
Foto: Divulgação.
Um
relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que traz dados inéditos sobre
as condições de ambiência e infraestrutura prisional no Brasil, apontou que
sete das oito unidades prisionais vistoriadas em Pernambuco apresentam
superlotação de até 425%.
Além
da superlotação apontada no levantamento do CNJ, que divulgou os dados na
terça-feira (30), foram identificados racionamento de água, com fornecimento
acontecendo em alguns casos por apenas uma hora e meia por dia, e ausência de
Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros em todas unidades visitadas.
De
acordo com o CNJ, o 1º Mutirão Nacional de Diagnóstico da Habitabilidade do
Sistema Prisional realizou as inspeções entre os dias 21 de outubro e novembro
do ano passado.
Entre
as unidades prisionais vistoriadas, estão: Colônia Penal Feminina de Abreu e
Lima (CPFAL), Cadeia Pública de Petrolândia; no Presídio de Salgueiro; Cadeia
Pública de Afogados da Ingazeira; Cadeia Pública de Tabira; Presídio de Vitória
de Santo Antão (PSVA); Cadeia Pública de Nazaré da Mata; e Cadeia Pública de
Carpina.
Superlotação
Os
dados das vistorias, que contou com a participação da Secretaria Nacional de
Políticas Penais (SENAPPEN), evidenciou uma pressão de ocupação em parte
expressiva das unidades inspecionadas.
Das
oito unidades visitadas, sete apresentavam ocupação superior à capacidade
projetada, com destaque para o Presídio de Salgueiro, no Sertão, que apresenta
uma superlotação de 425,24%, situação considerada crítica pelo CNJ.
De
acordo com o relatório, esse quantitativo acontece porque o Presídio de
Salgueiro recebe pessoas privadas de liberdade provenientes de cinco regionais,
circunstância que intensifica a pressão sobre a ocupação e agrava as limitações
de habitabilidade da unidade.
Outras
unidades prisionais que apresentam superlotação crítica são a Cadeia Pública de
Petrolândia, no Sertão, (300%), Presídio de Vitória de Santo Antão, na Zona da
Mata, (291%), Cadeia Pública de Tabira, no Sertão, (240%) e a Cadeia Pública de
Afogados da Ingazeira (212,5%), também no Sertão.
Na
cela padrão aferida na Cadeia Pública de Petrolândia, por exemplo, foram
registradas três leitos para 19 internos.
Com
relação a única unidade prisional destinada ao público feminino vistoriada pelo
CNJ, a Colônia Penal Feminina de Abreu e Lima, foi constatada uma ocupação de
148,44%, situação que compromete as condições de habitabilidade das celas.
A
única unidade prisional que não teve superlotação apontada na vistoria foi a
Cadeia Pública de Nazaré da Mata, na Zona da Mata. Porém, o estabelecimento
apresenta inconformidades estruturais relevantes, segundo o CNJ.
Problemas
estruturais
A
maioria dos problemas estruturais encontrados nas vistorias tem relação com a
falta de ventilação e iluminação naturais, além da presença de umidade,
infiltrações e mofo.
Na
Cadeia Pública de Carpina, na Zona da Mata, por exemplo, foram contadas
luminárias sem proteção adequada, temperatura interna quente, além de umidade,
mofo e pintura em estado precário.
Com relação a ventilação e iluminação naturais inadequadas, o caso destacado pelo relatório foi identificado na Cadeia Pública de Nazaré da Mata.
Lá,
uma das celas inspecionadas tinha uma área total de aberturas que correspondia
a 1,65 metro quadrado, equivalente a 10,69% da área do piso. Esse percentual é
inferior ao mínimo de 40% recomendado para a zona climática da unidade.
Outros
problemas identificados nas inspeções foram a ausência ou insuficiência de
acessibilidade; fragilidades na gestão de resíduos e salubridade; além da
recorrente ausência de itens de regularização ambiental, sanitária e de
segurança contra incêndio.
Algumas
unidades também não possuem cozinhas, área de “descompressão” dos servidores,
espaços específicos para visitas, incluídas as de caráter íntimo.
Vale
destacar ainda que todas as unidades visitadas têm o mecanismo de trancas das
celas operando de forma manual.
Racionamento
de água
Também
foi constatado em algumas das unidades o processo de racionamento de água nas
unidades. Dentro desse cenário, a Cadeia Pública de Afogados da Ingazeira tem
um destaque negativo sobre o abastecimento, já que as celas dessa unidade tem a
disponibilização de água por apenas uma hora e meia por dia.
Isso
faz com que os internos tenham que usar recipientes de armazenamento no
interior das celas. A presença de baldes para armazenar água também acontece no
Presídio de Salgueiro, onde a água é disponibilizada nas celas por seis horas
diárias.
O
Presídio de Vitória de Santo Antão (PSVA) também apresentou problemas no
abastecimento de água, chegando a passar 34 dias sem fornecimento regular.
A
maioria das unidades prisionais visitadas também apresenta ausência de análises
periódicas de potabilidade da água e de monitoramento dos efluentes, com
algumas unidades, como a Cadeia Pública de Petrolândia, tendo o escoamento de
esgoto a céu aberto em seu entorno.
