O futebol é mais dinâmico ainda quando se fala do acreano Weverton Pereira da Silva. Sábado à noite, com o Atlético-PR, o goleiro levou dois gols e voltou para casa com derrota para o Sport, no Recife. Domingo à tarde, quase de noitinha, recebeu ligação de que o técnico Rogério Micale o chamava para a seleção olímpica. Ele era o substituto de Fernando Prass, cortado da seleção com fratura no cotovelo direito na noite de sábado.
Nascido em Rio Branco, o goleiro do Furacão comemorou muito a primeira convocação da carreira - em nenhuma categoria de base ele havia sido chamado. Ele embarcou de Curitiba para Brasília às 7h, chegando ao hotel da seleção todo elegante, de terno chumbo e calça social. Na coletiva de imprensa, ouviu do assessor de imprensa Vinicius Rodrigues um recado do treinador Micale: ele era o plano A, não o plano B. Diego Alves, do Valencia, estava liberado, mas o treinador preferiu o jogador do Atlético-PR.
- Avisei para o grupo da família: "Prepara o banquete" - disse o novo jogador da seleção.
Bem-humorado, ele brincou com os companheiros de Atlético-PR - lembrando que estava lançando bola para Marcos Guilherme e Nikão e agora ia jogar com Neymar, Gabigol e Gabriel Jesus -, vangloriou-se da marca de maior defensor de pênaltis do último Brasileiro (quatro defesas) e da habilidade para jogar com os pés - de acordo com o goleiro, ele era atacante no Acre. Confira abaixo os principais trechos da descontraída entrevista coletiva de Weverton.
Sorridente, o acreano Weverton fez a festa com a família (Foto: Raphael Zarko)A notícia
Eu estava no avião, desembarcando em Curitiba. Eu queria que o pessoal saísse logo do avião para eu respirar. Recebi todos os cumprimentos dos companheiros, da diretoria. Avisei o grupo da família, falei para preparar o banquete que tinha festa chegando em casa. Minha mãe estava na igreja quando cheguei, fiquei com eles. Estão sempre ao meu lado.
Ritmo de treinos
Não espero outra coisa a não ser trabalhos intensos, todos sabem nosso objetivo, responsabilidade que todos têm. Vamos procurar adaptar rapidamente, estilo de jogo do Micale é parecido com o que faço no Atlético com o Paulo Autuori, um jogo moderno, em que o goleiro participa do jogo, das ações. A primeira missão é defender, mas é bem mais participativo, é bem natural para mim.
Passagens na carreira
Um orgulho, Deus faz tudo no tempo dele, na hora certa. Se não foi para jogar no Corinthians é porque não era o momento, eu tinha que ser campeão na Portuguesa, e se cheguei à Seleção é porque estou preparado para isso. Estou tranquilo, sei que a responsabilidade é enorme, mas estou preparado para isso. Sei da importância que o Prass tinha para a seleção, é uma fatalidade, lamento, mas cada um tem que procurar fazer sua história. É a oportunidade do grupo de fazer história, temos que começar dessa forma, todos são importantes e são soluções para o problema que temos, que é ganhar essa medalha. Com todos unidos temos tudo para conseguir.
Elogios de Tite
Eu não sei se o Tite gosta do meu futebol, fico muito feliz, é um grande treinador. O pensamento agora é na seleção olímpica, o que tiver de acontecer será natural, como foi chegar aqui. O que tiver de vir, virá com naturalidade, tranquilidade, meu pensamento é fazer uma boa Olimpíada e conseguir a medalha.
Titular?
O Brasileiro está sendo jogado, jogo não é problema, participei das 17 rodadas, estou mais em fase de recuperação do que trabalho forte. Eu me sinto tranquilo, preparado, se o Micale optar por me usar, estarei à disposição, com certeza. O Marcos sempre foi um cara em que me espelhei muito. Ele e o Dida.
