Publicada em 07/07/2026 às 13h14.
Flávio diz em audiência nos EUA que eleição é "pior momento possível" para tarifaço
Presidenciável afirmou também que Pix não compete com empresas americanas.

Foto: Divulgação. 


 O pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta terça-feira em audiência promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em Washington, que o 'momento' eleitoral é o 'pior possível' para a implementação do tarifaço de 25% proposto pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros.


Em nota publicada após a apresentação de cerca de cinco minutos, que foi fechada, o parlamentar afirmou que pediu o cancelamento das tarifas, fez uma defesa enfática do Pix e voltou a cobrar uma negociação entre Brasil e Estados Unidos para encerrar o impasse comercial.


A apresentação ocorreu após dias de desgaste para a campanha. Na semana passada, Flávio entregou ao USTR um documento de 86 páginas propondo que a entrada em vigor das tarifas fosse suspensa enquanto os dois países negociassem os temas da investigação comercial.


A proposta foi explorada pelo governo Lula e interpretada por adversários como uma defesa do adiamento das medidas para depois das eleições de 2026. Nos bastidores, interlocutores do senador passaram a afirmar que o parecer havia sido “mal interpretado” e que a audiência seria utilizada justamente para deixar explícito que Flávio é contrário ao tarifaço.


A mudança de estratégia ganhou força depois da ofensiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que acusou integrantes da família Bolsonaro de atuarem contra os interesses brasileiros ao manter interlocução direta com autoridades americanas durante a investigação comercial. Em resposta, Flávio passou a sustentar que o governo estaria explorando politicamente a crise e que sua atuação busca impedir a adoção das tarifas.


Logo no início da audiência, o senador procurou reforçar essa mensagem.


— Não imponham as tarifas ao Brasil, preservem o sucesso do Pix e cancelem esta medida para que possamos negociar — afirmou aos integrantes da comissão responsável pela investigação.


Flávio lembrou que havia defendido o mesmo posicionamento em encontros realizados em maio com o presidente Donald Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo ele, a sobretaxa produziria prejuízos tanto para a economia brasileira quanto para empresas e consumidores americanos.


Ao longo da apresentação, o senador retomou um dos principais argumentos políticos utilizados desde a entrega do parecer ao USTR: o de que uma nova rodada de tarifas acabaria fortalecendo, e não enfraquecendo, o governo Lula.


— Os dados de 2025 mostraram que as tarifas não produziram os resultados pretendidos pelos Estados Unidos. Em vez disso, elas foram exploradas politicamente pelo atual governo brasileiro. Uma tarifa de 25% penaliza todo o povo brasileiro, exceto justamente as autoridades responsáveis por essas decisões — disse.


Em outro momento, Flávio afirmou que o momento político brasileiro também deveria ser levado em consideração pelas autoridades americanas.


— Em apenas noventa dias, o cenário político do país poderá ser completamente diferente. Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir — declarou.


Embora tenha evitado repetir de forma explícita a defesa do adiamento das tarifas para depois das eleições, como foi interpretado após a divulgação do documento entregue ao USTR, o senador voltou a sustentar que uma mudança de governo em 2027 poderá abrir caminho para uma nova relação entre Brasília e Washington.


Outro eixo da apresentação foi a defesa do Pix, um dos temas incluídos na investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos. Flávio afirmou que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos não representa concorrência desleal às empresas americanas, mas uma política pública que ampliou a inclusão financeira da população.


— O Pix não é um problema a ser corrigido. É uma solução. Ele ampliou a inclusão financeira ao trazer milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres, para a economia formal. Esse avanço também beneficiou diretamente empresas americanas, já que o volume de transações processadas por cartões de bandeiras dos Estados Unidos continuou crescendo paralelamente à ampla adoção do Pix, uma vez que esses serviços se complementam e não competem com o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos — afirmou.


A audiência integra a etapa final da investigação comercial aberta pelos Estados Unidos com base na legislação americana. Além do Pix, o procedimento avalia políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, tarifas preferenciais, combate à corrupção e desmatamento ilegal. As manifestações apresentadas durante os dois dias de audiência servirão de subsídio para a recomendação técnica que será encaminhada ao governo americano antes da decisão definitiva sobre a aplicação ou não das tarifas, prevista para 15 de julho.


Enquanto Flávio fazia sua apresentação, o governo brasileiro manteve a estratégia de acompanhar a audiência sem participar como expositor. O Itamaraty enviou uma observadora da Embaixada do Brasil em Washington e reiterou que a sessão promovida pelo USTR não é considerada um canal formal de negociação entre os governos, mas um espaço destinado a ouvir representantes do setor produtivo e da sociedade civil.


Segundo o Ministério das Relações Exteriores, as negociações oficiais continuam sendo conduzidas pelos canais diplomáticos, incluindo contatos recentes entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.


Além de Flávio, participaram da audiência representantes da indústria brasileira, empresas americanas e entidades empresariais. Entre eles estavam o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, representando a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), além de representantes da indústria calçadista e de importadores americanos.



FONTE: FOLHA PE.




                  

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