Publicada em 14/02/2017 às 17h04.
Livro de autor pernambucano vai ser tema de samba-enredo em São Paulo
Roliúde, romance de Homero Fonseca, vai ser o tema do desfile da Colorados do Brás, que disputa o grupo de acesso no Carnaval de São Paulo.

Homero Fonseca não esperava ver seu livro adaptado para um enredo de escola de samba / Alexandre Belém/JC Imagem

Homero Fonseca não esperava ver seu livro adaptado para um enredo de escola de samba


Um dia, o escritor pernambucano Homero Fonseca recebeu um e-mail de um desconhecido. Era um “compositor, fanático por literatura e por samba” de São Paulo que vinha com um pedido estranho. Queria levar o seu livro, Roliúde, de 2007, para um universo que o autor nunca imaginou: o das passarelas das escolas de samba.


Quando concluiu a trama sobre um contador de histórias, Bibiu, que vive na caatinga de contar – de um modo inimitável – as histórias que colhe de andanças e, principalmente, dos cinemas das capitais, Homero até ouviu de amigos que ela daria uma grande peça teatral ou um bom filme. A proposta da escola Colorado do Brás, que disputa o grupo de acesso no Carnaval paulista o fez imaginar pela primeira vez um samba-enredo, com carros alegóricos, fantasias e alegorias. 


“Foi uma surpresa total. Eu estava completamente desarmado quando recebi o e-mail de Thiago Morganti, que tinha lido o livro e gostado. Autorizei e esqueci. Era março do ano passado. Em janeiro deste ano, ele me disso: está tudo pronto e queremos que você venha para o desfile. Fiquei espantadíssimo com o que vi. Sabia que era uma escola modesta, de uma comunidade, sem muitos recursos. Mas gostei muito do que vi”, conta o escritor. 


As fantasias fazem alusão ao imaginário do cinema do início do século 20 adaptado por Bibiu para a ambientação nordestina. Assim, King Kong e Chaplin ganham versões regionais. “Ficaram bem legais. Nunca teria pensando em nada assim, mas não sou carnavalesco, não entendo do meio. Com o meio é outro resultado, outra plataforma, um outro modo de tratar o tema. Levando em conta isso e o fato de não ser uma escola grande, achei interessante, bonito e diferente”, continua Homero.


O escritor aprovou o samba-enredo, nem tanto pela letra, que traz alguns estereótipos sobre o Nordeste, mas pela melodia, que tem um arranjo com novidades, sem fugir do formato tradicional. Além de citações à sanfona de Gonzaga, a melodia traz referências às músicas de estúdios de cinema que tocavam antes dos filmes.


PAIXÃO

O autor não sabe como Thiago chegou até Roliúde, mas viu no compositor e na paixão da Colorado do Brás a mesma vontade que viu no ator carioca João Ricardo Oliveira, que adaptou Roliúde para o teatro. “É um pouco a minha vocação: me meter em coisas que não dão dinheiro”, brinca.


Tanto que o convite para ir a São Paulo ofereceu estadia e alimentação, mas a escola não conseguiria pagar a passagemde avião. “Um amigo meu me disse que as escolas de samba são uma espécie de ópera popular. Acho que elas têm um pouco disso mesmo”, diz. “Como a Colorados nunca conseguiu o acesso, se ela conseguir agora, vou ficar muito feliz.” 


JC Online

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