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O
número de casos de estelionato por meio eletrônico disparou em Pernambuco em
2025. O estado passou de 648 registros para 29.126 ocorrências em um ano, um
crescimento de 4.384%, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública,
divulgado na quinta-feira (23). Isso significa que, em 2025, foram mais de 3
casos por hora no estado.
Em
todo o Brasil, os golpes virtuais também avançaram, com 346.753 casos, uma alta
de 20,6% em relação ao ano anterior. Os dados mostram o avanço das fraudes
praticadas pela internet, principalmente por meio de aplicativos de mensagens e
transferências via Pix.
O
próprio Anuário destaca que a fraude eletrônica passou a ser contabilizada
separadamente no sistema policial pernambucano apenas a partir de dezembro de
2024, o que ajuda a explicar a variação.
Por
outro lado, o número geral de estelionatos em Pernambuco apresentou redução,
passando de 73.520 para 70.704 ocorrências (-4,1%), indicando que parte dos
registros passou a ser classificada especificamente como fraude eletrônica.
O
corretor de imóveis Luiz*, de 49 anos, sabe exatamente como esses criminosos
atuam. Em dois momentos diferentes, ele foi vítima de golpes aplicados pelo
Whatsapp e perdeu dinheiro após acreditar que estava tratando com pessoas de
confiança.
O
primeiro aconteceu quando buscava receber precatórios deixados pelo pai, já
falecido.
“Recebi
uma mensagem no WhatsApp de uma pessoa dizendo que era de um escritório
responsável por liberar esse dinheiro. Ela informou que eu teria que pagar uma
taxa de R$ 256 em uma lotérica. Depois, pediram mais de R$ 2.500 para quitar um
suposto IOF, uma taxa do governo. Como eu não tinha o dinheiro, pedi emprestado
a uma amiga. Ela fez o Pix na mesma hora e eu paguei”, conta.
Luiz
conta que chegou a questionar sobre os pagamentos necessários, mas o
estelionatário afirmou que depois de quitar as taxas, o valor do precatório
iria ser liberado, o que não aconteceu.
“Fui
buscar orientação e descobri que o escritório simplesmente não existia. Quando
pesquisei em sites de reclamação e nos comentários, vi que não havia registro
nenhum. O que mais me impressionou foi que eles tinham todos os meus dados,
como número do inventário, meu nome, o nome do meu pai, CPF e a data em que ele
morreu.”
Dois
anos depois, ele foi alvo de outro golpe. Dessa vez, durante um serviço de
avaliação e desmembramento de um terreno em uma cidade do interior. Após
concluir o trabalho, passou a receber justificativas para que o pagamento fosse
feito por meio de um suposto Pix parcelado, que exigia o pagamento prévio de
taxas.
“Um
rapaz entrou em contato comigo dizendo que era neto do proprietário. Conversei
também com o senhor que seria o dono, fiz todo o serviço e a negociação
aconteceu. Falaram que fariam um Pix parcelado. Só que, para esse Pix parcelado
ser liberado, eu teria que pagar algumas tarifas. Fui fazendo os pagamentos,
mandando um Pix atrás do outro, e o dinheiro nunca chegou. Até hoje não recebi
nada.”
“Eles
não têm pena da pessoa. Ficam usando uma persuasão tão grande que você
realmente acredita que está lidando com alguém correto. Quem está do outro lado
acaba confiando, porque eu, por exemplo, jamais faria esse tipo de coisa. Eles
insistem o tempo todo, convencem você e acabam aplicando o golpe.”
Estelionatários seguem um “padrão”
Para
o delegado e especialista em segurança cibernética Eronides Menezes, os
estelionatários agem na manipulação das vítimas. Segundo ele, os criminosos
utilizam técnicas conhecidas como engenharia social para conquistar a confiança
antes de pedir dinheiro ou informações.
“O
golpista tenta, primeiro, ganhar a confiança da vítima. Ele engana a pessoa de
alguma forma, convence para conquistar essa confiança e, a partir daí, fazer
com que ela realize algum pagamento, entregue algum bem ou forneça alguma informação
que está sob seu controle. Ele faz a vítima acreditar que realmente é um
funcionário do banco, um advogado, um familiar, um amigo ou alguém que está ali
para ajudar. Mas, na verdade, o objetivo é aplicar o golpe.”
Eronides explica que a rotina acelerada e a popularização das transações instantâneas facilitaram a atuação das quadrilhas. “O Pix agilizou as transações financeiras. Com isso, a criminalidade também se especializou em abordar as pessoas no ambiente virtual. Hoje, o criminoso não precisa mais estar presencialmente diante da vítima para cometer o golpe.”
Outro
recurso explorado pelos estelionatários, segundo Eronides, é o uso de gatilhos
emocionais para pressionar a vítima a agir rapidamente.
“O
criminoso utiliza gatilhos emocionais para prender a atenção da vítima. O
principal deles é o medo. Outro é a promessa de vantagem. Ele oferece algum
benefício ou oportunidade e explora a ganância da pessoa, que acredita que pode
obter alguma vantagem sem esforço. É justamente nesse momento que o golpe
acontece.”
O que fazer após cair em um golpe
Segundo
o especialista, a primeira providência da vítima deve ser comunicar
imediatamente à instituição financeira para contestar a transação. Em seguida,
a vítima deve registrar um boletim de ocorrência, reunir todos os comprovantes,
conversas, extratos e demais documentos relacionados ao caso.
“Caberá
à instituição financeira demonstrar que adotou todas as cautelas necessárias,
como a verificação adequada da documentação e da identidade do titular. Se o
banco não comprovar que tomou essas medidas, muitas vezes é mais viável
recuperar o dinheiro da própria instituição financeira do que do golpista, que
normalmente desaparece.”
*Nome fictício a pedido o entrevistado
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.