
Foto: Divulgação.
A
secretária executiva da Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, identificada
como Aline Melo, foi indiciada pela Polícia Civil de Pernambuco após a
investigação concluir que uma suposta tentativa de homicídio registrada na
PE-28, estrada de acesso à praia de Gaibu, teria sido forjada pelos próprios
envolvidos.
Os
detalhes da investigação foram apresentados no final da manhã desta
segunda-feira (18), durante coletiva de imprensa com a delegada Myrthor
Freitas, titular da 14ª Delegacia de Polícia de Homicídios (14ªDPH) e o
delegado Eduardo Tabosa.
Como ocorreu
Segundo
a delegada, o caso começou a ser apurado no dia 27 de março, quando a
secretaria e o motorista procuraram a delegacia relatando terem sido alvo de
disparos de arma de fogo enquanto seguiam de carro pela PE-28.
De
acordo com o relato apresentado inicialmente à polícia, o motorista e a
secretária haviam saído do trabalho com destino a Gaibu. Antes de acessar a
PE-28, eles passaram por uma obra, mas disseram que não desceram do veículo nem
tiveram contato com ninguém.
O
motorista afirmou que percebeu uma motocicleta com faróis de LED tentando
ultrapassar o carro pelo acostamento. Em seguida, segundo ele, foram efetuados
disparos de arma de fogo contra o veículo.
“Ele
disse que ignorou achando que seria uma pessoa doida na estrada. Mais na frente
escutou o primeiro disparo e alertou a passageira para que se abaixasse”,
detalhou a delegada.
Imagens mudam rumo da investigação
Inicialmente,
a Polícia Civil passou a buscar imagens de câmeras de segurança para tentar
identificar a motocicleta envolvida no suposto atentado. Porém, durante o
aprofundamento das diligências, investigadores encontraram um detalhe
considerado crucial.
Uma
câmera instalada em uma empresa no início da PE-28 registrou uma motocicleta
com as mesmas características descritas pelo motorista parada no acostamento.
Logo depois, o carro onde estavam as supostas vítimas também parou no local.
Segundo
a polícia, os ocupantes do veículo e o motociclista interagiram durante cerca
de 17 segundos.
“A
equipe conseguiu imagens de câmeras de segurança de trechos por onde poderiam
ter passado tanto a moto quanto o carro. Em uma dessas imagens, captou a moto
parada na banqueta e, logo em seguida, o veículo onde estavam as vítimas também
parou e eles interagiram durante 17 segundos”, explicou Myrthor Freitas.
Durante
as investigações, policiais receberam informações de que o pai do motorista
possuía uma motocicleta semelhante à registrada nas imagens.
Ele
foi chamado para prestar depoimento e, inicialmente, negou ter passado pela
PE-28 no dia dos fatos. Segundo a delegada, o homem afirmou que apenas saiu de
casa para ir até a delegacia após receber uma ligação do filho relatando a
tentativa de homicídio.
No
entanto, após ser confrontado com as imagens, ele mudou a versão e admitiu que
era o motociclista flagrado pelas câmeras. De acordo com o depoimento, o
encontro teria ocorrido para a entrega de “canetinhas emagrecedoras”, que
seriam levadas para Gaibu.
“Questionamos por que eles não mencionaram esse encontro antes. Poderiam ter dito apenas que pararam e conversaram. Não é um detalhe que se esquece”, afirmou a delegada.
Contradições
da investigação
Enquanto
o motorista optou por permanecer em silêncio após ser confrontado com as
imagens, acompanhado por advogados, a secretária inicialmente afirmou não
lembrar da parada.
Depois,
segundo a polícia, ela mudou a versão e disse ter percebido apenas que o
motorista havia “pegado ou entregue algo”.
Questionada
se reconhecia o motociclista, ela respondeu negativamente.
Para
a polícia, as contradições fortaleceram a suspeita de que o caso havia sido
arquitetado pelos próprios envolvidos. “A partir disso, as investigações se
iniciaram nesse sentido”, afirmou o delegado Eduardo Tabosa.
Apesar
da conclusão de que o atentado foi forjado, a Polícia Civil confirmou que os
disparos realmente aconteceram. O carro passou por perícia e teve duas marcas
de tiros constatadas.
Segundo
a investigação, os disparos teriam sido efetuados pelo pai do motorista, que
pilotava a motocicleta.
A
delegada destacou ainda que a secretária Aline Melo, também correu risco de ser
atingida.
“As
fotos da perícia mostram que os disparos passaram muito próximos da janela onde
ela estava. Um errinho ali poderia ter atingido a passageira”, disse Myrthor
Freitas.
Ainda
segundo a delegada, o motociclista assumiu o risco ao efetuar disparos enquanto
pilotava sozinho, no escuro e pelo acostamento da rodovia.
De
acordo com o delegado Eduardo Tabosa, o trecho da PE-28 onde ocorreram os
disparos possui pouca iluminação, acostamento estreito e ausência de câmeras de
videomonitoramento.
“No
momento exato dos disparos não há câmera de videomonitoramento. A rodovia tem
baixa iluminação, o que dificultou as investigações”, explicou.
Imagens
analisadas pela polícia também mostram a motocicleta e o carro retornando pouco
tempo depois do suposto atentado.
Segundo
a investigação, a diferença entre as passagens dos veículos era de apenas três
a quatro minutos. Para os investigadores, o curto intervalo reforçou a
existência do complô entre os envolvidos.
Aline
Melo e o motorista do veículo foram indiciados, segundo a polícia, pelos crimes
de fraude processual, falsa comunicação de crime e denunciação caluniosa. Já o
pai do condutor foi indiciado por fraude processual e tentativa de homicídio.
O
inquérito policial já foi concluído e encaminhado ao Ministério Público de
Pernambuco, que deverá analisar o caso e decidir sobre eventual denúncia à
Justiça.
Secretária se pronuncia em vídeo
Em
um vídoe publicado no Instagram na noite desta segunda-feira, a secretária
afirmou receber com "serenidade" o resultado das investigações da
Polícia Civil.
"Recebo
com serenidade, mas com total seriedade a conclusão das investigações sobre o
episódio do 26 de março de 2026, que envolveu o meu veículo e os relatos que
fiz as autoridades naquela data. Respeito o trabalho das instituições e estou à
disposição da Justiça para colaborar com tudo que for necessário, como sempre
fui e sempre estive até agora", afirmou.
O que diz a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho
Em
nota, a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho informou que tomou conhecimento,
nesta segunda-feira, sobre o caso envolvendo a então secretária da Mulher,
Aline Melo.
Diante
dos fatos apresentados e enquanto as investigações seguem em andamento pelas
autoridades competentes, a gestão determinou o afastamento da então secretária
e do motorista citado no caso.
A
Prefeitura reforça que acompanhará o andamento das investigações e, caso haja
confirmação de conduta irregular e responsabilização dos envolvidos, adotará
todas as medidas administrativas cabíveis.
A gestão municipal reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e o respeito à população.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.