
Foto: Divulgação.
A
defesa de Marcelo da Silva, réu pelo assassinato da menina Beatriz Angélica
Mota, de 7 anos, pediu à Justiça de Pernambuco a transferência do julgamento do
Tribunal do Júri de Petrolina para o Recife sob o argumento de que a trajetória
política de Lucinha Mota, mãe da vítima, compromete a imparcialidade do
Conselho de Sentença.
Segundo
o advogado Rafael Nunes, a possibilidade de apoiadores e eleitores de Lucinha
Mota integrarem o grupo de jurados cria um cenário de “pré-julgamento” do
acusado. O pedido de desaforamento, protocolado na última semana, também
sustenta que há risco à integridade física do réu e dos advogados caso o
julgamento seja realizado na cidade onde o crime ocorreu.
A
defesa afirma que não existem condições para a realização de um julgamento
imparcial em Petrolina. De acordo com o advogado Rafael Nunes, a atuação
política de Lucinha e a mobilização popular em torno do caso influenciaram a
percepção da população sobre o processo.
“A
defesa de Marcelo da Silva entende que existem, sim, riscos de que o Tribunal
do Júri seja realizado em Petrolina. Há risco à integridade física do meu
cliente, pelas questões colocadas na peça, bem como também o entendimento dos
jurados, que já está contaminado pela forma como a mãe da vítima se tornou
política”, afirmou.
Na
avaliação do advogado, a atuação eleitoral de Lucinha pode refletir diretamente
na composição do Conselho de Sentença.
“Seus
eleitores podem cair ali. Ela se tornou vereadora, então [são] muitos votos,
muitos seguidores na região. Certamente o Conselho de Sentença pode ser
composto por admiradores e simpatizantes da questão política e pessoas que
acompanharam e têm um pré-julgamento.”
No
pedido encaminhado ao Tribunal de Justiça de Pernambuco, a defesa relata que
episódios ocorridos durante as audiências de instrução, realizadas em novembro
e dezembro de 2022, evidenciaram um ambiente de hostilidade em torno do
processo. O pedido fala em “risco concreto à integridade física do acusado e
dos próprios advogados constituídos, decorrentes da comoção popular gerada pelo
caso.”
Segundo
a defesa, foi necessário o acionamento da Polícia Militar para conter os ânimos
e evitar agressões durante as audiências. Os advogados também sustentam que,
além do risco à integridade física, a imparcialidade dos jurados estaria
comprometida pela intensa mobilização social conduzida por Lucinha Mota desde o
assassinato da filha.
Entre
os argumentos apresentados está a caminhada de aproximadamente 720 quilômetros
realizada por Lucinha entre Petrolina e o Recife, em dezembro de 2021, para
cobrar das autoridades a conclusão das investigações do caso. A mobilização
teve ampla repercussão e reuniu apoiadores ao longo do percurso.
A
defesa também cita a trajetória política da mãe de Beatriz. Lucinha disputou
uma vaga na Câmara Municipal de Petrolina nas eleições de 2020 e voltou a
concorrer em 2024. Entre outubro de 2023 e setembro de 2024, exerceu mandato de
vereadora ao assumir a vaga deixada por Júnior Gás, que perdeu o cargo após
decisão da Justiça Eleitoral.
Posteriormente,
deixou o mandato em razão da perda da vaga por infidelidade partidária. Antes
disso, em 2022, foi candidata a deputada estadual e, em janeiro de 2023,
assumiu a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco.
Para
os advogados, esse histórico ressalta a tese de que parte da população de
Petrolina mantém vínculo político ou simpatia com Lucinha, o que poderia
influenciar o julgamento. O pedido de desaforamento aguarda análise do Tribunal
de Justiça de Pernambuco.
O caso Beatriz
Beatriz
Angélica Mota, de 7 anos, foi assassinada com 42 golpes de faca durante a festa
de formatura da irmã, no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Petrolina, na
noite de 10 de dezembro de 2015. O crime ocorreu dentro de uma sala desativada
da escola e provocou grande repercussão em Pernambuco e no país.
As
investigações se estenderam por mais de seis anos. Em janeiro de 2022, a
Polícia Civil anunciou que havia identificado Marcelo da Silva como autor do crime
após o cruzamento de perfis genéticos obtidos a partir de vestígios de DNA
encontrados na faca apreendida na época do assassinato.
Marcelo,
que já cumpria pena por crimes sexuais, confessou o homicídio em depoimento
gravado em vídeo. À polícia, afirmou que entrou no colégio para cometer um
furto e que matou a criança após ela gritar ao encontrá-lo.
O Ministério Público denunciou Marcelo por homicídio triplamente qualificado, por motivo torpe, emprego de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima.
Ao decidir submetê-lo a júri popular, em dezembro de 2023, a juíza Elane Brandão Ribeiro destacou que as provas reunidas no processo também apontam indícios de que a motivação do crime pode ter relação com violência de natureza sexual.
Durante
a fase de instrução, Marcelo permaneceu em silêncio por orientação da defesa.
Os advogados passaram a sustentar que ele não é o autor do assassinato e
questionam a validade da confissão e das provas produzidas.
Desde a decisão de pronúncia, a defesa apresentou recursos ao Tribunal de Justiça de Pernambuco e ao Superior Tribunal de Justiça para tentar impedir a realização do júri popular, mas todos foram rejeitados.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.