Publicada em 25/05/2026 às 10h57.
Caso Henry: defesa de Monique diz que ela também foi vítima de violência doméstica
Júri recomeça após ser adiado em março, quando a defesa do ex-vereador Jairinho deixou o plenário.

Foto: Divulgação. 


 A defesa de Monique Medeiros afirmou, nesta segunda-feira, que pretende demonstrar aos jurados que a mãe de Henry Borel não tinha conhecimento das agressões sofridas pelo filho e que também foi vítima de violência doméstica durante o relacionamento com o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Jairinho. A declaração foi dada pela advogada Florencia Rosa antes da retomada do julgamento no 2º Tribunal do Júri da Capital, no Centro do Rio.


Questionada sobre a expectativa para a sessão, a defensora disse esperar que o julgamento transcorra normalmente, sem interrupções como ocorreu em março deste ano, quando a primeira tentativa de realização do júri foi suspensa após os advogados de Jairinho deixarem o plenário. Na ocasião, Monique teve a prisão relaxada, mas acabou tendo o retorno à cadeia determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


— A nossa expectativa é que o júri aconteça normalmente, diferentemente do que aconteceu da última vez. E que a justiça seja feita. A Monique, assim como toda a bancada defensiva, acredita na Justiça e que o responsável pela morte do Henry esteja condenado — afirmou Rosa.


Segundo Florencia Rosa, a linha de defesa permanece a mesma ao longo do processo: sustentar que Monique não tinha ciência das agressões sofridas pelo filho. A advogada afirmou que a estratégia será baseada em depoimentos prestados durante a ação penal e em dados obtidos durante as investigações.


— Então, através da inquirição das testemunhas e, principalmente, da extração de dados feita pelo próprio Estado, nós vamos demonstrar que a Monique não tinha ciência da violência que o filho dela estava sofrendo — declarou a advogada.


A defensora também afirmou que existem elementos presentes nos autos que, segundo ela, não receberam divulgação pública ao longo dos últimos cinco anos e que serão apresentados aos jurados durante o julgamento:


— Ela foi vítima de violência doméstica, assim como o próprio filho.


Julgamento retomado


O julgamento de Jairinho e Monique Medeiros é retomado nesta segunda-feira, no 2º Tribunal do Júri da Capital, sob a presidência da juíza Elizabeth Machado Louro.

Os dois réus respondem por uma série de crimes relacionados à morte de Henry Borel, ocorrida em março de 2021. Jairinho é acusado de homicídio qualificado, tortura em três episódios, fraude processual e coação no curso do processo. Já Monique responde por homicídio qualificado por omissão, tortura em dois episódios, falsidade ideológica, fraude processual e coação no curso do processo.


O Ministério Público sustenta que Henry foi vítima de agressões reiteradas praticadas por Jairinho e que Monique tinha conhecimento das violências e se omitiu diante delas. As defesas negam as acusações.


A sessão marca a retomada do júri popular que havia sido interrompido em março, após a saída dos advogados de Jairinho do plenário. Desde então, pedidos apresentados pela defesa do ex-vereador para suspender o julgamento e anular provas foram rejeitados pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e pelo Superior Tribunal de Justiça.


Quem é Jairinho


Com base eleitoral na Zona Oeste, o ex-vereador entrou na política em 2004, aos 27 anos, herdando os passos eleitorais do pai, o então deputado Coronel Jairo, sendo o candidato mais votado do Partido Social Cristão (PSC) para a Câmara do Rio. No mesmo ano, se formou em medicina pela Unigranrio mas optou por seguir a carreira na política. Ele chegou a ser líder do ex-prefeito Marcelo Crivella no legislativo.


Em depoimento na 16ª DP (Barra da Tijuca), dias depois da morte do enteado Henry Borel, em 8 de março de 2021, ele disse que não tentou fazer massagem cardíaca no menino antes de levá-lo para o hospital por falta de experiência. À polícia, disse que a última vez que realizou o procedimento foi em um boneco, durante as aulas do curso de graduação.


Um dos motivos para ele ser acusado de coação foi o depoimento de um alto executivo da área de saúde, que foi contatado por Jairinho para tentar impedir que o corpo do menino fosse encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML), onde foram atestadas as agressões.


