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O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) devolveu à Polícia Civil o inquérito que investiga a suposta tentativa de homicídio contra a artesã Denny de Souza Cardoso, de 43 anos, intoxicada por mercúrio no Recife.
O órgão apontou lacunas
que, neste momento, impedem o oferecimento de denúncia contra Maria Aparecida
Rodrigues de Araújo, investigada por supostamente colocar a substância na
garrafa de água da vítima.
A
decisão consta de uma requisição assinada pela promotora Rosângela Furtado
Padela Alvarenga, da 28ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, e determina
que a Polícia Civil realize novas diligências no prazo máximo de 60 dias após o
recebimento do inquérito.
Segundo
o documento, embora a investigação policial tenha reunido elementos como laudos
periciais, exames toxicológicos e gravações feitas pela própria vítima, o MPPE
considera que ainda não há segurança probatória suficiente para o oferecimento
da denúncia.
“A
análise dos autos, contudo, evidencia lacunas relevantes que inviabilizam, por
ora, a justa causa e a higidez probatória necessárias ao oferecimento da
denúncia”, afirma a promotora no documento.
Um
dos principais problemas apontados pelo Ministério Público está justamente nas
imagens consideradas pela Polícia Civil como uma das principais provas do caso.
De acordo com a requisição, os vídeos gravados por Denny não foram formalmente
apreendidos, incorporados ao inquérito nem submetidos a uma perícia técnica.
“As
mídias contendo as gravações em vídeo efetuadas pela vítima - que constituem a
prova direta central da conduta executória - não foram apreendidas formalmente,
tampouco acostadas aos autos ou submetidas à perícia forense”, diz o documento.
Para
o MPPE, a ausência desses procedimentos pode comprometer a validade da prova. A
promotora aponta “severo risco de nulidade por quebra da cadeia de custódia
digital”, citando os artigos 158-A a 158-F do Código de Processo Penal.
MPPE quer perícia no celular da vítima

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A
requisição determina que a Polícia Civil faça a apreensão formal do celular ou
do dispositivo original utilizado por Denny para registrar os vídeos dos dias 3
e 5 de junho de 2025.
O
aparelho deverá ser encaminhado ao Instituto de Criminalística para uma
extração forense integral dos arquivos originais.
A
perícia deverá ainda produzir uma transcrição detalhada dos atos registrados
nos vídeos. A medida busca estabelecer, formalmente, que os arquivos
apresentados como prova correspondem aos registros originais e não sofreram
alterações desde a gravação.
Outra
diligência determinada pelo MPPE é a obtenção das imagens do circuito interno
de segurança do Hospital Oswaldo Cruz.
A
Promotoria requisitou que a direção da unidade forneça as gravações das câmeras
direcionadas à sala ou ao posto de trabalho ocupado pela vítima e pela
investigada nos dias 3 e 5 de junho de 2025, entre 10h e 16h.
A
intenção é buscar elementos externos que possam corroborar a dinâmica
registrada nos vídeos feitos pela própria Denny.
O
MPPE também considerou necessário ouvir uma testemunha identificada no
inquérito, apontada como namorado da investigada e amigo da vítima. O objetivo
é esclarecer a relação entre os envolvidos e possíveis episódios anteriores de
ciúmes, ameaças e conflitos.
O
documento afirma que testemunhas consideradas essenciais para esclarecer “a
motivação delitiva e o desenrolar da abordagem” ainda não haviam sido ouvidas.
O
termo de declarações do namorado da investigada, prestado à Polícia Civil em 29
de julho, traz informações que ajudam a explicar por que o MPPE determinou que
ele seja formalmente qualificado e ouvido na investigação.
Segundo
o depoimento, ele conhecia Denny havia cerca de dez anos e também mantinha
relacionamento com Maria Aparecida. Ele relatou que, durante longo período, as
duas mulheres tinham uma relação de amizade.
O
cenário teria mudado depois de uma discussão ocorrida aproximadamente um ano e
meio antes dos fatos investigados. Ele diz que o desentendimento começou por
causa de um objeto recebido durante as atividades de voluntariado e teria
envolvido também ciúmes relacionados à amizade entre ele e Denny.
