
© Alexandre MacieiraFlickr - Fecomércio RJ
"Há um mito no país de que juiz não pode ser político. E se político for, vai passar a perseguir o adversário. Mas essa é uma régua com que o político quer medir o Judiciário." "Há muitos mecanismos de controle do julgamento: o Ministério Público, o advogado do réu, os tribunais superiores. Não se permite a interferência ideológica no Judiciário", afirmou ele.
Surpresa da eleição fluminense, Witzel chegou ao segundo turno graças à associação à família Bolsonaro nas últimas semanas de campanha. O ex-juiz minimizou a declaração do deputado reeleito Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) de que "para fechar o STF [Supremo Tribunal Federal] basta um cabo e um soldado".
"O pai dele já deu uma resposta. [...] Aquilo que vem sendo delineado na política nacional pelo PSL não tem risco à democracia", disse o candidato do PSC.
PERGUNTA - Sendo um ex-juiz, como o sr. viu a declaração do deputado Eduardo Bolsonaro sobre o STF?
WILSON WITZEL - O pai dele já deu uma resposta. Respondo pela minha candidatura. Eu defendo a plataforma política do PSL. E lá não existe esse tipo de situação. Não está "ampliar ou fechar o Supremo". Não sei em que contexto isso foi falado, mas aquilo que vem sendo delineado na política nacional pelo PSL não tem risco à democracia.
+ Bolsonaro e Haddad divergem sobre Mais Médicos e SUS; veja propostas
P - Bolsonaro já defendeu "acabar com todo tipo de ativismo". Isso é democrático?
WW - O ativismo tem seus pontos de diálogo. O que não pode é o ativismo intolerante, violento. Os black blocs. Isso é que não pode continuar.
P - Vem crescendo ao longo dos anos uma suposta politização do Poder Judiciário. A sua candidatura representa isso?
WW - Há um mito no país de que juiz não pode ser político. E se político for, vai passar a perseguir o adversário. Mas essa é uma régua com que o político quer medir o Judiciário. Em vários países há a possibilidade de juízes serem candidatos. Na Espanha, Portugal, França. Os membros do Ministério Público e da magistratura podem contribuir muito com a administração. O fato de ser juiz e deixar a magistratura para um cargo no Executivo não significa que, quando retornar ao Judiciário, vai julgar favorável ao seu governo.
P - A atuação política de um juiz não vai interferir em suas decisões?
WW - Em hipótese alguma. Há muitos mecanismos de controle do julgamento: o Ministério Público, advogado do réu, os tribunais superiores. Não se permite a interferência ideológica no Judiciário.
P - Sérgio Cabral tinha amigos empreiteiros e dizia que sabia separar a amizade da decisão administrativa. Não é uma situação semelhante?
WW - O Cabral foi condenado. Ele não separou porque é um bandido. A mente criminosa realmente não vai separar.
P - O sr. defende uma mudança na Constituição para que o juiz possa retornar à magistratura após uma candidatura?
P - Quando o sr. decidiu entrar na política?
WW - Quando [em 2014] a Dilma [Rousseff, ex-presidente] ganhou e, aqui no Rio o [governador Luiz Fernando] Pezão, percebi que nosso país estava indo para um declínio profundo.
P - O sr. pediu apoio a Cabral?
WW - Jamais.
P - O sr. tem defendido uma linha-dura no combate ao crime. A polícia do Rio mata mais de mil pessoas por ano. É pouco?
WW - Vamos começar com uma investigação rigorosa na lavagem de dinheiro. O outro candidato [Eduardo Paes] não consegue nem pronunciar essa palavra. Outro ponto é oferecer uma porta de saída para os jovens que estão cooptados pelo crime, o programa Resgate da Cidadania.
P - Por quê?
WW - Porque serão abatidos.
P - Mesmo quem estiver fugindo?
WW - Eles não vão fugir. Eles vão tentar o confronto e serão abatidos.
P - Mas aquela imagem do Alemão é de criminosos fugindo.
WW - Não vão porque serão encurralados como deve ser feito. Ou se entregam ou serão abatidos.
P - O sr. tem histórico de uma defesa corporativa de magistrados e de gozo de benefícios do Judiciário. Terá autoridade para fazer os ajustes necessários no estado?
WW - O que eu defendo é um salário justo. Não vou tirar direito do servidor. Muito pelo contrário. Acredito na recuperação econômica do estado. A economia voltando a crescer a partir de 2020, nós vamos rever o plano de cargos e salário de cada categoria. Eles podem ter reajustes de acordo com a inflação.
P - O sr. declarou à Justiça Eleitoral apenas uma casa, sem qualquer conta bancária.
WW - É o que eu tenho.
P - Sua conta estava zerada?
WW - Eu não tenho poupança.
P - Mesmo com salário de juiz?
WW - Para você ver que a gente não ganha tão bem. Tenho quatro filhos e meus pais que dependem de mim. E passei por um divórcio. Tive que começar do zero.
P - O sr. doou mais de R$ 200 mil para a própria campanha. De onde vieram esses recursos?
P - Mas o sr. está num período de campanha para o governo. Esses clientes não podem buscar uma aproximação indevida?
WW - São ações judiciais. Depende do meu talento. Sou um bom advogado.
P - O sr. se tornou sócio de um escritório de advocacia durante a campanha. Por quê?
WW - Se eu não ganhasse a eleição, como eu iria viver? Terminada a eleição, vou para transição, vou suspender minhas atividades nos dois escritórios. Com informações da Folhapress.
Noticiasaominuto