Publicada em 09/07/2019 às 10h47.
É #FAKE que governo americano libera consumo de colesterol
Mensagem falsa deturpa polêmica científica de 2015. Governo americano nunca endossou que consumo de colesterol 'não causa preocupação'.

Créditos: Reprodução / G1

 

Um texto que promete destruir "mitos" sobre o colesterol circula pelas redes sociais em pelo menos três idiomas. Uma das várias afirmações da publicação, que traz anexa uma reportagem de 2015 do Washington Post, é a de que um estudo do Comitê Consultivo de Diretrizes Nutricionais (DGAC), o principal órgão científico sobre nutrição dos Estados Unidos, reconheceu que as recomendações contrárias ao colesterol estão erradas há décadas. Como resultado, segundo a mensagem, o governo liberou o consumo irrestrito de alimentos ricos em colesterol porque este não faria mal algum à saúde. A mensagem é #FAKE.


A reportagem fala de uma controvérsia científica sobre que política de consumo de colesterol o órgão recomendaria, e diz que o estudo poderia diminuir as restrições que existiam até então, não eliminá-las. Também não trata essa possível mudança como um "erro de décadas", e sim como um processo comum de evolução na ciência. Tampouco libera o consumo irrestrito ou diz que colesterol não faz mal à saúde — ao contrário, ressalta que a discussão não invalida os alertas feitos até então.


Veja o que diz o texto original do Washington Post:


"A nova perspectiva sobre o colesterol na comida não reverte os alertas sobre altos níveis de colesterol ruim no sangue, relacionados a doenças cardiológicas. Além disso, alguns especialistas advertem que pessoas com doenças específicas, como diabetes, devem continuar a evitar dietas ricas em colesterol".


O que há de novo, então, no estudo mencionado?


"Diretrizes Nutricionais" é um documento oficial do governo federal que influencia boa parte da alimentação do povo americano. É o guia que ajuda a determinar, por exemplo, o conteúdo das refeições escolares, o modo como a indústria alimentícia anunciará seus produtos e serve de base para que nutricionistas prescrevam dietas.


A cada cinco anos, o Comitê Consultivo de Diretrizes Nutricionais se reúne, debate e, à luz das descobertas e mudanças do período, elabora um relatório. As conclusões do Comitê, então, são encaminhadas aos ministérios da Saúde e Agricultura. Elas não têm qualquer efeito legal: o grupo é independente do governo, formado por especialistas em nutrição, saúde e medicina. Os ministérios podem ignorar suas recomendações, mas, na prática, o governo costuma considerá-las para determinar as próximas diretrizes.


Em 2015, quando a reportagem do Washington Post foi publicada, o novo relatório do comitê derrubou a restrição específica ao colesterol. Até a edição anterior, o documento previa um consumo máximo de 300 mg por dia, e restrições ao colesterol constavam nas diretrizes daquele país desde 1961.


Por que essa mudança gera tanta polêmica?


Não há um estudo conclusivo que determine se existe ou não a necessidade de um limite diário de consumo de colesterol, o que divide os cientistas. Estudos também demonstram que as pessoas processam o colesterol dos alimentos de maneiras distintas, o que também torna o debate mais complexo e dificulta o estabelecimento de uma recomendação padrão. Nesta ocasião, venceu o grupo que defendia removê-la. Eles argumentavam também que os Estados Unidos estavam em descompasso com outros países, que já haviam abolido a limitação.

 

"A descoberta [do Comitê] está de acordo com uma evolução de pensamento entre vários nutricionistas, que agora acreditam que, para adultos saudáveis, consumir alimentos com muito colesterol talvez não afetem significativamente o nível de colesterol no sangue ou aumentem o risco de doenças cardíacas", explica o texto do Washington Post, que acrescenta: "O perigo maior, para esse grupo de especialistas, não está em alimentos como ovos, camarão e lagosta, que são ricos em colesterol, mas nas comidas com muita gordura saturada, como carnes gordurosas, leite integral e manteiga."


Nem todos, porém, concordam com essa visão. A controvérsia é tanta que os Ministérios chegaram a ser processados, sob a acusação de que o Comitê teria recebido financiamento da indústria alimentícia, em especial a do ovo, para emitir tal parecer. E, embora a restrição dos 300 mg diários tenha sido derrubada, e o Comitê, de fato, tenha considerado que o colesterol "não é um nutriente que preocupa", isso não foi endossado pelo documento oficial do governo americano como sugere a mensagem falsa.


No fim, as Diretrizes Nutricionais para o período de 2015 a 2020 foram publicadas com a seguinte redação: "O corpo usa colesterol para funções fisiológicas e estruturais, mas produz mais do que o suficiente para esses propósitos. Portanto, as pessoas não precisam obter colesterol na alimentação.


A recomendação principal das Diretrizes Nutricionais de 2010, de limitar o consumo de colesterol a 300 mg por dia, não foi incluído na edição de 2015, mas essa mudança não sugere que ponderar o consumo de colesterol não é mais relevante para construir padrões saudáveis de alimentação. Como recomendado pelo IOM, indivíduos devem comer o mínimo de colesterol possível se quiserem manter uma alimentação saudável".

 

G1

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