Reconhecido por uma lei estadual como expressão cultural de Pernambuco em 2017, o brega ainda está longe da ocupar a vitrine do carnaval do Recife. Mesmo bombando no gosto popular e com o respaldo da legislação, nenhum representante deste gênero musical surgido na periferia recifense está entre as 77 atrações anunciadas para as cinco noites dos palcos do Marco Zero, Praça do Arsenal, Pátio de São Pedro e Samba da Moeda em 2019.
Praticamente todos os nomes das várias vertentes do universo brega pernambucano estão fora dos palcos do Bairro do Recife e terão que torcer para serem incluídos nos outros 40 polos descentralizados, cuja programação ainda será divulgada. Bandas no auge da popularidade, como Musa, Sedutora, Amigas do Brega, além dos MCs Troinha e Elvis, do brega-funk, estão fora dos maiores palcos da folia de momo da capital.
Outros nomes bastante lembrados, como Torpedo (antiga banda do vocalista Deivison Kellrs, falecido em 2018) e Conde do Brega, representante da velha guarda, também estão fora dos palcos de maior visibilidade. Por enquanto, a participação de quatro cantores da cena brega local está confirmada para acontecer apenas em um trecho do show de abertura da festa, no dia 1º de março, no Marco Zero.
De acordo com a Prefeitura do Recife, “o espetáculo terá uma cena inteira dedicada à sonoridade, que será protagonizada por Michelle Melo, Kelvis Duran, Victor Santos e Priscila Senna (Musa)”. Durante a participação do quarteto, a música será uma mistura de frevos tradicionais com uma base executada por um DJ e batizada de “frevo-funk-brega”.
Pesquisador da cena brega do Recife desde 2008, o jornalista e professor de comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Thiago Soares foi um dos primeiros a protestar contra a ausência do gênero na fração mais nobre do carnaval recifense. “É uma visão preconceituosa, elitista e reducionista do que é a cultura popular. Estão escolhendo o que é ‘popular’ e excluindo uma representação que é legítima”, denuncia.
Autor do livro “Ninguém é perfeito e a vida é assim” – título extraído do hit de Conde do Brega -, Thiago rejeita as teses e rumores que sustentariam a ausência desses nomes, incluindo a suposta sexualização excessiva das letras. “As músicas de Michelle Melo, Musa e Sedutora não são sexualizadas, são românticas. Muitos falam que os MCs do brega-funk usam duplo sentido. O forró faz isso há décadas. Qual é o problema? Na minha opinião, o conselho que faz a curadoria das atrações do carnaval é que é o entrave”.
O Portal OP9 procurou representantes de três artistas bregueiros que estão no auge de suas carreiras. MC Elvis classifica a ausência como “falta de reconhecimento”: “Acho que o mínimo seria que a prefeitura desse mais um pouco de moral a quem vem falando e mostrando a diferença do nosso brega-funk e mostrar que em nossas comunidades existem artistas com um potencial diferente”, desabafa o cantor de “Eu Confesso” e “Seu Zé”.
Por telefone, a rainha do brega romântico Michelle Melo alegou que não poderia conversar na tarde desta quinta-feira (31) por estar ocupada. A cantora também não atendeu as ligações no horário combinado para uma segunda tentativa de entrevista. Já Troinha, autor do sucesso “Pode balançar”, não respondeu às perguntas enviadas via assessoria.
Victor Ronã, produtor de Elvis e Troinha, ressalta que os dois artistas possuem toda a documentação necessária para tocarem em eventos da capital. “Todos têm notas (fiscais) e esse será o terceiro carnaval que ambos vão tocar para festas de prefeitura em Pernambuco”.
Leia abaixo a resposta da Prefeitura do Recife:
“Em relação à representatividade do brega, a prefeitura informa que, no espetáculo de abertura, todas as sonoridades que fazem o Recife estão contempladas, inclusive a cena brega, que será representada por vários artistas. Com assinatura musical de Cesar Michiles, o espetáculo terá uma cena inteira dedicada à sonoridade, que será protagonizada por Michelle Mello, Kelvis Duran, Victor Santos e Priscila Senna (Musa). As bases musicais criadas por Cesar, que serão executadas com a interferência do DJ Junior Cabeleira, promoverão um encontro entre frevos clássicos, como Cala a Boca menino, de Capiba, com uma levada diferente, batizada de frevo-funk-brega. Em relação às prévias carnavalescas, o período é dedicado aos concursos de agremiações e às manifestações de matrizes afro que fazem da cidade o maior caldeirão cultural do secular carnaval brasileiro. Informamos que a prefeitura não anunciou ainda a programação completa do carnaval, que terá 45 polos em toda a cidade. No ano passado, por exemplo, nomes como Banda Camelô, Faringes da Paixão, Banda Lapada, Banda Torpedo e Banda Luminar integraram a grade de programações oficiais da cidade durante os festejos de Momo“.
OP9

























