
Foto: Divulgação.
Pichações
recorrentes estão alterando a paisagem do Parque da Pedra Furada, principal
ponto turístico de Venturosa, no Agreste de Pernambuco, e já avançam sobre
pinturas rupestres milenares existentes nas formações rochosas. O caso foi alvo
de uma denúncia feita por guias de turismo que levam grupos para o município.
Eles formalizaram um ofício nesta quarta-feira (29) cobrando “intervenção
imediata” de órgãos competentes.
O
parque municipal, criado em 1985, é uma área de visitação formada por grandes
estruturas rochosas, incluindo o arco natural que dá nome ao local. O acesso é
feito por uma escadaria de 360 degraus e, entre as formações, há pinturas
rupestres em tons avermelhados, registros deixados por povos que habitaram a
região há milhares de anos.
A
guia de turismo Millene Negreiros, que trabalha na região há cerca de seis
anos, afirma que as intervenções não são recentes e vêm se intensificando. “Já
tem 6 anos que eu faço esse trabalho aqui na região e é há pelo menos 6 anos
que já tem essas pichações, e só vem piorando. As pichações já estão maiores e
agora tem várias outras bem mais recentes”, relata.
Ela
também destaca a ausência de estrutura e controle no parque municipal. “Não tem
nenhuma segurança, não tem estrutura, nem banheiro, nem limpeza, e o parque
fica aberto praticamente o dia inteiro. Várias pessoas entram com qualquer
material. São pessoas que chegam lá de qualquer forma para fazer qualquer
coisa”, afirmou.
Segundo
a guia, a situação já preocupa pelo fato das pichações continuarem acontecendo
e danificando um espaço arqueológico. “Praticamente toda a parte das pinturas
rupestres já está tomada de pichação e está ficando muito pior. Então, o pouco
que tem precisa, no mínimo, ser muito preservado. ”
De
acordo com Millene, o dano atinge diretamente as pinturas rupestres. “As
pichações estão sendo feitas em cima das pinturas. Afeta diretamente”, disse.
Diante do agravamento, ela decidiu expor o caso nas redes sociais.
A
guia informou que já buscou medidas institucionais e enviou ofícios para a
Câmara dos Vereadores e Ministério Público, além de levar o caso ao Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A
repercussão do caso também tem sido negativa entre visitantes. A psicóloga
Luana Alves, de 39 anos, que mora no Recife e já esteve na região, classificou
o cenário como alarmante.
“Quando
eu vi o vídeo sobre pichação, justamente nesses lugares que têm pinturas, eu
achei um absurdo, porque é tentar apagar um pouco da nossa história também.
Tudo que a gente vê na natureza hoje tem milhões de anos, várias eras e não foi
feito do dia para a noite. E acabam depredando, mas estão destruindo o passado
e o futuro também”, observa.
Para
a visitante, o impacto atinge diretamente o turismo. “Imagina você se
organizar, ter toda uma expectativa de chegar no lugar e ver um ambiente sujo,
depredado, degradado. Não é uma experiência boa para um turista. O turista não
vai querer voltar, mesmo que a situação se resolva, porque como é que você vai
apagar uma pichação sem interferir na natureza? ”, destaca.
Ela
avalia que a tendência é de afastamento do público. Comentários feitos em uma
postagem no Instagram pela guia de turismo Millene Negreiros, usuários
destacaram que perderam o desejo de visitar o local, enquanto mostravam
frustração com o ocorrido.
Consequências
A
pichação registrada no Parque da Pedra Furada pode ter consequências jurídicas
mais severas do que casos semelhantes em áreas urbanas comuns. Segundo o
advogado especialista em patrimônio, André Lins, quando o dano atinge sítios
arqueológicos, como ocorre nas áreas com pinturas rupestres, o crime passa a
ser enquadrado como dano ao patrimônio cultural.
“Pichar
um muro comum é considerado um crime leve. No entanto, pichar ou danificar um
sítio arqueológico é um crime contra o patrimônio cultural. A punição é de
reclusão de 1 a 3 anos, além de multa. Ao contrário da pichação comum, o dano
ao patrimônio histórico dificilmente permite o perdão da pena ou apenas o
pagamento de cestas básicas”, explica.
Além
da esfera criminal, o infrator pode sofrer sanções administrativas e civis. “O
vândalo responde nas esferas criminal, administrativa e cível, pagando
inclusive a caríssima restauração técnica das rochas”, explica. De acordo com o
advogado, multas aplicadas por órgãos de proteção podem ultrapassar R$ 50 mil,
a depender da gravidade.
A responsabilização, no entanto, não se limita a quem comete o ato e o poder público pode ser responsabilizado por omissão. “Pode haver multas diárias e até processos de improbidade administrativa contra gestores”, complementa.
O
crime é tipificado como dano ao patrimônio arqueológico e cultural, previsto no
artigo 62 da Lei de Crimes Ambientais. Por envolver bens da União, os processos
costumam tramitar na Justiça Federal. O advogado explica que a pena pode durar
entre 2 e 4 anos de detenção, mas há possibilidade de bloqueio de bens e contas
bancárias do acusado.
Segundo
ele, apesar da legislação considerada rigorosa, falhas na fiscalização ainda
são comuns. “Há falta de concursos públicos e desarticulação entre os governos.
Muitas vezes há um ‘jogo de empurra’ sobre quem deve agir, quando, na verdade,
a responsabilidade é compartilhada entre União, Estado e Município”, explica.
O Diário de Pernambuco entrou em contato com a Prefeitura de Venturosa e com o Iphan, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.