
Foto: Divulgação.
Dois
anos após a última inspeção, a Defensoria Pública de Pernambuco concluiu que a
situação do Presídio de Igarassu permanece crítica. O Relatório de Inspeção de
Estabelecimento Prisional, divulgado na última semana, aponta superlotação
extrema, ausência de documentos obrigatórios de funcionamento, manutenção de
estruturas informais de poder exercidas por presos, precariedade nas condições
de alimentação, assistência jurídica insuficiente e desigualdade nas condições
de cumprimento de pena.
A
unidade, projetada para 1.226 vagas, abrigava 6.127 pessoas presas no dia da
fiscalização, atingindo taxa de ocupação de 499,8%, praticamente cinco vezes
acima da capacidade oficial. Para a equipe de inspeção, a estratégia adotada
pelo Estado para enfrentar o problema não produziu resultados concretos.
“Os
dados demonstram que a estratégia não produziu resultados concretos. Ao
contrário, transcorridos dois anos, verifica-se o agravamento da superlotação,
com aumento absoluto da população prisional e manutenção de uma taxa de
ocupação próxima de 500%. O cenário evidencia que a simples inauguração ou
ampliação de vagas prisionais, desacompanhada de políticas estruturais de
controle do ingresso e de redução da população carcerária, revela-se
insuficiente.”
A
inspeção também constatou que o presídio continua funcionando sem alvará de
funcionamento e sem laudos da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros Militar e da
Vigilância Sanitária. O documento ainda registra que não existe protocolo
específico de combate a incêndios, embora a direção informe haver extintores
distribuídos pela unidade.
Um
dos principais problemas apontados pela Defensoria é a permanência do poder
exercido pelos chamados “chaveiros”, presos que continuam administrando
aspectos da rotina interna dos pavilhões.
Segundo
o relatório, após a administração definir apenas em qual pavilhão cada detento
ficará, cabe ao chaveiro decidir em qual cela, cama ou espaço ele será alojado.
“A
dinâmica significa delegação informal de atribuições tipicamente estatais de
gestão cotidiana prisional, evidenciando-se a fragilidade no controle estatal
sobre a distribuição da população prisional, e potencializa riscos de
arbitrariedade, discriminação, extorsão e fortalecimento de estruturas
informais de poder no interior da unidade.”
Durante
as entrevistas, presos relataram cobrança para obtenção de camas e
comercialização de espaços mais privilegiados dentro dos pavilhões.
A
Defensoria destaca ainda que, embora tenham sido interrompidas novas
construções improvisadas conhecidas como “kitnets”, permanecem denúncias de
comercialização de celas com melhores condições.
“Verifica-se
que a interrupção das construções das ‘kitnets’ não foi acompanhada da retomada
integral do controle sobre a organização interna, confirmando as denúncias
colhidas ao longo da inspeção de que as celas com melhores condições de
aprisionamento e demais privilégios ainda são comercializadas.”
Cantinas permanecem sob comando de detentos
Outro
ponto considerado preocupante é a permanência das cantinas administradas por
presos. Atualmente existem dez cantinas em funcionamento dentro da unidade. De
acordo com a Defensoria, a direção informou que duas foram fechadas
recentemente, mas não explicou os critérios utilizados nem por que as demais
continuam funcionando.
Além
disso, não existe regulamentação para escolha dos responsáveis nem controle dos
preços cobrados.
“Os
‘donos’ das cantinas são escolhidos entre os próprios presos. A Gerência não
adota procedimento específico para a escolha ou substituição dos responsáveis e
também não existe controle ou regulamentação interna sobre o funcionamento das
cantinas, inclusive quanto à definição e fiscalização dos preços praticados.”
As
entrevistas revelaram diferenças entre os pavilhões. Enquanto alguns presos
ocupam celas individuais com banheiro privativo, chuveiro, sanitário e
abastecimento contínuo de água, outros dividem instalações extremamente
precárias.
O
relatório destaca a situação do pavilhão K, onde aproximadamente 300 pessoas
utilizam apenas cinco chuveiros e três sanitários. Também foram identificados
locais onde os presos precisam utilizar baldes durante o período de trancamento
das celas para fazer necessidades fisiológicas.
“Além do privilégio dos banheiros individuais, existe muita discrepância sobre a quantidade de pessoas que usam o mesmo banheiro coletivo, destacando-se a situação degradante de um banheiro coletivo no pavilhão ‘K’ em que são divididos cinco chuveiros e três sanitários por aproximadamente trezentas pessoas.”

