento com a mãe, com o pai, com ambos os pais juntos e
consigo mesma. É muito pouca gente. É muito trabalhoso para os pais e
prejudicial para a criança.
Folha - O que seria uma família normal?
Harvey Karp - Durante toda a história, até muito recentemente, as
famílias moravam perto [uns dos outros]. Você tinha três irmãos, avós por perto
e as crianças da casa ao lado, o que dá um total de 12 pessoas, no mínimo, o
número de combinações aí passa de cem. O impacto disso em nossos filhos é
imenso. Vimos isso claramente durante a pandemia. O que deixa os pais loucos é
que eles não só têm que cozinhar, limpar, trabalhar e manter um relacionamento,
mas também têm que ser cuidadores em tempo integral e companheiros de
brincadeiras para seus filhos pequenos. Não é fácil. Leva o dia inteiro para
ser um companheiro de brincadeiras. Quando você não tem outras pessoas por
perto, as crianças e os pais sofrem.
Folha - O que um casal deve fazer se mora longe do
resto da família e tem um bebê?
Harvey Karp - As pessoas que contratam babás ou colocam seus filhos
em creches não estão fazendo nada de errado muito menos abdicando de suas
responsabilidades, estão fazendo algo bom e proporcionando um ambiente
socialmente muito mais rico para seus filhos. Descobriu-se que o maior
indicador de depressão pós-parto não é a falta de ajuda que você tem após o
nascimento do bebê, mas a expectativa de ter ajuda ou de não precisar dela –e
depois, de repente, precisar. É um desajuste entre expectativa e realidade.
Folha - Quer dizer que é melhor tolerar uma sogra
intrometida do que fazer tudo sozinha?
Harvey Karp - Não precisa exagerar. Mas, de novo, é normal que os
parentes ajudem uma nova mãe. O bebê não é único trabalho de uma nova mãe, ela
muitas vezes precisa cozinhar, limpar, lavar a roupa. Então a avó, a sogra, a
irmã, a vizinha poderiam segurar o bebê no colo. As mulheres costumavam
compartilhar essas responsabilidades. Isso era uma família normal. Agora, dizem
às mulheres que elas têm que segurar o bebê o tempo todo, cantar para o bebê
enquanto ele dorme porque o cérebro dele está se desenvolvendo. As
responsabilidades só se multiplicam. Precisamos ajudar as pessoas a aprender
como equilibrá-las para que não fiquem tão cansadas que não consigam cuidar nem
de si mesmas nem de seus bebês.
Folha - Você está dizendo que as mulheres devem fazer
todo o trabalho? Como esse modelo pode funcionar quando ambos os pais precisam
trabalhar em tempo integral?
Harvey Karp - Não estou dizendo isso, de maneira nenhuma. Costumava
ser assim e funcionava bem melhor do que nos dias de hoje, mas as coisas
mudaram. Nos Estados Unidos temos visto cada vez mais homens cuidando de
crianças. Ainda é um percentual pequeno em comparação com o que as mulheres
fazem, mas é duas ou três vezes mais do que os homens costumavam fazer. A outra
coisa é que as mulheres precisam ser mais bem remuneradas. Atualmente, as
mulheres fazem mais trabalho doméstico porque os homens geralmente ganham mais
dinheiro no emprego. E isso faz sentido. Mas à medida que pagamos mais às
mulheres, haverá mais homens que podem cuidar das crianças. Os homens podem
fazer isso perfeitamente bem. Não podemos amamentar muito bem, mas podemos
fazer outras coisas muito bem.
Folha - A realidade brasileira, socialmente muito mais
injusta em relação à remuneração de quem faz trabalhos domésticos ou cuida das
crianças, permite que muitas famílias tenham ajuda o tempo todo. Isso parece
bom para os pais e para as crianças, mas e para quem faz os trabalhos
domésticos ou de babá?
Harvey Karp - Esse é outro problema que precisa ser resolvido.
Precisamos pagar muito mais às mulheres que trabalham com cuidados infantis,
para que tenhamos pessoas inteligentes e capazes, e não apenas adolescentes de
15 anos sem nenhuma experiência [nos Estados Unidos é comum que estudantes
adolescentes cuidem de crianças na ausência dos pais, como um bico], mas, sim,
pessoas que veem isso como uma profissão. Todas essas mudanças sociais vão
ocorrer quando a gente reconhecer que é fundamental apoiar as novas famílias, o
que tornará a vida de todo mundo melhor e, no final das contas, reduzirá os
custos com saúde.
Folha - É muito comum ouvir falar de depressão
pós-parto, mas acho que existe a depressão dos dois anos, a depressão dos cinco
anos. Você concorda com isso?
Harvey Karp - Conforme a criança cresce, aumentam a culpa e os
problemas. Muitas pessoas que estão criando filhos hoje nunca seguraram um bebê
antes na vida. Isso não existia na cultura humana até os últimos 50 anos. Em
geral, quando uma mulher tinha um bebê, ela já tinha anos de experiência
criando os irmãos, as irmãs, os primos. Não precisava de nenhuma intuição ou
essas crendices populares sobre instinto materno, as pessoas aprendiam com a
experiência. Os pais de hoje não têm essa experiência e, pior, como são bem
educados academicamente, acreditam que vão resolver tudo com o cérebro.
Folha - As coisas mudaram muito na pediatria desde que
você começou a praticar até os dias de hoje?
Harvey Karp - Sim, muito, e sempre vão mudar. Quando comecei a
clinicar, fui treinado para dar ópio a bebês que choravam muito. O tratamento
médico normal era chamado de paregórico, que era ópio misturado com álcool.
Você podia comprar isso em qualquer farmácia. Depois aprendemos que os bebês
devem ficar presos em cadeirinhas quando estão no carro, e não no colo da mãe
no banco da frente. Então aprendemos diferente do que eu sempre ensinava às
pessoas, que o bebê só deveria dormir de bruços, o que era muito perigoso e
tivemos que mudar nossa abordagem. Os bebês devem dormir de lado. Agora, quero
ensinar às pessoas que elas devem deixar os bebês contidos quando estão
dormindo, o que é muito mais seguro do que deixá-los soltos no berço, onde
podem rolar e ficar numa posição em que prendem a respiração.
HARVEY KARP
Pediatra formado em medicina pela State University of New York, é criador do
berço elétrico SNOO e autor de diversos livros traduzidos para mais de 30
idiomas, entre eles o best-seller 'O Bebê Mais Feliz do Pedaço' (2002).
FONTE: NOTÍCIAS AO MINUTO.
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