
Mudança climática / Reprodução do google.
A capacidade de adaptação dos países às mudanças causadas pelo aquecimento global pode acabar, caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam drasticamente reduzidos nesta década. Segundo relatório da Chatham House, think tank (instituições que se dedicam a produzir conhecimento sobre temas políticos, econômicos ou científicos) britânica de pesquisa sobre o desenvolvimento internacional, fundada em 1920, as mudanças podem ser irreversíveis entre 2040 e 2050.
O alerta está na Avaliação de Riscos das Mudanças Climáticas, documento desenvolvido para subsidiar as tomadas de decisões dos chefes de Governo e ministros antes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), marcada para ocorrer de 31 de outubro a 12 de novembro, em Glasgow, na Escócia.
Para o pesquisador sênior do Programa de Meio Ambiente e Sociedade da Chatham House, Daniel Quiggin, um dos autores do relatório, as metas estabelecidas por muitos países para neutralizar as emissões de carbono e a maior ambição com relação às metas nacionais de redução de gases de efeito estufa são uma esperança. Embora, segundo ele, não passem de promessas.
“Muitos países não têm políticas, regulamentações, legislação, incentivos e mecanismos de mercado proporcionais para realmente cumprir essas metas. Além disso, os NDCs [da sigla em inglês para Contribuição Nacionalmente Determinada] revisados globalmente ainda não fornecem uma boa chance de evitar o aquecimento em 2ºC. Devemos lembrar que muitos cientistas do clima estão preocupados que, além dos 2ºC, uma mudança climática descontrolada possa ser iniciada”, alerta.
As metas nacionais foram determinadas a partir do Acordo de Paris, tratado negociado durante a COP21, em 2015, no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. O acordo rege a redução de emissão de gases de efeito estufa a partir de 2020, para tentar manter o aquecimento global abaixo de 2ºC até o fim do século, num contexto de desenvolvimento sustentável.
Quiggin alerta que as metas definidas ainda não garantem a neutralidade do carbono.
“O balanço zero líquido das emissões depende
de tecnologias de emissão negativa, que atualmente não são comprovadas
empiricamente em escala comercial. Em resumo, as metas que os países buscam
estão se movendo na direção certa, mas ainda não conseguem evitar a devastadora
mudança climática. E as políticas de apoio às metas existentes são
insuficientes para atingir essas metas”, disse.
Ondas de calor
A avaliação, lançada essa semana em Londres,
aponta que a falta de medidas concretas por parte dos governos pode levar a
temperaturas extremas a partir da década de 2030, causando 10 milhões de mortes
ao ar livre. Ondas de calor anuais podem afetar 70% da população mundial e 700
milhões de pessoas estarão expostas a secas severas e prolongadas todos os
anos.
O documento também alerta para a redução de
30% na produção agrícola até 2050 e que 400 milhões de pessoas não poderão mais
trabalhar ao ar livre por causa do aquecimento global. Para 2040, há uma
expectativa de perda de rendimento de pelo menos 10% nos quatro principais
países produtores de milho: Estados Unidos, China, Brasil e Argentina.
Na virada do próximo século, um aumento de 1
metro no nível do mar pode aumentar a probabilidade das grandes inundações em
cerca de 40 vezes para Xangai, 200 vezes para Nova York e mil vezes para
Calcutá.
Segundo Quinggin, os atuais esforços globais
para conter o aquecimento dão ao mundo menos de 5% de chance de manter o
aquecimento abaixo de 2°C.
“Sem ações radicais em todos os setores, mas
especialmente dos grandes emissores, temperaturas extremas, quedas dramáticas
nos rendimentos agrícolas e secas severas prolongadas provavelmente resultarão
em milhões de mortes adicionais na próxima década. Ainda há uma janela de
oportunidade real (embora ela esteja se fechando) para uma ambição muito maior
de todos os governos, para evitar os impactos mais catastróficos das mudanças
climáticas”.
A avaliação da Chatham House indica que o ritmo atual dos esforços de descarbonização podem segurar o aquecimento até 2100 em 2,7°C, mas a chance de a temperatura média do planeta subir 3,5°C é de 10%. O pesquisador explica que as restrições de mobilidade ocorridas por causa da pandemia da covid-19 contribuíram apenas momentaneamente para a redução das emissões.
“Nós consideramos isso, mas dado que as emissões se recuperaram muito rapidamente, e agora estão subindo novamente, o breve alívio oferecido pelos bloqueios nas emissões foi insuficiente para mudar nossa avaliação do ritmo e gravidade das mudanças climáticas”, explica.
A Avaliação de Riscos das Mudanças Climáticas é o primeiro de uma série de relatórios de pesquisa aprofundados que a Chatham House vai lançar até a COP26, analisando as consequências do aquecimento do planeta e indicando as ações que precisam ser tomadas para evitar o desastre climático. O trabalho é feito por cientistas e analistas políticos no Reino Unido e na China.
FONTE: FOLHA DE PERNAMBUCO.