
No
momento em que o sistema de saúde entra em colapso por todo o país e o
governo Bolsonaro anuncia seu quarto ministro da área, o medo de pegar o
coronavírus e a percepção de que a pandemia está fora de controle
atingem níveis recordes.
Pesquisa Datafolha mostra que 79% dos
brasileiros acham que a pandemia está sem controle, ante 62% que
manifestavam essa opinião em janeiro.
Outros 18% dizem que a situação está parcialmente controlada, 2% que está totalmente controlada, e 1% não sabe.
O
levantamento, com margem de erro de dois pontos percentuais, foi feito
por telefone com 2.023 pessoas de todos os estados do país nos dias 15 e
16 de março.
No domingo (14), as movimentações para a
substituição do general Eduardo Pazuello do posto de ministro da Saúde
ganharam força, com a ida da médica Ludhmila Hajjar a Brasília para uma
conversa com o presidente Jair Bolsonaro.
Ela acabou por recusar o
cargo, e a troca foi efetivada na segunda-feira (15), com o
cardiologista Marcelo Queiroga no lugar de Pazuello, desgastado após a
crise da falta de oxigênio em Manaus e atrasos e falhas logísticas na
distribuição de vacinas.
Queiroga assume em meio a uma rápida e
trágica escalada de mortes pela Covid-19. Nesta quinta-feira (18), o
país completou 20 dias seguidos de recordes na média móvel de óbitos,
que chegou a 2.096.
Desde o início da pandemia, quase 288 mil brasileiros já morreram pela doença.
Em
meio às notícias sobre falta de leitos para pacientes em diversas
partes do país, a parcela da população com temor de se infectar pelo
vírus alcançou nível recorde.
A pesquisa Datafolha mostra que 55%
dos entrevistados declaram ter muito medo, enquanto o levantamento
anterior, de janeiro, registrou 44%. Outros 27% têm um pouco de medo,
12% não têm, e 7% relataram já ter contraído a doença.
Diz ter
muito medo uma parcela mais expressiva das mulheres (61% ante 48% dos
homens), dos mais velhos (58% da faixa etária com 45 anos ou mais, ante
48% dos de 16 a 24) e moradores do Nordeste (61% contra 44% da região
Sul).
Mas mesmo entre os homens houve aumento significativo entre
os que manifestaram ter muito temor da doença: de 33% no levantamento
em janeiro, essa parcela foi para 48% entre eles. Entre elas, passou de
55% para 61%.
Também passou a declarar muito medo uma parcela
maior dos segmentos de jovens de 16 a 24 anos (foi de 34% para 48%) e
dos mais ricos, com renda mensal de mais de dez salários mínimos (passou
de 41% para 55%).
Esses estratos têm sido particularmente
afetados na atual fase da pandemia. Na esteira de aglomerações no final
do ano e no Carnaval, médicos têm observado uma presença maior de
pacientes jovens nas UTIs.
Em um cenário de esgotamento
generalizado da capacidade de atendimento, o acesso a plano de saúde não
é mais suficiente para garantir atendimento. Hospitais privados de
ponta têm unidades lotadas, e parte deles já chegou a pedir leitos para o
SUS em São Paulo.
O colapso na saúde no país contrasta com cenas
de aglomerações e eventos clandestinos. Em São Paulo, onde já se
registra morte por falta de leito de UTI, o índice de isolamento social
estava em 43% na quarta-feira (17), longe da meta do governo paulista de
50%.
A pesquisa Datafolha mostra que a não adoção de
distanciamento não decorre necessariamente de desconhecimento sobre a
gravidade da pandemia.
A percepção de que a disseminação da
doença está fora de controle é majoritária mesmo entre os que estão
vivendo normalmente, sem nenhuma medida extra de isolamento.
Nessa
parcela da população, a maioria ou tem muito medo (26%) ou um pouco de
medo (29%) de contrair a Covid-19. Já 34% declaram não ter receio.
Consenso
entre especialistas para frear um vírus transmitido principalmente por
gotículas de saliva e aerossóis, o isolamento social vem sendo combatido
pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desde o início da
pandemia, com aglomerações e falas nesse sentido. Ele chamou de
histeria, mimimi e fantasia a reação ao vírus. "Vão ficar chorando até
quando?", indagou no início do mês.
A alternativa mais eficiente
ao distanciamento social é a vacinação, que patina no país. Além da
demora em firmar contratos com fornecedores, o governo Bolsonaro já
adiou sucessivas vezes o cronograma de aplicação dos imunizantes já
aprovados na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Não
por acaso, a percepção de que a pandemia está fora do controle é mais
alta entre os que reprovam o governo Bolsonaro (94%) e entre os que não
confiam em suas declarações (93%).
É maior também entre mulheres (85%, contra 73% entre os homens) e entre os mais pobres (82% ante 69% dos mais ricos).
Considerando-se
a religião, a parcela dos entrevistados pelo Datafolha que declara ter
muito medo de pegar a Covid é maior entre os católicos (61%) do que
entre os evangélicos (45%). Já a percepção de que a pandemia está fora
de controle não varia tanto entre os dois grupos –fica em 81% e 76%,
respectivamente.
Diante do pior momento da pandemia e da
possibilidade concreta de enfrentar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) na disputa eleitoral de 2022, Bolsonaro agora ensaia discurso
a favor da vacinação em massa, contrariando diversas declarações pelas
quais colocou em dúvida a confiabilidade dos imunizantes.
FONTE: FOLHAPE.COM.BR