
Francisco de Assis de Araújo / Arquivo pessoal.
Eu o vi pela primeira vez há mais de 30 anos, voz de timbre agradável, olhos claros, cabelos nos ombros e uma altivez que só os resilientes possuem. Este era Francisco de Assis de Araújo, nascido em Cana Brava ( Pesqueira) no ano de 1950 e filho dos estimados vizinhos Cícero Pereira e Dona Quitéria Araújo.
Nos idos de 1986 a figura do líder já se desenhava e todos o conheciam por Chicão, escolhido por seu povo para ser cacique, ele mostrava um protagonismo jamais visto na luta pelos direitos indígenas. Nos bastidores era muito tratável! Pai zeloso, filho dedicado e irmão cheio de carinho.
Seria muito mais cômodo sucumbir ao conformismo e aceitar com normalidade a expropriação. Curvar-se às ameaças, às injustiças, mas Não! Sem arco, flechas, munido apenas de um discurso certeiro com toda eloquência que lhe era peculiar, ele foi ganhando seu espaço e cobrou das autoridades um posicionamento sobre a demarcação das terras. O contexto da época era favorável para tal porque estávamos experimentando uma reabertura política, após anos de Ditadura e a promulgação da nova Carta Magna era uma realidade, a mesma trazia um destaque no artigo artigo 231.São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças , tradições e os direitos originários às terras que tradicionalmente ocupam.
Era o que faltava! A batalha pela retomada agora tinha respaldo legal e o cacique marchou para frente. Muitos passos foram dados e num deles, Chicão foi brutalmente assassinado a tiros para tristeza de familiares, amigos, índios e simpatizantes da causa como essa que vos fala.
A morte não apaga legados! Marcos Luidson, o seu filho herdou a coragem e o cocar e com a força encantada, prosseguiu no intuito de libertar o povo Xukuru da exploração sofrida durante séculos. Mesmo estando mergulhado num mar de conflitos, a vitória chegou e as terras foram retomadas no ano 2000. Era o fim da sofrida batalha, da subvida que muitos caboclos experimentaram, inclusive os meus familiares. Os que migraram para a cidade de Pesqueira e os que sofreram para que não cortassem suas raízes, muito bem fincadas na Serra do Ororubá.
Foi por eles que me engajei e todo 20 de maio, estou nas ruas, imersa numa manifestação legítima e alusiva à bravura de um homem que só queria ver o seu povo livre. Em cada canto entoado, em cada batida dos meus pés no transe do Toré, eu vou rememorando as histórias do meu querido PAI que orgulhosamente me transmitiu os costumes dos seus e meus antepassados e que hoje já estão bem guardadas. As mesmas provavelmente iriam se perder, se Xikão Xukuru não tivesse se doado a ponto de perder a própria vida, eternizando-se por ser RESISTÊNCIA!!
Por Andréa Galvão.