
Foto:Amanda Perobelli/Reuters
Diante da crise provocada pelo coronavírus, empresas de recrutamento registraram queda na abertura de vagas desde o começo da pandemia, em março. É o que aponta um levantamento feito pelo G1 com algumas das principais recrutadoras do país: Catho, Page Group, Luandre e Robert Half.
Além do congelamento de contratações, as recrutadoras registraram aumento de vagas nas modalidades de trabalho temporário e contratos PJ (pessoa jurídica).
Na semana passada, um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que a redução das admissões contribuiu mais para a queda do emprego com carteira assinada no país do que o aumento dos desligamentos. Essa queda na abertura de postos de trabalho, segundo Fabrício Kuriki, gerente de business intelligence da Catho, foi observada, de um modo geral, a partir das primeiras semanas de quarentena.
Segundo ele, as micro e pequenas empresas, responsáveis pela maior parte das contratações do país, foram as mais afetadas desde o início da pandemia. “Muitas delas não puderam operar ao longo desse período ou tiveram suas atividades reduzidas. Desta forma, naturalmente ocorre uma diminuição ou paralisação das contratações”, explica.
Outro fator apontado por Kuriki foi a falta de perspectiva de retorno das atividades nos setores de comércio e serviços, duramente afetados pelo isolamento, que acabou diminuindo a confiança dos empresários para abrir novas vagas para suas empresas.
Na Catho, os setores que mais sofreram queda nas contratações foram hotelaria e turismo, o pequeno comércio e o setor de entretenimento. Cada um desses setores registrou diminuição em suas contratações, nos meses de abril e maio, na comparação com o mesmo período do ano passado.
Lucas Nogueira, diretor de recrutamento da Robert Half, aponta que houve queda na demanda de contratações exatamente em função do cenário da crise, a partir da segunda quinzena do mês de março e, de uma maneira mais aguda, em abril e maio.
“Temos observado pelas conversas e interações com nossos clientes que há ainda um cenário de bastante incerteza econômica, o que impacta em investimentos sendo retardados, adiamento de projetos e engavetamento de propostas, especialmente entre as multinacionais. Não vemos efetivamente o cancelamento dessas iniciativas, mas adiamentos e redimensionamentos de projetos em virtude deste novo cenário”, conta.
Nogueira comenta que, no início da pandemia, as empresas cortaram as posições não tão estratégicas, além das mais operacionais e de menor qualificação, “o que deu um tranco no número de desempregados do país, sobretudo porque grande parte da população economicamente ativa não é igualmente qualificada".
“Agora, as empresas estão pensando duas vezes em demitir. Primeiro, porque a mão de obra de menor qualificação já foi desligada no momento inicial. E, com um quadro formado por profissionais essenciais, mais qualificados ou estratégicos, as empresas pensam mais vezes antes de uma nova demissão, pois sabe-se que para contratar novamente e treinar esses perfis profissionais é mais desafiador e leva um tempo maior. Além disso, há uma percepção de grande parte das empresas de que pelo menos o pior da crise econômica já passou. Desta forma, as empresas tendem a permanecer com esses profissionais e tentar reduzir outros custos”, explica.
O diretor de recrutamento da Robert Half aponta ainda que as medidas do governo, como a redução de jornada e salário, de certa forma têm “protegido” uma fatia considerável da população e, consequentemente, as empresas pensam mais antes de um novo desligamento.
O PageGroup também detectou uma diminuição na oferta de vagas em março e abril em quase todos os setores, exceto em alimentação, agropecuária, tecnologia e saúde, que registraram aumento. Em maio, as empresas voltaram a conversar sobre novas ofertas de emprego e, em junho, as contratações foram retomadas.
A Luandre registrou cancelamentos de vagas, principalmente, no início da pandemia. Desde então, alguns setores alimentícios reduziram seu quadro ou suspenderam contratos, enquanto empresas voltadas para serviços a clientes optaram por redução de jornada.
Temporários e PJ
A Catho informou que as contratações pelas modalidades de trabalho temporário, autônomo ou PJ aumentaram “expressivamente” em comparação com o mesmo período do ano passado.
A Luandre também registrou aumento de demanda na mão de obra temporária em relação às vagas efetivas em segmentos que continuaram contratando em meio à pandemia.
Lucas Nogueira afirma que na Robert Half, em junho, houve um crescimento de 20% em posições para projetos temporários frente aos meses de março, abril e maio. Segundo ele, há um volume considerável de profissionais qualificados disponíveis e mais propícios a aceitar esse tipo de trabalho.
“Apesar de não ser um modelo de contratação tão novo no Brasil, o que observamos é que as empresas começaram a observar que em um cenário incerto e de horizonte ainda nebuloso, esse tipo de contratação encaixa muito bem. As vantagens são que nesse modelo o profissional atua em um projeto com tempo determinado e dentro desse cenário isso é visto como uma boa possibilidade de contratação”, comenta.
Levantamento da Page Interim, consultoria especializada em recrutamento, seleção e administração de profissionais terceirizados e temporários do PageGroup, mostra que as contratações de terceiros e temporários aumentou principalmente nos setores de TI, Vendas, Finanças, RH e Saúde.
FONTE: G1.GLOBO.COM