Publicada em 24/11/2023 às 10h46.
Líder comunitário cria ONG para ajudar moradores a acessar serviços públicos
Em parceria com outros voluntários, Emerson Galego fundou a 'Casa da Comunidade' para receber os moradores do Iraque.

Líder comunitário Emerson Galego atende moradores do Iraque na 'Casa da Comunidade' 

Foto: Iris Costa/g1.


Há cerca de 30 anos, às margens de um canal, começou a se formar o que hoje é a Comunidade do Iraque, na Zona Oeste do Recife. Inserida entre os bairros Jiquiá, Estância e Areias, o território existe há décadas, na prática, mas a aproximação com o poder público é recente, segundo o líder comunitário Emerson Galego.


Emerson cresceu no Iraque e viu de perto as carências da comunidade, que nasceu da ocupação de um terreno abandonado, assim como tantas outras. Ciente das demandas e desafios do território, começou a se preocupar com os problemas estruturais e ajudar moradores a acessarem serviços básicos.


“A gente não tinha muito o poder público atuando na comunidade. Depois da obra do canal, a comunidade ficou abandonada, na questão de saúde pública, educação, saneamento básico, calçamento de becos… Eu, como morador e criado na comunidade, senti a necessidade de fazer a diferença”, contou o líder comunitário.


O impulso de colaborar fez com que, aos poucos, as ajudas pontuais se transformassem em rotina. A atitude inspirou outros moradores e, há aproximadamente 9 anos, a união deu origem a uma organização não governamental (ONG) hoje chamada de Casa da Comunidade.


“Somos nove voluntários, amamos fazer isso. A gente hoje não se vê mais sem a ONG. Tem todo tipo de serviço. Se acontece uma emergência, a gente faz ofício, aciona as instituições. Quando os órgãos públicos chegam para visitar a comunidade, a gente larga tudo o que está fazendo e vai atrás”, explicou Cláudia Regina, que também atua do projeto.


Além da preocupação com a infraestrutura da comunidade, a Casa da Comunidade surgiu com a proposta de ajudar os moradores a acessarem serviços básicos de cidadania, desde a emissão de documentos e até a solicitação de sepultamento gratuito. Atualmente, a organização também fornece consultoria jurídica e psicológica.


Mercado de trabalho


A psicóloga Eliane Ferreira é uma das voluntárias da iniciativa. Ela trabalha no setor de Recursos Humanos em uma empresa de grande porte e conheceu a ONG quando precisou recrutar, de uma única vez, 30 candidatos. Hoje, ajuda a organização dando suporte para os moradores entrarem no mercado de trabalho.


“Emerson reuniu todo mundo aqui e eu passei um sábado inteiro fazendo recrutamento e seleção. Eu percebi que eles tinham uma carência muito grande quanto a preparação de currículos, como se comportar numa seleção, e aí eu fui dando as orientações. A partir daí iniciou a nossa parceria que já tem cerca de dois anos”, compartilhou a psicóloga.


Um dos beneficiados pelo trabalho de Eliane foi o morador José Francisco, que se mudou para a Comunidade do Iraque há cerca de 5 anos, apenas com uma filha pequena. Ele foi acolhido e conseguiu um emprego formal com a ajuda da ONG. Sempre que pode, tenta retribuir as boas ações que recebeu da comunidade ajudando em pequenas obras.


José Francisco foi acolhido pela ONG quando se mudou para a comunidade do Iraque


“Eu cuido da minha filha desde os nove meses, só eu e ela. Quando vim morar aqui, estava desempregado. Aluguei uma casa e só tinha um colchão. O pessoal da ONG que me ajudou. Arrumaram uma televisão para mim, cesta básica, fizeram cotinha, arrumaram emprego para mim. Depois que eu comecei a trabalhar, foi melhorando a minha vida”, compartilhou.


Outro serviço com muita demanda na Casa da Comunidade é o de assessoria jurídica. Pelo menos uma vez por mês o advogado Petrus Galvão vai presencialmente no Iraque para tirar dúvidas da população sobre direitos e como dar entrada em benefícios, por exemplo.


“Eu presto consultoria jurídica e também dou entrada em ações, principalmente na parte de direito de família, benefícios assistenciais e aposentadorias, tanto por invalidez, quanto por idade e tempo de contribuição. [...] Eu vejo a condição da pessoa e tento ser o mais acessível possível”, explicou o advogado.


Regularização fundiária


Uma das principais lutas dos moradores do Iraque é a regularização fundiária do local. Como a comunidade surgiu a partir da ocupação de um terreno desocupado na década de 90, quase a totalidade dos imóveis construídos permanecem, até hoje na irregularidade.


Procurada pela reportagem do g1, a prefeitura do Recife informou que a Zona Especial de Interesse Social (Zeis) Rua do Rio/Iraque será contemplada pelo programa 'A Casa É Sua'. A iniciativa se trata de uma política municipal de regularização fundiária que pretende beneficiar 50 mil famílias até o final de 2024.


De acordo com a gestão municipal, a localidade foi incluída em um convênio de cooperação assinado, em outubro, pelo prefeito João Campos e a ministra da Gestão e Inovação dos Serviços Públicos, Esther Dweck. O documento permite que a prefeitura realize o processo de regularização fundiária em terrenos da União localizados no município, como é o caso da Comunidade do Iraque.


g1 perguntou à prefeitura do Recife quantos títulos de possem devem ser entregues especificamente para a Comunidade do Iraque, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.



FONTE: G1.



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