Publicada em 13/08/2026 às 10h31.
MPPE devolve inquérito sobre artesã intoxicada com mercúrio e cobra perícia de vídeos
Promotoria cobra perícia nos vídeos, imagens de câmeras do hospital e novos depoimentos antes de avaliar eventual denúncia.

Foto: Divulgação.     


 O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) devolveu à Polícia Civil o inquérito que investiga a suposta tentativa de homicídio contra a artesã Denny de Souza Cardoso, de 43 anos, intoxicada por mercúrio no Recife.


O órgão apontou lacunas que, neste momento, impedem o oferecimento de denúncia contra Maria Aparecida Rodrigues de Araújo, investigada por supostamente colocar a substância na garrafa de água da vítima.

 

A decisão consta de uma requisição assinada pela promotora Rosângela Furtado Padela Alvarenga, da 28ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, e determina que a Polícia Civil realize novas diligências no prazo máximo de 60 dias após o recebimento do inquérito.

 

Segundo o documento, embora a investigação policial tenha reunido elementos como laudos periciais, exames toxicológicos e gravações feitas pela própria vítima, o MPPE considera que ainda não há segurança probatória suficiente para o oferecimento da denúncia.

 

“A análise dos autos, contudo, evidencia lacunas relevantes que inviabilizam, por ora, a justa causa e a higidez probatória necessárias ao oferecimento da denúncia”, afirma a promotora no documento.

 

Um dos principais problemas apontados pelo Ministério Público está justamente nas imagens consideradas pela Polícia Civil como uma das principais provas do caso. De acordo com a requisição, os vídeos gravados por Denny não foram formalmente apreendidos, incorporados ao inquérito nem submetidos a uma perícia técnica.

 

“As mídias contendo as gravações em vídeo efetuadas pela vítima - que constituem a prova direta central da conduta executória - não foram apreendidas formalmente, tampouco acostadas aos autos ou submetidas à perícia forense”, diz o documento.

 

Para o MPPE, a ausência desses procedimentos pode comprometer a validade da prova. A promotora aponta “severo risco de nulidade por quebra da cadeia de custódia digital”, citando os artigos 158-A a 158-F do Código de Processo Penal.

 

MPPE quer perícia no celular da vítima


             

                                              Foto: Divulgação.


 A requisição determina que a Polícia Civil faça a apreensão formal do celular ou do dispositivo original utilizado por Denny para registrar os vídeos dos dias 3 e 5 de junho de 2025.

 

O aparelho deverá ser encaminhado ao Instituto de Criminalística para uma extração forense integral dos arquivos originais.

 

A perícia deverá ainda produzir uma transcrição detalhada dos atos registrados nos vídeos. A medida busca estabelecer, formalmente, que os arquivos apresentados como prova correspondem aos registros originais e não sofreram alterações desde a gravação.

 

Outra diligência determinada pelo MPPE é a obtenção das imagens do circuito interno de segurança do Hospital Oswaldo Cruz.

 

A Promotoria requisitou que a direção da unidade forneça as gravações das câmeras direcionadas à sala ou ao posto de trabalho ocupado pela vítima e pela investigada nos dias 3 e 5 de junho de 2025, entre 10h e 16h.

 

A intenção é buscar elementos externos que possam corroborar a dinâmica registrada nos vídeos feitos pela própria Denny.

 

O MPPE também considerou necessário ouvir uma testemunha identificada no inquérito, apontada como namorado da investigada e amigo da vítima. O objetivo é esclarecer a relação entre os envolvidos e possíveis episódios anteriores de ciúmes, ameaças e conflitos.

 

O documento afirma que testemunhas consideradas essenciais para esclarecer “a motivação delitiva e o desenrolar da abordagem” ainda não haviam sido ouvidas.

 

O termo de declarações do namorado da investigada, prestado à Polícia Civil em 29 de julho, traz informações que ajudam a explicar por que o MPPE determinou que ele seja formalmente qualificado e ouvido na investigação.

 

Segundo o depoimento, ele conhecia Denny havia cerca de dez anos e também mantinha relacionamento com Maria Aparecida. Ele relatou que, durante longo período, as duas mulheres tinham uma relação de amizade.

