
Imagem meramente ilustrativa / Reprodução: Notícias ao Minuto.
A alta da incidência de infartos em mulheres jovens levou a SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia) a criar protocolos específicos para a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das doenças isquêmicas do coração feminino.
Mulheres que engravidam depois dos 40 anos, por exemplo, apresentam aumento de 20% do risco de sofrer infarto durante a gestação.
Ainda que seja um evento pouco comum na gravidez, 3,34 infartos a cada 100 mil gestações, o dado é uma peça a mais no quebra-cabeça que tenta explicar a alta da mortalidade de mulheres jovens por doenças isquêmicas do coração nas últimas décadas.
Segundo cardiologista Gláucia Maria Moraes de Oliveira, membro da comissão executiva do departamento de cardiologia da Mulher da SBC, além da idade materna tardia, há uma série outros fatores que podem aparecer durante a gestação, como diabetes, hipertensão e arritmias, que elevam o risco cardíaco.
"A gravidez é um estresse, como se fosse um teste de esforço para a mulher. Ao mesmo tempo é uma janela de oportunidade para identificar os riscos cardiovasculares que podem se manifestar ainda na gestão ou depois, ao longo da vida", afirma a médica, uma das coordenadoras da nova diretriz.
O documento chama a atenção também para os riscos envolvidos nos contraceptivos hormonais. Diz, por exemplo, que eles se mostram eficazes e seguros para mulheres saudáveis, mas ainda que há escassez de evidências sobre seus efeitos em portadoras de comorbidades.
A diretriz orienta que, se a mulher tiver fatores de risco para doenças cardiovasculares, os CHC são contraindicados. Nessas situações, são recomendados os CPP (contraceptivos progestágenos puros).
A endometriose é outra causa de infertilidade que tem associação com aumento de risco para doença cardiovascular. Na doença ocorre um processo inflamatório crônico mediado por substâncias que induzem o aumento do estresse oxidativo e do LDL-colesterol, que levam à formação de placas de gordura na superfície interna das paredes das artérias.
Dados da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel, 2020) apontaram que 65% das mulheres entre 18 e 45 anos estão com excesso de peso, e cerca de um quinto delas, obesas. Cerca de 27% têm hipertensão. Já a taxa de diabetes, outra doença que aumenta o risco cardiovascular, dobrou entre mulheres de 24 a 35 anos.
As mulheres também apresentam maior frequência de fatores de risco cardiovasculares não tradicionais, como estresse mental e depressão, e sofrem maior consequência das desvantagens sociais devido à raça, à etnia e à renda, segundo o documento.
"Há falta de conscientização das próprias mulheres. Já que os sintomas do infarto não são tão típicos, elas retardam a ida ao pronto-socorro. E também não costumam receber o tratamento adequado."
A auxiliar de enfermagem Bianca de Souza da Silva, 37, do Rio de Janeiro, sofreu um infarto em 2020. "Comecei a sentir calafrios, sudorese e muita dor no peito. Meu marido pensou que fosse crise de ansiedade porque eu já tive anos atrás. Mas eu sentia que era algo diferente."
Como não tinha nenhum fator de risco cardíaco, a equipe médica que a atendeu na emergência também suspeitou de ansiedade e a medicou com ansiolítico. "Quando saiu o resultado do exame de sangue, só me lembro de ouvir o pessoal gritando CTI, CTI, CTI, ela infartou, ela infartou. Fiquei uma semana na UTI."
As confusões não param por aí. "Há alterações no eletrocardiograma da mulher que são diferentes da dos homens. Existe um número razoável de infartos em mulheres sem doença obstrutiva", explica a cardiologista.
Mulheres infartadas também costumam receber menos o tratamento de angioplastia primária (desobstrução da artéria) do que os homens, às vezes na mesma instituição. "Nas mulheres, a revascularização da artéria ocluída pode ser mais difícil devido a sangramento no local de acesso e a artérias coronárias pequenas e mais tortuosas."
De acordo com a cardiologista, a ideia é que o novo documento da SBC guie não apenas os cardiologistas como também os médicos de família, ginecologistas e obstetras, endocrinologistas e as mulheres em geral. "Se elas não procuram ajuda, a gente não consegue ajudar também."
FONTE: NOTÍCIAS AO MINUTO.