Quem é Monique


Monique Medeiros, a mãe de Henry Borel, está presa preventivamente no Complexo Penitenciário de Gericinó, a exemplo do ex-vereador Jairinho. Ela chegou a ser liberada para responder o processo em liberdade, em agosto de 2022 por decisão do Superior Tribunal de Justiça STF). Mas voltou a ser presa depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, em julho de 2023, ao analisar um recurso dos advogados do Leniel Borel, pai da criança.

 

Monique conheceu Leniel Borel, pai de Henry Borel no fim de 2011, quando os dois comemoravam o aniversário de uma amiga, no restaurante Faenza, na Barra da Tijuca. Formada em Letras (Português e Literatura), tinha sido recém-aprovada em um concurso para professora da prefeitura do Rio. Em dezembro de 2012, quando já moravam juntos, os dois se casaram. Com os anos, o relacionamento esfriou porque Leniel arrumou um emprego em Macaé e só retornava para a casa no Recreio nos fins de semana. Eles se separaram em julho de 2020 e ela voltou a morar com a mãe em Bangu.


Em agosto de 2020, Monique conheceu Jairinho em um almoço profissional no Shopping Village Mall, na Barra. Em outubro, quando já haviam saído algumas vezes juntos, começaram a namorar. Um mês depois, o ex-vereador convidou ela e o filho para os três morarem juntos em um apartamento no condomínio Majestic, no Cidade Jardim.


Em janeiro de 2021, quando ja vivia com Jairinho, ela foi nomeada assessora do Tribunal de Contas do município, onde passou a ganhar mais. Antes, na condição de diretora da Escola Municipal Ariena Vianna da Silva, em Senador Camará, ganhava cerca de R$ 4,5 mil. No TCM, onde foi exonerada após a prisão, o salário era de R$ 12.177,04.


Confira passo a passo como Monique e Jairinho acabaram presos

8 de março de 2021


3h30 - Monique e Jairinho levam Henry à emergência do Barra D'Or.


5h42 - As pediatras do hospital atestam a morte do menino. Em depoimento, elas garantiram que ele já chegou morto à unidade de saúde, mas foi submetido a tentativas de manobras de reanimação.


12h18 - Um registro de ocorrência de remoção para verificação de óbito é feito na 16ª DP. A polícia determina ainda que uma perícia no apartamento do então casal seja feita pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE).


12h42 - Leniel Borel de Almeida, pai de Henry, presta depoimento na delegacia.


Ele contou ter recebido uma ligação de sua ex-companheira, Monique, por volta de 4h30. Ela teria dito que o filho deles estava “sem respirar” e foi levado ao hospital. Ao chegar ao local e encontrá-la, na companhia de Dr. Jairinho, o engenheiro foi informado de que a criança havia feito um “barulho estranho” enquanto dormia. Os dois contaram que, no quarto do menino, encontraram-no com os “olhos virados” e com dificuldade respiratória.


14h - O corpo de Henry é levado para o Instituto Médico-Legal (IML), no Centro do Rio.


18h24 - No IML, o perito legista Leonardo Huber conclui o exame de necropsia e aponta que o menino sofreu hemorragia interna e laceração hepática, provocada por ação contundente, e que seu corpo apresentava equimoses, hematomas, edemas e contusões. O laudo da necropsia revela que o menino tinha 23 lesões e que o óbito ocorreu em um intervalo de quatro horas após sofrer hemorragia interna provocada por lesão hepática.


9 de março de 2021


O corpo de Henry é enterrado no Cemitério do Murundu, em Realengo, na Zona Oeste do Rio.


17 de março


22h03 - Monique presta depoimento na 16ª DP. Ela conta que estava assistindo a uma série na televisão com Jairinho quando, às 3h30, teria levantado e encontrado Henry caído no chão, com mãos e pés gelados, olhos revirados e sem responder ao seu chamado. A professora disse ter gritado pelo namorado, que foi imediatamente ao cômodo. Eles teriam se arrumado rapidamente e se dirigido para o Barra D’Or. No caminho, ela diz ter feito uma respiração boca a boca na criança, depois de orientação do parlamentar. Ao chegar à unidade, ela contou ter gritado pedindo ajuda, tendo recebido atendimento de várias pessoas imediatamente. Questionada se havia lido o laudo com a causa da morte de Henry, Monique afirmou acreditar que ele possa ter acordado, ficado em pé sobre a cama, se desequilibrado ou até tropeçado no encosto da poltrona e caído no chão.