Problema
hidráulicos em chuveiros, pias e vazão de água nas celas também foram
evidenciados no relatório do 1º Mutirão Nacional de Diagnóstico da
Habitabilidade do Sistema Prisional.
Combate
a incêndios
A
vistoria do CNJ aponta ainda que sete das oito as unidades prisionais visitadas
não têm Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) válidos.
Dois exemplos que evidenciam problemas para combater possíveis incêndios foram constatados na Cadeia Pública de Nazaré da Mata e no Presídio de Vitória de Santo Antão (PSVA).
Segundo
o relatório, não foram identificados sistemas fixo de combate a incêndio,
sinalização de emergência, iluminação de emergência e rotas de fuga indicadas.
Na
vistoria feita no PSVA, de forma específica, foi verificado que a unidade tinha
apenas a presença de dois extintores, que estavam com a validade expirada.
Questões
ambientais e sanitárias
Com
exceção do Presídio de Salgueiro, que não teve a ausência do Plano de
Gerenciamento de Resíduos Sólidos evidenciado nos relatórios, todas as outras
unidades não possuem esse tipo de documento, apesar de todas demonstrarem
problemas na coleta dos resíduos.
Na
Colônia Penal Feminina de Abreu e Lima, por exemplo, foram observados vetores
de doenças, como baratas. Segundo o relatório, a unidade não possui um programa
estruturado de controle de pragas com dedetizações esporádicas.
Com
relação às licenças ambientais, todas as unidades vistoriadas não apresentaram
esse tipo de documento.
Constatação
do relatório
De
acordo com a conclusão do estudo, “todos os elementos encontrados nas vistorias
reforçam a necessidade de planejamento estadual de manutenção e ajustes, com
definição de prioridades, cronograma de intervenções e articulação
institucional voltada à melhoria das condições de habitabilidade, à
descompressão da ocupação e ao avanço da conformidade técnica das unidades
prisionais no estado”.
A
reportagem do Diário de Pernambuco procurou a Secretaria de Administração
Penitenciária e Ressocialização de Pernambuco (SEAP-PE) para saber se a pasta
irá se posicionar sobre os dados constatados pelo CNJ, mas não obteve retorno
até a publicação desta matéria.
Problemas
nas unidades prisionais de Pernambuco
Historicamente,
as unidades prisionais de Pernambuco enfrentam problemas que foram constatados
por diversos órgãos de fiscalização nacionais e internacionais.
Em
maio deste ano, o Conselho Penitenciário de Pernambuco (Copen/PE) realizou uma
inspeção no Presídio de Igarassu, no Grande Recife, e constatou superlotação e
irregularidades envolvendo presidiários.
Na
vistoria, realizada em 21 de maio e publicada no site do Ministério Público
federal (MPF), foi detectado que a “unidade é a mais superlotada do estado”,
com 6.125 detentos para 1.226 vagas.
A
estrutura é dividida em 15 pavilhões e o efetivo contava com 106 policiais
penais, sendo 23 distribuídos na área administrativa e o restante trabalhando
em regime de plantão. Além disso, o relatório apontava que, “apesar do elevado
contingente carcerário, o presídio não dispõe de ambulância”.
Durante
a vistoria, os representantes do conselho constataram também a permanência da
figura de representantes dos presidiários (chaveiros) e identificaram na época
11 cantinas administradas pelos próprios detentos.
Essa
vistoria aconteceu pouco mais de um ano depois da Operação La Catedral, que
desarticulou uma organização criminosa composta por detentos e policiais
penais. Na época, o diretor da unidade, Charles Belarmino de Queiroz, acabou
sendo preso.
No
ano passado, o Ministério Público Federal (MPF) realizou uma inspeção no
Presídio Leonardo Lago (PLL), localizado no Complexo Prisional do Curado, na
Zona Oeste do Recife.
Durante
a vistoria, foram verificadas as condições da estrutura física e dos serviços
prestados no local. As inspeções constataram que a unidade possuía na época
apenas salas de aula para o nível básico de ensino, falta de biblioteca e baixa
quantidade de policiais penais por turno. Também foi constatado a existência de
médico psiquiatra para atender os detentos.
Em
2024, o Centro de Observação Criminológica e Triagem Professor Everardo Luna
(Cotel), em Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife, foi alvo de uma
inspeção do Ministério Público Federal (MPF).
Um
dos maiores problemas identificados no presídio foi a superlotação, sendo
constatado que a unidade abrigava na época 4.147 pessoas privadas de liberdade,
quando tinha capacidade de 950 vagas divididas em cinco pavilhões. Outra
deficiência apontada na época foi o número de agentes prisionais, que tinha
média de 11 profissionais por plantão.
Em
2016, uma comitiva da Organização dos Estados Americanos (OEA) realizou uma
inspeção do Complexo do Curado, no bairro do Sancho, na Zona Oeste do Recife, e
constataram na época a continuidade da superlotação na unidade.
A inspeção foi feita por juízes da Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA e representantes das organizações, acompanhados de equipes dos governos estadual e federal.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.