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Racionamento de água
Segundo consta no relatório, a administração do presídio afirma que o abastecimento é suficiente, mas os relatos dos presos indicam cenário diferente.
O documento mostra que o acesso à
água varia conforme o pavilhão. Há locais com fornecimento contínuo, enquanto
outros recebem água apenas em horários determinados.
“A qualidade da água foi
avaliada, em geral, como adequada e limpa. Já a quantidade fornecida não se
mostrou suficiente para a população carcerária e prejudica atividades de
higiene e consumo, exigindo complementação por meio da cantina ou de outros
meios.”
Além disso, a inspeção
encontrou uma cozinha em condições consideradas extremamente precárias. Os
defensores registraram equipamentos deteriorados, piso quebrado, instalações
comprometidas e trabalhadores sem utilização adequada dos equipamentos de
proteção individual.
“A equipe de inspeção
observou que a cozinha apresenta condições extremamente precárias, com
instalações deterioradas, equipamentos insuficientes e deteriorados, piso
quebrado e de difícil limpeza. O cenário compromete a segurança alimentar das
pessoas presas por risco de contaminações e doenças.”
O relatório também critica o
intervalo de aproximadamente 12 horas entre o jantar e o café da manhã
seguinte. “A permanência prolongada sem acesso a alimentos representa
insegurança alimentar e pode ocasionar prejuízos nutricionais, agravamento de
doenças preexistentes e intenso sofrimento físico.”
Nas entrevistas, muitos
presos afirmaram que passam fome e dependem da alimentação levada por
familiares ou comprada nas cantinas.
Atendimento jurídico demora mais de um ano
Segundo os relatos, os
pedidos de atendimento passam pelos chaveiros ou pelos setores psicossocial e
jurídico da unidade, fazendo com que alguns presos aguardem mais de um ano para
serem atendidos.
Um dos depoimentos colhidos
durante a inspeção aponta ainda suspeita de cobrança ilegal para encaminhamento
à Defensoria. “Um entrevistado relatou que só conseguiu ser encaminhado ao
atendimento da Defensoria Pública mediante pagamento: ‘só leva se pagar’.”
Durante a fiscalização, os
defensores receberam diversos pedidos de atendimento e encaminharam a lista
para as equipes responsáveis pela assistência jurídica.
O relatório registra que o
presídio conta atualmente com 106 policiais penais lotados e que, nos últimos
doze meses, não houve registros de fugas, rebeliões ou homicídios. Houve
aumento do efetivo em relação à inspeção anterior, quando havia apenas seis
policiais em plantão.
Apesar disso, os presos
relataram episódios de revistas invasivas, uso de spray de pimenta, agressões,
destruição de pertences e punições coletivas.
O documento também observa
que o videomonitoramento cobre apenas corredores, pátios e áreas comuns. “Não
existem câmeras dentro das celas e os pontos cegos são controlados por outras
pessoas presas.
O que diz o Estado
A Secretaria de
Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) informa que o fluxo de
redirecionamento de pessoas privadas de liberdade provenientes do Centro de
Observação e Triagem Criminológica (Cotel), em Abreu e Lima, vem sendo
realizado para unidades prisionais com vagas disponíveis, evitando o
encaminhamento ao Presídio de Igarassu. Nos últimos três meses, esse plano de
contingenciamento possibilitou a redução de mais de 1.400 custodiados na
unidade.
A pasta destaca, ainda, o
acréscimo de 3.018 vagas com a entrega das novas unidades prisionais de
Araçoiaba, Itaquitinga e Recife. Também estão em andamento obras que irão
acrescentar mais 4.769 vagas, sendo 1.590 em Araçoiaba, 3.024 no Complexo
Prisional de Itaquitinga e 155 na Penitenciária de Caruaru. A previsão é de
que, até o fim de 2026, sejam entregues 7.787 novas vagas no sistema prisional
pernambucano.
No âmbito da segurança,
permanece em execução, em parceria com o Ministério Público de Pernambuco, o
plano de ação para a redução gradual e o posterior encerramento do
funcionamento das cantinas nas unidades prisionais. A medida já foi adotada nas
novas unidades prisionais do Estado, que não contam com esse tipo de estrutura.
Com relação à instalação de câmeras de vigilância, a Seap esclarece que, em respeito aos direitos fundamentais das pessoas privadas de liberdade, não é permitida a instalação desses equipamentos no interior das celas, sendo o monitoramento realizado exclusivamente nas áreas comuns.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.