2h15 - Horas depois, Jairinho também concluiu seu termo de declaração, na mesma delegacia. O ex-vereador confirmou todas as informações dadas pela namorada. Ele contou ter dormido após tomar três medicações que faz uso há cerca de 10 anos e, ao ser acordado por ela, foi urinar. Com os gritos dela, disse ter caminhado até o quarto. No local, Jairinho diz ter colocado a mão no braço de Henry e notado que o menino estava com temperatura bem abaixo do normal e com a boca aberta, parecendo respirar mal. Ele contou que acreditou que Henry havia bronco-aspirado, mas seu quadro evoluía mal, já que no caminho para o hospital não respondeu à respiração boca a boca nem aos estímulos feitos por Monique. Jairinho contou que, apesar de ter formação em Medicina, nunca exerceu a profissão e a última massagem cardíaca que realizou foi em um boneco, durante a graduação.


22 de março


19h18 - Uma amante de Jairinho contou em depoimento que, às 11h46 do dia 8 de março — seis horas e quatro minutos após atestada a morte de Henry —, eles conversaram “como se nada tivesse acontecido”. A estudante afirmou que o então parlamentar enviou mensagens para saber sobre o resultado de um exame médico que fizera. A estudante disse ainda ter ligado para a irmã de Jairinho, tendo o próprio posteriormente retornado o telefonema. Ela disse que o ex-vereador a orientou a “ficar tranquila” após ter sido chamada para depor, pois apenas teria que relatar como fora o relacionamento dos dois e se ele era agressivo. Ela reiterou que ele continuou sem falar sobre o falecimento do enteado tampouco sobre como “se sentia”.


23 de março


3h59 - Uma ex-namorada de Jairinho compareceu à 16ª DP relatando ter sido agredida pelo vereador e disse que a filha, de 3 anos à época, ficava nervosa, chorava e até vomitava ao vê-lo. A menina chegou a contar para a avó materna que também apanhava do parlamentar e que teve a cabeça afundada por ele embaixo da água de uma piscina.


18h - As três médicas pediatras que atenderam Henry Borel são ouvidas pela polícia. As profissionais garantiram que ele chegou morto à unidade de saúde e com as lesões externas no corpo descritas nos dois laudos do exame de necropsia.


19h - Três vizinhos de Monique e Jairinho também prestaram depoimento. Eles garantiram não terem ouvido nenhum barulho ou visto nenhuma anormalidade durante a madrugada do dia 8.


20h15 - A babá de Henry também foi ouvida. Ela definiu a criança como “boa” e “perfeita” e negou ter presenciado qualquer anormalidade na família, que disse ter visto reunida, no máximo, quatro vezes. A funcionária contou também que Henry lhe fazia algumas perguntas, como "Tia, por que existe a separação?". Para essa questão, ela diz ter respondido: “Para as pessoas não ficarem brigando, é melhor que se separem". A babá relatou ainda que, por volta de 9h30 do dia 8 de março, recebeu uma ligação de Monique, que dizia: “Você não precisa ir trabalhar hoje. Henry caiu da cama. Perdi meu bem mais precioso”.


24 de março


19h46 - A empregada doméstica que trabalhava para Monique e Jairinho durante os dias de semana contou em depoimento só ter visto a família junta três vezes. Ela relatou ter presenciado Henry, no carnaval, correndo em direção ao vereador gritando: “Tio Jairinho, tio Jairinho!” e o abraçando. Ela negou ter presenciado qualquer discussão entre eles. No dia 8 de março, a mulher relatou ter chegado por volta de 7h30, como de costume, e organizado a casa. Ela disse ter estranhado apenas o fato de a luz da cozinha estar acesa. Ela contou que, às 9h46, recebeu um telefonema de Monique e disse que ela poderia tirar o dia de folga. Minutos depois, quando esperava o elevador, a empregada encontrou a professora retornando do hospital e foi informada sobre a morte de Henry. Horas após o depoimento, na madrugada, Monique enviou uma mensagem pedindo que a empregada não a abandonasse. As mensagens foram apagadas, mas recuperadas pela polícia durante as investigações com o auxílio de um software.


