Em cada passagem, além de instalar um protótipo daquele país, eles ensinam uma nova tecnologia low-tech, que atende às necessidades básicas (água, energia e alimentação) com alto impacto social e ecológico, além de baixo custo de fabricação. Na França, o resto da equipe se dedica a documentar e estudar as experiências do laboratório móvel.
Pernambuco foi escolhido pela presença do Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), em Glória do Goitá, na Zona da Mata Norte, e em Ibimirim, no Sertão do Estado. Lá, o grupo aprendeu a construir um biodigestor que fabrica gás de fogão a partir de lixo orgânico, como dejetos das galinhas. O que não serve para o gás, vira adubo para as plantas das estufas hidropônicas fabricadas em Cabo Verde. Assim, todos os sistemas se retroalimentam.
No Sertão, a equipe também aprendeu a fazer um sistema de tratamento de água que utiliza a luz de uma lâmpada para filtrar impurezas. No último domingo (31), uma exposição foi realizada no Recife Antigo para apresentar as invenções.
Aos pernambucanos, os pesquisadores ensinaram uma tecnologia aprendida no Senegal, um sistema de catavento que produz energia suficiente para carregar celulares e suprir pequenas necessidades. O custo do protótipo, que utiliza canos PVC e um motor de impressora, é de menos de R$ 15.
Além das tecnologias, os franceses levam de Pernambuco boas recordações. “As pessoas aqui são muito calorosas”, elogiou Elina Reynaud, 24 anos, formada em ecologia. “Conhecemos gente muito criativa e com ânimo de trabalhar”, afirmou o engenheiro mecânico Clement Chabot, 27 anos.
A próxima parada é no Rio de Janeiro, a mais de 2.000 quilômetros da capital pernambucana. A viagem longa não intimida os pesquisadores, que passaram três semanas em alto-mar, do Cabo Verde até o Brasil. Desta vez, os franceses estarão acompanhados por três pernambucanos, estudantes do curso técnico de Agroecologia do Serta.
Pedro Saldanha, Rafaele Nunes e Tiago França, que iniciaram os estudos no início do ano, serão os novos tripulantes do Nômade dos Mares pelos próximos 12 dias. No Rio, eles irão conhecer um projeto de bioconstrução que utiliza barro e bambu.
“É uma oportunidade de estreitar essa relação e de levar o nome do Serta para outros lugares. Os franceses atravessaram o oceano para conhecer o nosso trabalho, que existe há 27 anos, mas tem pouco reconhecimento local”, afirmou Pedro, de 30 anos.
Do Brasil, os franceses seguem para a África do Sul. Ao todo, o Nômade dos Mares aportará em dez países.

