Publicada em 08/07/2016 às 09h54.
As causas e efeitos da renúncia de Eduardo Cunha
Em um discurso contundente e emocionado, o peemedebista se colocou no lugar de vítima.

 

Cunha se tornou o quarto presidente da Câmara a renunciar desde o fim da ditadura

A renúncia do deputado Eduardo Cunha (PMDB) à presidência da Câmara Federal, nesta quinta-feira (7), é mais uma evidência do seu isolamento e perda progressiva de poder. Em um discurso contundente e emocionado, o peemedebista se colocou no lugar de vítima e disse estar “pagando alto preço por ter dado início ao impeachment” da presidente afastada, Dilma Rousseff. Porém, o gesto também foi interpretado como mais uma manobra para favorecer a manutenção do seu mandato.


 

Após meses de negativas, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos presidentes da Câmara dos Deputados mais fortes das últimas décadas, renunciou ao cargo na tarde de ontem, em pronunciamento emotivo que contrastou com sua imagem de político duro e frio. Na carta em que justificou sua decisão, o peemedebista disse estar “pagando um alto preço por ter dado início ao impeachment”. Também reclamou de perseguição “do órgão acusador” (a Procuradoria-Geral da República) e chorou ao mencionar a mulher e uma das filhas.


Durante a leitura da carta, embargou a voz e chorou ao mencionar um suposto ataque “covarde” contra a família. A mulher, Claudia Cruz, é ré sob a acusação de também se beneficiar de desvios de recursos da Petrobras. A filha Daniele Ditz é investigada. “Quero agradecer a todos os que me apoiaram e me apoiam no meio dessa perseguição e vingança de que sou vítima. Quero agradecer especialmente à minha família, de quem os meus algozes não tiveram o mínimo respeito, atacando de forma covarde, especialmente a minha mulher e a minha filha mais velha”, disse, chorando. “Usam a minha família de forma cruel e desumana visando me atingir”, colocou.


O peemedebista também voltou a acusar os investigadores da Lava Jato de perseguição. Criticou ainda o STF, afirmando indiretamente ver um conluio entre a Corte e o governo Dilma no seu afastamento do cargo e do mandato - decisão unânime tomada pelo STF em 5 de maio. “Tenho consciência tranquila não só da minha inocência bem como de ter contribuído para que o meu País se tornasse melhor e se livrasse do criminoso governo do PT”, garantiu o deputado que, no seu auge, chegou a controlar uma bancada informal de cerca de 150 deputados fiéis, maior que a de qualquer partido.


Por fim, Cunha direcionou a artilharia contra seu sucessor, Waldir Maranhão (PP-MA), que rompeu politicamente com ele e patrocina um comando interino na Câmara marcado por reviravoltas. “É público e notório que a Casa está acéfala, fruto de uma interinidade bizarra, que não condiz com o que o país espera de um novo tempo após o afastamento da presidente da República. Somente a minha renúncia poderá por fim à essa instabilidade sem prazo. A Câmara não suportará esperar indefinidamente”, disse.


O agora ex-presidente da Câmara é alvo de processo de cassação por ter omitido dos pares a existência de contas vinculadas a ele na Suíça. Cunha é réu em dois processos e figura em outras apurações da PGR sob a acusação de ser um dos principais beneficiários do petrolão. Agora, ele passará a ser julgado no esquema de corrupção da Petrobras pela segunda turma do STF, responsável pelos casos da Lava Jato, e não mais pelo plenário do tribunal.

 

 

FolhadePE

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