
O
governo está desenhando uma nova prorrogação do auxílio emergencial. O
plano é estender o benefício por mais dois meses, com previsão de
encerramento em setembro deste ano.
Com o número maior de
parcelas, o governo terá mais prazo para que seja finalizada a proposta
de programa social que deverá substituir o Bolsa Família. Os detalhes
estão sendo acertados entre o presidente Jair Bolsonaro e os ministros
Paulo Guedes (Economia) e João Roma (Cidadania).
A ideia de
estender o pagamento do auxílio emergencial vinha sendo tratada pela
equipe econômica como uma possibilidade, a depender da evolução da
pandemia. Agora, membros do Ministério da Economia afirmaram à
reportagem que a prorrogação é dada como certa.
No formato
elaborado pela pasta, os dois meses adicionais do auxílio devem ter
custo total de R$ 18 bilhões. Desse valor, R$ 11 bilhões seriam
liberados por meio de créditos extraordinários, recursos destinados a
situações imprevistas e urgentes. Essa verba não é contabilizada no teto
de gastos, regra que limita as despesas do governo à variação da
inflação.
Outros R$ 7 bilhões serão provenientes de sobras da
atual rodada da assistência. O programa em vigor hoje tem quatro meses
de duração, de abril a julho, e recebeu R$ 44 bilhões.
Para
efetivar a proposta, o governo deve editar uma Medida Provisória para
estender o auxílio para agosto e setembro. A ideia é manter o público
beneficiado e os valores das parcelas. Hoje o benefício varia de acordo
com a composição familiar, com parcelas que variam de R$ 150 a R$ 375
por mês.
Para sustentar a decisão de ampliar o programa
emergencial, membros do governo afirmam que estão sendo coerentes com os
discursos recentes de governadores, que prometeram acelerar o programa
de vacinação até setembro. Por isso, afirmam que seria importante manter
a cobertura do auxílio nesse período.
O argumento representa uma
mudança de posição em relação a discursos feitos recentemente pelo
ministro Paulo Guedes. Em maio, ele afirmou em mais de uma ocasião que
eventual prorrogação do auxílio dependeria do desenrolar da crise
sanitária.
"O auxílio emergencial é uma arma que nós temos e que
pode, sim, ser renovada. Se a doença continuar fustigando, as mortes
continuarem, nós vamos ter que renovar", disse há duas semanas.
Membros
da pasta também fizeram pressão no governo nos últimos meses para que a
reformulação do Bolsa Família fosse apresentada logo, com o objetivo de
evitar uma renovação do auxílio.
Procurado, o Ministério da Economia informou que não comenta medidas em estudo.
No
caso do Bolsa Família, o benefício médio está na faixa de R$ 190 por
mês. Bolsonaro já declarou que, no novo programa social, esse valor
deverá subir para R$ 250 ou mais. Alguns aliados dizem que há pressão
para que sejam transferidos em média R$ 300 por família.
Congressistas
próximos de Bolsonaro dizem que ele conta com a ampliação da cobertura
social para reduzir a rejeição apontada pelas pesquisas de intenção de
voto.
No desenho em discussão pelo governo, o novo programa
social deve incorporar um mecanismo defendido pela equipe econômica. A
ideia é que, se um beneficiário encontrar um emprego formal, continuará
recebendo, por um período determinado, uma parte da assistência social.
Assim,
integrantes do governo esperam que as famílias atendidas pelo programa
possam ter um estímulo à inserção no mercado de trabalho, pois
receberiam por alguns meses mais do que o benefício social.
Um
dos argumentos do governo é que, no Bolsa Família, o beneficiário deixa o
programa quando consegue um emprego formal e, depois, se perder o
contrato de trabalho, tem dificuldade para receber novamente a
transferência de renda.
Nesta segunda-feira (7), o presidente da
Câmara, Arthur Lira (PP-AL), defendeu que, em vez de prorrogar o auxílio
emergencial neste ano, o governo deveria apresentar uma proposta de
novo programa social que deve reformular o Bolsa Família.
"O
auxílio deve ficar entre julho e agosto. Eu não acho que a melhor
solução seja postergá-lo. Nós temos que ter um projeto viável para ainda
antes do recesso [do Congresso, em meados de julho] votar um projeto de
renda permanente, em substituição ao Bolsa Família", afirmou Lira na
abertura da 12ª edição da Bradesco BBI London Conference.
Apesar
de o governo sinalizar uma decisão contrária ao que disse Lira,
interlocutores de Bolsonaro no Congresso negam que o episódio irá gerar
um desgaste com o presidente da Câmara.
Além
de manter o auxílio enquanto aguarda a ampliação do programa de
vacinação, o governo argumenta que é preciso mais tempo para que a
proposta de novo Bolsa Família seja apresentada e aprovada pelo
Congresso.
Membros da equipe econômica afirmam que os três
últimos meses do ano serão cruciais para a definição dos caminhos do
governo na área social. O novo Bolsa Família terá que, obrigatoriamente,
ser aprovado e implementado em 2021. Caso contrário, como a Lei
Eleitoral proíbe a criação de novo gasto social em ano de eleições, o
governo ficaria impedido de mexer no programa.
Governistas também
rejeitam a ideia de rusgas entre o ministro Paulo Guedes e Lira. Eles
citam, por exemplo, que os dois formularam juntos o fatiamento da
reforma tributária, no modelo desejado pela equipe econômica.
O
auxílio emergencial foi criado em 2020 para atender pessoas vulneráveis
durante a pandemia do coronavírus. No ano passado, o governo gastou
quase R$ 300 bilhões com o auxílio. O valor das parcelas começou em R$
600 e depois caiu para R$ 300.
Em dezembro, o programa foi
encerrado sem que houvesse uma proposta de renovação por parte do
governo. A avaliação naquele momento era que a pandemia estava cedendo e
não seria mais necessário pagar a assistência.
Depois de
reconhecer o agravamento da crise sanitária, o governo passou a negociar
a aprovação de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que, além de
destravar o auxílio, criava uma série de medidas de ajuste fiscal.
A
proposta foi promulgada apenas em março, com liberação dos benefícios
em abril. Desse modo, o país ficou o primeiro trimestre sem a
assistência emergencial. Agora, membros do Ministério da Economia
afirmem que não não será necessário aprovar uma nova PEC ou decretar
calamidade pública para renovar o auxílio. Segundo fontes da pasta, a
avaliação é que a medida provisória será suficiente para implementar o
plano.
AUXÍLIO EMERGENCIAL EM 2021
- Quatro meses de duração, de abril a julho
-
Parcela depende de composição familiar. Valor padrão é de R$ 250. Para
mulheres chefes de família, o valor é de R$ 375. Pessoas que vivem
sozinhas recebem R$ 150
- Público foi inicialmente estimado em 45,6 milhões de famílias
- Valor total liberado de R$ 44 bilhões
PRORROGAÇÃO EM ESTUDO
- Mais duas parcelas, em agosto e setembro
- Ideia é aguardar ampliação do programa de vacinação nos estados
- Público atendido e valor das parcelas seria mantido
Custo
das duas parcelas deve ficar em R$ 18 bilhões (R$ 11 bilhões em
créditos extraordinários novos e R$ 7 bilhões de sobras da rodada
atual).
FONTE: FOLHAPE.COM.BR