
Foto: Divulgação.
É por meio de um universo de 530 mil imagens, 50 mil vídeos, caderninhos pessoais, arquivos de celular, áudios e guias de músicas — algumas delas inéditas — que a equipe por trás da série documental “ Marília Mendonça: sentimento louco” quer recontar a história da cantora que ganhou o título de Rainha da Sofrência (com hits de sua autoria como “Infiel” e “De quem é a culpa?”) e, como compositora, lapidou sucessos para duplas como Jorge & Mateus, Henrique & Juliano e para Cristiano Araújo (1986-2015).
A pesquisa
robusta do legado de Marília compõe o documentário junto a entrevistas com
familiares, parceiros de trabalho, fãs e amigos de longa data da cantora. O
material, em fase de finalização, entra no catálogo do Prime Vídeo a partir de
16 de outubro em quatro episódios.
Com um arsenal de arquivos dessa magnitude, não
faltam em “Sentimento louco” imagens de momentos felizes em família, de
descontração, risadas em bares, e outros diversos registros em que se vê
Marília longe dos holofotes. Há também vídeos do tipo selfie em que ela se
dirige aos fãs, com quem manteve uma relação próxima ao longo de toda a
carreira. A confiança era tanta que eles chegavam a trocar confidências que, é
claro, não poderiam cair nos ouvidos do grande público.
— Antes de gravarmos efetivamente a série, entrevistamos mais de cem pessoas ao longo da pesquisa. Já naquele momento, ficava clara nossa intenção, o que gostaríamos de falar ou fazer. O irmão mais novo dela, por exemplo, nunca falou (em entrevistas), mas fala para a série. Porque as pessoas entenderam nossa intenção. Este é o efeito Marília Mendonça — diz a cineasta Susanna Lira, diretora da série. — Mesmo pessoas que tiveram rompimentos ou questões com ela estavam de coração aberto para falar.
21 bilhões de acessos
O conjunto de quatro episódios busca remontar a trajetória da cantora desde a
infância difícil em Cristinópolis (GO) até o estrelato, com sucessos entre os
mais ouvidos em rádios e streamings, além de marcos superlativos como o título
de ter feito a maior live da história do YouTube ao longo da pandemia e de
acumular 14 bilhões de views no YouTube somente em seu canal oficial à época de
sua morte. Hoje são 21 bilhões de acessos em sua plataforma oficial no serviço
de vídeos.
O documentário também fala, claro, da morte precoce de Marília, aos 26 anos, num acidente aéreo em Piedade de Caratinga (MG), a caminho de um show. Se estivesse viva, a cantora completaria hoje 31 anos.
— Eu acreditava que nós precisávamos ver e entender como essas pessoas passaram por esse luto. Tivemos momentos muito delicados, com Maiara e Maraisa (amigas e parceiras de profissão de Marília), por exemplo, e também com a mãe dela, Dona Ruth — diz Susanna. — Naquele dia, primeiro se soube do acidente e por algumas horas as pessoas acharam que ela estaria viva. Então isso, diferentemente de qualquer outro luto, cria uma expectativa. Falamos sobre isso na série: como foram aqueles minutos em que havia a possibilidade de ela estar viva. Mas fomos além, precisávamos mostrar que essa mulher é infinita.
Entre os materiais valiosos que ajudam a contar a história de Marília, estão diários nos quais já dava para ver sua verve criativa em ação, desde os primeiros anos após a infância. No primeiro episódio do documentário, a que o Globo assistiu em primeira mão, o início da carreira como compositora tem grande destaque e dá para ver como sua caneta afiada rapidamente impressionou grandes nomes do segmento sertanejo, o que inclui a dupla João Neto & Frederico. O material mostra como as criações de Marília ajudaram a alimentar a família, que passava por grandes dificuldades financeiras após a morte do pai, um drama que a cantora viveu na adolescência.