21h38 - A avó materna de Henry, Rosângela Medeiros da Costa e Silva é ouvida pela polícia. Ela definiu o neto como um menino doce, tímido, introvertido, educado e excelente aluno. A mulher disse ter recebido uma ligação de Monique dizendo: “Mãe, o Henry não está respirando!” e imediatamente se dirigiu ao Hospital Barra D’Or com o outro filho. Durante o trajeto, ela ligou novamente insistindo: “Mãe, vem para cá”. Minutos depois, disse ter recebido o terceiro telefonema, quando soube que o menino havia falecido. Chegando a unidade de saúde, Rosângela contou que encontrou a filha “desolada”. Questionada sobre a causa da morte de Henry, Rosângela informou que "pelo que soube" ele “teve um problema no fígado, uma hemorragia causada por uma queda”.


26 de março


Policiais da 16ª DP (Barra da Tijuca) cumpriram 11 mandados de busca e apreensão de celulares e laptops em quatro endereços ligados a Leniel, Monique e Jairinho, no Recreio dos Bandeirantes e em Bangu. A medida foi solicitada pelo delegado Henrique Damasceno e deferida pelo juízo da II Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio.


29 de março


14h - Peritos do IML e do ICCE, além de policiais da 16ª DP, iniciaram as perícias complementares no apartamento onde moravam Jairinho, Monique e Henry. Eles passaram a tarde no imóvel, que foi interditado judicialmente por um mês para o trabalho dos investigadores. Foram feitas medições, análises de manchas encontradas além de fotografias do apartamento.


16h06 - Na delegacia, a psicóloga que realizava o acompanhamento terapêutico de Henry, desde o início de fevereiro de 2021, disse ter sido procurada por Monique, que relatava que ele "não queria ficar" em sua casa. A profissional contou ter realizado cinco consultas com a criança, que demonstrava afeto pelos avós maternos e que pronunciou o nome de Jairinho somente no último encontro. Ela disse que a professora reclamava que Henry não queria ir ao colégio. A mulher disse ainda que Henry contou morar "um tio" em sua casa. Perguntado quem era, o menino respondeu: "Tio Jairinho", sem deixar transparecer medo do padrasto. Logo em seguida, ele disse estar com saudades do pai.


17h24 - Em depoimento, uma professora de Henry, disse não ter tido muito contato com ele, por ser aluno novo e pelo fato de estarem atuando em sistema híbrido — com aulas alternadas entre presenciais e on-line. Ela disse que a criança apresentava comportamento alegre, falante, participativo e muito interessado. A professora negou ter percebido alguma lesão ou qualquer sinal de maus-tratos. Ela negou também que Henry tenha reclamado de algum tipo de abuso ou problema no ambiente familiar.


30 de março


Monique e Jairinho são intimados a participar de uma reprodução simulada no apartamento onde moravam com Henry, às 14h do dia 1º de abril. O casal foi chamado para encenar a narrativa que apresentou em depoimento na delegacia sobre o que ocorreu no imóvel durante a madrugada de 8 de março.


31 de março


14h - Um cirurgião plástico responsável pelo implante de silicone em uma das ex-namoradas de Jairinho prestou depoimento. Ele foi intimado a fim de que confirmasse as informações dadas por ela na delegacia de que os pontos da cirurgia teriam rompido depois de uma agressão do vereador.


1º de abril


14h - Mesmo com a ausência de Monique e Jairinho, peritos do IML e do ICCE e policiais da 16ª DP realizaram a reprodução simulada por cerca de quatro horas no apartamento. Uma investigadora representou a professora e um agente representou o parlamentar nas encenações. Um boneco, com as características de peso e altura de Henry também foi usado.


8 de abril


6h - Dr. Jairinho e Monique são presos, no início da manhã, acusados de envolvimento na morte de Henry. Após um mês de investigação, a polícia concluiu que o vereador agredia o enteado, e que a mãe da criança sabia disso.


Novo laudo


Em janeiro deste ano, a acusação apresentou um novo laudo, que reconstruiu o caso em 3D, concluindo que a morte de Henry foi provocada por agressões físicas e descartando a hipótese de queda acidental. Elaborado pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (Dedit), com assistência técnica do MP, o documento descreve um padrão de lesões externas e internas incompatível com acidente doméstico.



FONTE: FOLHA PE.




         

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