Publicada em 29/12/2018 às 12h04.
Centro ampara e orienta famílias de vítimas de homicídio em Pernambuco
No Centro Estadual de Apoio às Vítimas de Violência, famílias recebem acompanhamento psicossocial e orientação jurídica.

Só neste ano, foram registrados 3.862 CVLIs em Pernambuco / Foto: Felipe Ribeiro/ JC Imagem

Só neste ano, foram registrados 3.862 CVLIs em Pernambuco
Foto: Felipe Ribeiro/ JC Imagem


Gisele Nascimento*, 48 anos, perdeu dois filhos, de 19 e 21 anos, em um intervalo seis meses. Um em outubro de 2015 e outro em abril de 2016. Ambos mortos por envolvimento no tráfico de drogas. Na época, apesar da dor, ela precisava recomeçar a vida ao lado das duas filhas e dois netos, filhos de um dos rapazes assassinados. Para amenizar o sofrimento da família, que vive na Zona Sul do Recife, ela contou com a ajuda de psicólogos, advogados e assistentes sociais de um programa do Governo Estadual. Hoje, três anos depois, ela reconhece a importância da equipe na reconstrução da vida.


“Quando aconteceu, me ligaram e me ofereceram psicólogos, médicos e advogados. Foram até a minha casa fazer os atendimentos, foi excelente. Quando perdi meus filhos, perdi também meu chão e eles me ajudaram a me reencontrar.


Abaixo de Deus, essa equipe é tudo para mim. Mesmo passando três anos de tudo, nunca me deixaram. Até no meu trabalho já foram para saber como eu estou… Me sinto acolhida”, conta Gisele. Segundo ela, o programa viabiliza acompanhamentos importantes, como os psiquiátricos e psicológicos, que não são facilmente encontrados na rede municipal. “No posto, não conseguia esse atendimento. Tudo demorava e as pessoas não priorizam famílias que perderam seus parentes de forma violenta”, acrescenta.


O programa citado por Gisele faz parte do Centro Estadual de Apoio às Vítimas de Violência (Ceav), que funciona desde 2007 auxiliando famílias de vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs). Para essas pessoas, é oferecido atendimento psicossocial e jurídico, para resolver trâmites e realizar o acompanhamento do inquérito que investiga o assassinato. Tendo como área prioritária as cidades do Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes, o centro já atendeu 493 famílias em 2018 e 1.429 entre o ano passado e este ano.


O serviço é promovido pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SJDH) e é totalmente gratuito. O contato com a família é feito pelos próprios profissionais do centro, que acompanham os casos semanalmente no Instituto Médico Legal (IML) e criam um banco de dados. Só neste ano, foram registrados 3.862 CVLIs. Com relação ao ano passado, quando ocorreram 5.032 crimes deste tipo, houve uma redução de 23%.


“Ligamos para as famílias e perguntamos se aceitam o atendimento. Muitas vezes, no primeiro contato, eles negam. Sentem medo, estão confusos… Depois, acabam nos procurando. Marcamos um encontro com nossos profissionais multidisciplinares e damos início ao serviço, que vai desde o atendimento psicológico emergencial, acolhendo aquelas pessoas no momento de dor, até marcação de consultas, acompanhamento de processo e inserção em programas sociais. Somos a ponte entre essas pessoas e os serviços que elas têm direito”, explica a coordenadora do Ceav, Luzia Dutra.


Grande parte dos casos contabilizados no centro aconteceram em áreas de maior vulnerabilidade social. Lá, segundo Luzia, a violência é uma constante na vida dessas famílias. “São pessoas que já vivem expostas e muitas vezes têm seu sofrimento negligenciado. Apesar da população não se comover tanto com essas mortes como com outras, essas pessoas estão sofrendo e isso precisa ser notado. É uma dor muito grande e nós os procuramos para tentar amenizar isso”.


No primeiro semestre deste ano, a sobrinha de Luciana Silva* foi vítima de feminicídio. A jovem, de apenas 18 anos, foi morta pelo companheiro em um bairro da Zona Norte do Recife. Depois do ocorrido, o Ceav entrou em contato com a família para oferecer o suporte. Para a irmã dela, mãe da jovem, foram marcadas consultas com psicólogos. Elas também precisaram de advogados, já que a vítima deixou um filho pequeno. “Eles orientaram minha irmã no que ela precisava. Assim como também se ofereceram para ajudar minha mãe e a criança depois de tudo o que aconteceu”, conta a tia da jovem.


Amparo emocional


Para Valéria Amâncio, uma das psicólogas do Ceav, um dos serviços mais importantes é o de amparo emocional. “Em muitos dos casos a pessoa está totalmente desamparada e nós articulamos com os órgãos responsáveis para dar apoio nesse momento. Além da perda afetiva, também existe, muitas vezes, a perda financeira, como nos casos em que a pessoa que faleceu era a provedora da renda familiar. É uma situação complicada e que merece atenção, é um sofrimento muito grande para essas famílias”, comenta.


O contato entre os profissionais e os usuários é feito pelo centro, no entanto, interessados também podem entrar em contato com o Ceav para ter acesso ao serviço. Apesar de serem priorizados Recife, Jaboatão e Olinda, o programa também atua em alguns casos no restante do Estado. O horário de atendimento é das 9h às 17h, de segunda a sexta-feira. O centro funciona na Secretaria Executiva de Direitos Humanos, na Rua Santo Elias, nº 535, no Espinheiro, Zona Norte do Recife.


* Foram usados nomes fictícios para proteger as famílias das vítimas

 

JC

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