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A pandemia do novo coronavírus pode levar o Código Penal a estabelecer
novos tipos de crimes. Diferentes projetos em tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado propõem
agravantes e tipificação de condutas relacionadas à crise sanitária.
Levantamento feito com base em dados do Congresso Nacional mostra que ao menos 60 projetos
propõem alterações no Código Penal para criminalizar ou punir com mais
rigor as infrações ligadas ao estado de calamidade pública.
Os projetos sugerem, por exemplo:
Fura-fila e peculato de vacinas:
O plenário da
Câmara, até o momento, aprovou três projetos sobre crimes relacionados à
pandemia. Todos aguardam votação no Senado. Um deles é o que transforma em crime o ato de furar fila para ser vacinado.
Desde que se iniciou a campanha de vacinação contra o vírus, diversas
cidades pelo país registraram denúncias de pessoas que receberam doses do
imunizante mesmo sem estarem na ordem de prioridade. Em Manaus, a Justiça
chegou a suspender a entrega da vacina até que a
prefeitura garantisse transparência nos critérios para vacinação.
A proposta cria um novo tipo
de crime, chamado de "infração a plano de imunização", com pena
estabelecida de um a três anos de detenção e multa. Esta pena pode ser
aumentada em um terço caso envolva falsificação de atestado e outros
documentos.
O projeto cria também outro
crime, o de corrupção em plano de imunização e uma forma qualificada do crime
de peculato, o “peculato de vacinas”, que consiste na apropriação, o desvio ou
a subtração de bem ou insumo médico, terapêutico, sanitário, vacinal ou de
imunização, público ou particular.
Outra proposta que aguarda análise dos senadores é a que duplica as penas de crimes contra a administração pública quando estes forem praticados por ocasião de calamidade pública.
Uma terceira proposta em
votação no Senado prevê até cinco anos de prisão para quem destruir, inutilizar ou deteriorar vacinas, insumos ou qualquer outro bem destinado ao enfrentamento da pandemia.
O que dizem os
deputados:
O deputado Fábio
Trad (PSD-MS) afirma que a criação dos novos crimes é natural diante da conduta
de quem se aproveita do período de calamidade para se beneficiar.
"A questão é que estes
tipos penais têm um conteúdo de provisoriedade uma vez que condicionados a
configuração da pandemia. Por isso, finda a pandemia, podem se tornar um
entulho penal", afirmou.
Formado em direito, Trad
explicou que, caso não haja revogação explícita dos dispositivos através de
nova lei, haverá uma “revogação tácita” em virtude da sua inaplicabilidade na
prática.
A deputada Margarete Coelho
(PP-PI), também advogada, criticou alterações feitas diretamente no corpo de
legislações penais específicas. Para ela, as propostas que mudam o Código Penal
em virtude de condutas relacionadas à Covid devem ser tratadas de forma
transitória.
"Eu acho que pode promover antinomias e promover um efeito
colateral negativo no sentido de que você vai, às vezes, ferir o princípio da
razoabilidade e proporcionalidade da pena", afirmou a deputada.
O deputado bolsonarista Carlos Jordy (PSL-RJ) defende o endurecimento de
penas na legislação já que, segundo ele, "criminoso só respeita o que
teme".
"Foram diversas alterações no Código Penal que falam sobre crimes
cometidos se aproveitando da pandemia, e isso começou a gerar muitas
agravantes, qualificadoras, novos tipos penais”, disse.
Segundo o parlamentar, porém, muitas dessas legislações estarão "inócuas"
após a pandemia. "Acredito que devemos fazer uma reunião de todas essas
ideias para fazer uma reforma do Código Penal", defendeu Jordy.
Já o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) afirma que a criação dos novos
crimes é motivada pela inação do governo no combate à pandemia.
Defensor Público Federal, o advogado Gustavo Ribeiro disse que é preciso
ter cautela para não promover excessos das punições.
“O que sempre tenho medo nesses momentos de comoção são excessos que
decorrem nessas situações, em que às vezes há uma pressa e acaba havendo
excesso. Por outro lado, as mudanças na sociedade decorrente de situações novas
causam alterações na lei penal”, declarou.
FONTE: G1.