Weverton em sua primeria entrevista coletiva na seleção olímpica (Foto: Lucas Figueiredo / MoWA Press)Características
Eu me vejo dentro desse pensamento do Micale. Liderança, todo mundo sabe que sou o capitão do meu time, tenho história no meu clube. Sobre pegar pênaltis, ano passado eu fui o goleiro que mais pegou no Campeonato Brasileiro ano passado. E se o goleiro não se adaptar a jogar com os pés no futebol de hoje vai ficar para trás. O Autuori faz isso no Atlético, não vejo problemas. Saber a característica dos zagueiros, laterais, como cada um gosta de se posicionar. Vamos aproveitar esses dias que faltam, nos treinos, estaremos sempre juntos no almoço. Vamos conversar bastante para conseguir nosso objetivo.
A "corrida mais longa" do Acre
Nós corremos muito mais na subida do que quem está mais no centro. Na região Norte vamos correr sempre mais, teremos que provar e demonstrar bem mais do que os demais. Mas isso já foi superado, mais uma vez eu terei que provar e mostrar que a confiança que o Micale está me dando vai valer a pena. Só quando começar vamos poder ver se vai valer a pena ou não. Esse paradigma vem de achar que só Rio e São Paulo têm grandes jogadores. Isso prova que do Sul já vinham Alisson, Marcelo Grohe, é importante ter sempre alguém fora desse eixo para motivar os demais, saberem que a seleção não é quem está em clubes melhores, mas sim em momentos melhores. A oportunidade será dada a todos, quem agarrar vai se dar bem.
Contato com Micale
Quando eu vi que o Prass havia sido cortado eu nem imaginava que poderia estar aqui porque havia uma lista de 35 jogadores, eu sempre achei que seria dali. Fiquei muito feliz quando as notícias surgiram, principalmente quando se concretizou. Meu primeiro contato com Micale foi muito rápido, só para nos conhecermos pessoalmente, um "bom dia", agora vamos ter esse contato no treinamento. Mas ele não chegou a me ligar não.
"Sonho é livre"
Não pagamos para sonhar, o sonho é livre. Eu sempre sonhei, mas nunca imaginei que poderia estar aqui hoje. O futebol é muito distante da nossa realidade hoje, eu olho para trás e me sinto orgulhoso de estar aqui. Tenho muita coisa para conquistar e viver, sinto orgulho, a mão de Deus na minha vida. Não é fácil sair de onde eu saí e estar na seleção, só agradeço.
Atacante Weverton
Eu era atacante e vem aquela velha história de que faltou goleiro, tinha que botar alguém pra jogar no gol, eu fui e arrebentei no gol. Um olheiro do Juventus-AC me viu jogar, me chamou. Eu comecei de 9, fazendo gol. Mas como eu fui muito bem no gol, ficou a dúvida. Para mim era diversão, mas virou verdade e eu estava no Corinthians como goleiro. Minha grande vontade era ser atacante. Na época em que Marcos e Dida, meus ídolos, atuavam não havia essa exigência que há hoje. Eu admirava a postura deles fora de campo, pessoas carismáticas, o torcedor brasileiro tinha identificação muito grande com eles. A referência no Brasil de jogar com os pés sempre foi Rogério Ceni, pela qualidade e por todos os gols que fez. Pela confiança que os companheiros dele tinham. Mas com a mudança do futebol e a chegada do Paulo Autuori ao Atlético, eu passei a fazer mais isso, sem medo de errar, com confiança. Eu me sinto à vontade jogando com os pés.
De Nikão para Neymar
Brinquei com meus companheiros que estava chutando bola pro Marcos Guilherme, pro Nikão, agora vou chutar pro Neymar, pro Gabriel Jesus, Gabigol (risos). Eles fizeram muitos gols em mim, mas agora vou ficar mais tranquilo tendo eles ao meu lado.
Apoio do povo brasileiro
Sabemos a realidade do torcedor brasileiro, e só vamos mudar essa história jogando bem, ganhando jogo, fazendo por merecer a confiança. Não adianta cobrar o torcedor, temos que mostrar com bons jogos, atitude, é normal essa frieza, mas nos Jogos o torcedor vai sempre apoiar, jogar junto, é muito importante para a gente. Esperamos fazer nossa parte para isso.
Globo Esporte