 

O cenário teria mudado depois de uma discussão ocorrida aproximadamente um ano e meio antes dos fatos investigados. Ele diz que o desentendimento começou por causa de um objeto recebido durante as atividades de voluntariado e teria envolvido também ciúmes relacionados à amizade entre ele e Denny.

 

Após o episódio, o homem afirmou ter percebido uma mudança no comportamento de Maria Aparecida em relação à vítima, dizendo que as duas deixaram de manter a proximidade que tinham anteriormente.

 

O depoente também confirmou que Maria Aparecida presenteou Denny com uma garrafa de água verde. Segundo ele, a vítima havia quebrado a garrafa que utilizava anteriormente e passou a usar recipientes descartáveis, até receber o novo objeto.

 

O namorado da investigada afirmou, porém, que nunca viu Maria Aparecida portar ou manusear mercúrio. Ele ainda relatou ainda que, durante atividades de reciclagem, recebeu entre materiais diversos um pacote contendo um pó brilhante, mas disse não saber qual era a substância nem sua origem.

 

Vítima pediu que garrafa não fosse retirada do local


O depoimento também descreve o momento em que o caso foi descoberto. De acordo com o namorado da investigada, em 5 de junho de 2025, Denny chegou ao local onde funcionava o projeto social bastante abalada. Ele afirmou que ela estava chorando e desesperada e pediu que Maria Aparecida não deixasse o local e que não retirasse a garrafa de água.

 

A vítima teria dito que, quando a polícia chegasse, todos entenderiam o que havia acontecido.

 

“Que, na referida data, a vítima chegou ao local, apresentando-se bastante abalada, chorando e desesperada, pedindo que não permitissem que a indiciada deixasse o local, nem que retirasse a garrafa de água, afirmando que, quando a polícia chegasse, todos entenderiam o ocorrido”, relata o documento policial.

 

Ainda de acordo com ele, depois que Maria Aparecida retornou para casa após ser conduzida à delegacia, ele perguntou sobre o ocorrido e quem teria fornecido a substância utilizada. Segundo o depoente, ela não respondeu e estava nervosa e exaltada.

 

O depoente também afirmou ter recebido da própria Denny um vídeo gravado em visualização única por aplicativo de mensagens. Como o conteúdo não poderia ser acessado novamente, ele disse ter filmado a reprodução usando outro celular.


Ainda de acordo com o depoimento, ele reconheceu Maria Aparecida nas imagens e que era possível ver a investigada retirando um material do bolso, abrindo um sachê e despejando uma substância na garrafa de Denny, antes de agitá-la.

 

Apesar disso, o próprio depoimento reforça que Maria Aparecida não teria explicado o conteúdo do sachê.

 

Indiciamento


A Polícia Civil havia concluído o inquérito e indiciado Maria Aparecida por tentativa de homicídio qualificado. A investigação apontou como possível motivação o ciúme relacionado à amizade entre o namorado dela e a vítima.

 

O procedimento policial reuniu, entre outros elementos, o Laudo Pericial de Química Forense, que identificou mercúrio metálico no líquido da garrafa, e o Laudo Toxicológico, além de documentação médica que apontou intoxicação e absorção do metal pelo organismo da vítima.

 

O próprio MPPE reconhece, na requisição, que esses elementos foram produzidos durante a investigação. No entanto, entende que ainda são necessárias diligências para que o conjunto probatório tenha condições de sustentar uma eventual ação penal.

 

Defesa da vítima indica novas testemunhas


A defesa também indicou duas pessoas para serem ouvidas pela Polícia Civil. Segundo a manifestação, uma delas teria conhecimento direto de episódios anteriores envolvendo a relação entre a investigada, o namorado dela e pessoas do círculo de convivência. A defesa afirma que ela teria presenciado comportamentos considerados possessivos em relação à proximidade entre a investigada e seu companheiro, podendo contribuir para esclarecer possíveis episódios de ciúme e conflitos anteriores.

 

Já a segunda testemunha, que conhece Denny há cerca de 17 anos, poderá prestar informações sobre a condição física e emocional da vítima antes e durante o período em que os fatos ocorreram. De acordo com a defesa, ela também teria recebido relatos de Denny sobre conflitos no ambiente de convivência e um suposto tratamento hostil atribuído à investigada.



FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.






   




          

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