
Foto: Divulgação.
Após análise de quase 2 mil
arquivos, vídeos e laudos técnicos, o Ministério Público de Santa Catarina
concluiu que o cão Orelha não foi morto após ser agredido por um grupo de
adolescentes, mas sim devido a uma “condição grave e preexistente”. O órgão divulgou
nesta terça-feira (12) sua decisão e pediu à Justiça o arquivamento do caso.
A morte do animal, que
aconteceu em janeiro deste ano, teve grande repercussão nacional. As
investigações da Polícia Civil de Santa Catarina revelaram na época que Orelha,
um cachorro comunitário, havia morrido após ser agredido cruelmente, por volta
das 5h da manhã na praia onde morava, por um grupo de adolescentes.
As autoridades pediram a
internação de um dos jovens que teria atacado o cão.
Segundo a análise feita pela
promotoria, os adolescentes e Orelha “não estiveram juntos na praia no período
da suposta agressão”. O órgão afirma que a morte do bicho – que foi submetido à
eutanásia – aconteceu devido a uma “condição grave e preexistente, e não à
agressão”.
A promotoria protocolou sua manifestação, que tem 170 páginas, no Juízo de Direito da Vara da Infância e Juventude da Comarca da Capital na última sexta-feira (8). O órgão afirma que o documento analisou quase dois mil arquivos digitais como vídeos, mensagens de celular e fotos.
Reconstituição
A reconstituição da
cronologia dos fatos feita pelo MP foi decisiva para a mudança do veredito,
segundo informa o órgão. Na versão da Polícia Civil, o adolescente que seria o
principal agressor teria permanecido na praia junto com o animal durante cerca
de 40 minutos. Após a análise do material, a promotoria concluiu que há
“inconsistências temporais que modificaram substancialmente a narrativa”.
O órgão afirma que após a
análise minuciosa dos vídeos foi identificada uma “defasagem de aproximadamente
30 minutos entre os horários registrados. As câmeras do condomínio registram
horário adiantado em cerca de 30 minutos em relação aos horários registrados
nas câmeras do sistema [de câmeras privadas]. Essa diferença de horário é
nitidamente perceptível pelas condições da luminosidade solar”.
A análise da promotoria diz
ainda que não existe nenhum registro da presença de Orelha na orla da Praia
Brava, local onde teria sofrido a agressão. Testemunhas ouvidas na investigação
confirmaram que o animal não foi visto na praia no início da manhã em que teria
sido atacado.
Além disso, as análises do
MP indicam que enquanto o jovem estava na praia, o animal estava “a cerca de
600 metros de distância”.
“Dessa forma, não se
sustenta a tese de que ambos tenham compartilhado o mesmo espaço por
aproximadamente 40 minutos, como afirmado nos relatórios policiais”.
O órgão vai além e afirma
que, pelas imagens analisadas, há a constatação “que o cão mantinha plena
capacidade motora e padrão de deslocamento normal quase uma hora após o horário
em que a investigação presume a ocorrência do ato da suposta agressão,
afastando a tese de que ele teria retornado da praia já debilitado por
‘agressões’ recentes”.
Exumação
Laudos periciais e
depoimento do médico-veterinário que atendeu o animal também foram decisivos
para a conclusão do Ministério Público.
Através desses elementos,
afastou-se a hipótese de maus-tratos a Orelha. Segundo análise pericial feita
após a exumação do cachorro, comprovou-se que não havia fraturas ou lesões
compatíveis com ação humana.
O que se comprovou é que o
cão tinha “sinais de osteomielite na região maxilar esquerda – uma infecção
óssea grave e crônica – possivelmente relacionada a doenças periodontais
avançadas, evidenciadas pelo acúmulo de cálculos dentários”.
Imagens do crânio de Orelha
revelaram ainda “uma lesão profunda e antiga, com perda de pelos, descamação e
inflamação compatíveis com infecção de evolução prolongada. A localização da
ferida, abaixo do olho esquerdo, é compatível com o edema observado pelo médico
veterinário que atendeu o animal”.
O cão tinha apenas “um
inchaço acentuado na região esquerda da cabeça e ocular”.
O MP diz ainda que o exame
de imagem não mostrou nenhum outro sinal de violência.
Arquivamento
Além de solicitar à Justiça
o arquivamento do caso principal, também foi arquivado o inquérito que
investigava coação dos familiares dos adolescentes a supostas testemunhas da
agressão.
O MP de Santa Catarina
solicitou ainda o envio de cópia dos autos à Corregedoria da Polícia Civil de
Santa Catarina para análise de possíveis irregularidades na investigação.
Também pediu à 9ª Promotoria
de Justiça da Comarca da Capital a “apuração de possível infração
administrativa relacionada à divulgação de informações sigilosas à imprensa,
com referência nominal a adolescente investigado”.
Polícia Civil
A Polícia Civil de Santa
Catarina informa que concluiu as investigações relacionadas ao caso e realizou,
oportunamente, a divulgação oficial das medidas adotadas no âmbito do inquérito
policial.
Após a conclusão do
procedimento, os autos foram encaminhados ao Ministério Público de Santa
Catarina, órgão constitucionalmente responsável por eventual oferecimento de
denúncia ou arquivamento.
A Polícia Civil de Santa Catarina e o Ministério Público de Santa Catarina atuam de forma independente, dentro das atribuições previstas na legislação. Assim, eventuais manifestações sobre a decisão de arquivamento do caso competem exclusivamente ao Ministério Público.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.