— Tivemos acesso a caderninhos, desses que trocamos recados com as amigas. Eles foram muito ricos para que pudéssemos “pescar” letras e ver a forma como ela pensava a composição das músicas. É possível ver blocos de texto e depois as letras — afirma a produtora Joy Ernanny, da Amazon MGM Studios.
A diretora Susanna — que diz ter conhecido a música de Marília numa noite de karaokê, em 2017, e nunca mais deixado de ouvi-la e acompanhá-la— conta que a série também quer mostrar o temperamento forte da artista. Um trunfo, diz a diretora, para resistir a um mercado tomado pela influência masculina.
— Mergulhamos na identidade dela com muita responsabilidade. Muitas pessoas trouxeram relatos desse temperamento forte. Tentamos trazer isso da maneira mais realista possível. Quando temos uma pessoa que fez e faz história na música, como foi o caso da Marília, a fragilidade não costuma ser um tom de sua personalidade. Obviamente, ela também tinha momentos em que se questionava. Nesse sentido, fizemos questão de mostrar todas essas camadas — afirma a diretora. — Nenhum ícone acontece sem a força de colocar o pé na porta.
O documentário terá como trilha sonora a faixa “Tudo vai ficar bem”, inédita. A canção — produzida após a morte da cantora — tinha o vocal gravado num arquivo de celular deixado por Marília. A faixa terá lançamento hoje, também em celebração ao aniversário da "Rainha da sofrência". A Amazon Music também lançará, nos próximos meses, versões de canções da cantora com expoentes do sertanejo como Zé Neto & Cristiano e Yasmin Santos.
— Marília tinha um envolvimento genuíno com a música e entregava tudo ao seu público, sem reservas. Essa nova canção ('Tudo vai ficar bem') carrega exatamente essa força e reforça o que nos move: garantir que a voz da Marília atravesse gerações e que sua conexão com os fãs continue viva, potente e eterna — afirma Tatiana Cantinho, Vice-Presidente Sênior e Head da Som Livre, gravadora que cuida do catálogo da cantora.
Em São Paulo, a cantora ainda será retratada em uma exposição inédita no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP), a partir de 9 de outubro. A “Rainha da sofrência” figura como a artista mais jovem a ganhar uma grande exposição na instituição que já se dedicou a exibições de artistas como Ney Matogrosso, Rita Lee (1947-2023) e David Bowie (1947-2016). A mostra tem patrocínio da Amazon e repete o formato visto em outras exibições do museu, em que o foco imersivo dá o tom da visita.
Dessa vez, quem for ao MIS-SP poderá ver locais como uma recriação do quarto de Marília, na casa onde ela morava em Goiânia. Outros pontos, por sua vez, celebram feitos da cantora, como uma sala que exibirá as centenas de discos de ouro e platina acumulados ao longo de sua produtiva carreira. Projeções em vídeo, por outro lado, devem recriar imagens dos célebres “caderninhos” com letras de música escritas por ela.
— A Marília é muito mais que uma cantora sertaneja. Ela rompeu bolhas e barreiras. Essa ideia me encantou, é uma artista realmente única — afirma André Sturm. — Ela tinha um “algo” a mais.
O produtor Nelson Foerster assina a curadoria da exibição com apoio de Sturm. Nelson está mergulhado no universo de Marília há mais de cinco anos e viaja constantemente para Goiânia para preparar o material de pesquisa. O trabalho dele, e de outros profissionais ligados ao documentário, também será utilizado na preparação do filme “Marília”, uma ficção que contará a trajetória da cantora, igualmente lançada pelo Prime Vídeo, ainda sem data de divulgação. Ele não economiza nos elogios à cantora e classifica: ela era “uma cantora de bilhões”, como os views do YouTube podem demonstrar.
— Nossa vontade sempre foi respeitar a história da Marília. O mais importante é pensar que ela tem um filho, que eu carinhosamente chamo de Homem-Aranha, o Léo. Queremos que ele venha à exposição e veja o documentário. Queremos que ele acompanhe tudo e possa pensar: minha mãe foi tudo isso! — emociona-se.
FONTE: FOLHA PE.