Após
o episódio, o homem afirmou ter percebido uma mudança no comportamento de Maria
Aparecida em relação à vítima, dizendo que as duas deixaram de manter a
proximidade que tinham anteriormente.
O
depoente também confirmou que Maria Aparecida presenteou Denny com uma garrafa
de água verde. Segundo ele, a vítima havia quebrado a garrafa que utilizava
anteriormente e passou a usar recipientes descartáveis, até receber o novo
objeto.
O
namorado da investigada afirmou, porém, que nunca viu Maria Aparecida portar ou
manusear mercúrio. Ele ainda relatou ainda que, durante atividades de
reciclagem, recebeu entre materiais diversos um pacote contendo um pó
brilhante, mas disse não saber qual era a substância nem sua origem.
Vítima pediu que garrafa não fosse retirada do local
O
depoimento também descreve o momento em que o caso foi descoberto. De acordo
com o namorado da investigada, em 5 de junho de 2025, Denny chegou ao local
onde funcionava o projeto social bastante abalada. Ele afirmou que ela estava
chorando e desesperada e pediu que Maria Aparecida não deixasse o local e que
não retirasse a garrafa de água.
A
vítima teria dito que, quando a polícia chegasse, todos entenderiam o que havia
acontecido.
“Que,
na referida data, a vítima chegou ao local, apresentando-se bastante abalada,
chorando e desesperada, pedindo que não permitissem que a indiciada deixasse o
local, nem que retirasse a garrafa de água, afirmando que, quando a polícia
chegasse, todos entenderiam o ocorrido”, relata o documento policial.
Ainda
de acordo com ele, depois que Maria Aparecida retornou para casa após ser
conduzida à delegacia, ele perguntou sobre o ocorrido e quem teria fornecido a
substância utilizada. Segundo o depoente, ela não respondeu e estava nervosa e
exaltada.
O depoente também afirmou ter recebido da própria Denny um vídeo gravado em visualização única por aplicativo de mensagens. Como o conteúdo não poderia ser acessado novamente, ele disse ter filmado a reprodução usando outro celular.
Ainda
de acordo com o depoimento, ele reconheceu Maria Aparecida nas imagens e que
era possível ver a investigada retirando um material do bolso, abrindo um sachê
e despejando uma substância na garrafa de Denny, antes de agitá-la.
Apesar
disso, o próprio depoimento reforça que Maria Aparecida não teria explicado o
conteúdo do sachê.
Indiciamento
A
Polícia Civil havia concluído o inquérito e indiciado Maria Aparecida por
tentativa de homicídio qualificado. A investigação apontou como possível
motivação o ciúme relacionado à amizade entre o namorado dela e a vítima.
O
procedimento policial reuniu, entre outros elementos, o Laudo Pericial de
Química Forense, que identificou mercúrio metálico no líquido da garrafa, e o
Laudo Toxicológico, além de documentação médica que apontou intoxicação e
absorção do metal pelo organismo da vítima.
O
próprio MPPE reconhece, na requisição, que esses elementos foram produzidos
durante a investigação. No entanto, entende que ainda são necessárias
diligências para que o conjunto probatório tenha condições de sustentar uma
eventual ação penal.
Defesa da vítima indica novas testemunhas
A
defesa também indicou duas pessoas para serem ouvidas pela Polícia Civil.
Segundo a manifestação, uma delas teria conhecimento direto de episódios
anteriores envolvendo a relação entre a investigada, o namorado dela e pessoas
do círculo de convivência. A defesa afirma que ela teria presenciado
comportamentos considerados possessivos em relação à proximidade entre a
investigada e seu companheiro, podendo contribuir para esclarecer possíveis
episódios de ciúme e conflitos anteriores.
Já a segunda testemunha, que conhece Denny há cerca de 17 anos, poderá prestar informações sobre a condição física e emocional da vítima antes e durante o período em que os fatos ocorreram. De acordo com a defesa, ela também teria recebido relatos de Denny sobre conflitos no ambiente de convivência e um suposto tratamento hostil atribuído à investigada.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.