Publicada em 09/08/2016 às 08h21.
Garoto Mateus é a oitava morte por bala perdida em Pernambuco
Nenhum país da América Latina registra mais balas perdidas que o Brasil.

Na América Latina, nenhum país registra mais balas perdidas que o Brasil. Noventa e oito morreram e 115 ficaram feridos entre 2014 e 2015, de acordo com a ONU. Um relatório com os números foi divulgado na última semana. No Estado, nos últimos quatro dias, três pessoas foram atingidas por disparos destinados a outro alvo. Levantamento realizado pela Folha de Pernambuco constatou 16 casos em 2016 até ontem, sendo quase 50% deles fatais. A proporção de crianças e adolescentes vítimas desse tipo de disparo é de 60%. Entre elas, três bebês. Muitos dos casos, como todos os últimos três, envolvem policiais. E o despreparo dos membros da corporação é posto em cheque pelos especialistas. Ontem, a Guarda Municipal do Recife realizou um protesto exigindo armas de fogo para trabalhar. De acordo com lei federal, os agentes têm direito a usá-las. A Prefeitura está analisando a experiência das outras cidades antes de tomar uma decisão.


Mateus de Melo é a oitava pessoa a morrer com uma bala perdida em Pernambuco em 2016. Foi na manhã de ontem que a lista - onde outras quatro crianças e adolescentes figuram - se tornou ainda mais absurda. O menino de 14 anos estava brincando na frente de casa, no Vasco da Gama, Zona Norte do Recife, quando foi atingido na cabeça durante uma troca de tiros entre uma guarnição da Rocam e supostos assaltantes de carro. O projétil ficou alojado na região frontal do cérebro.


Os registros são variados em relação ao perfil das vítimas e na região do Estado em que ocorrem. No último sábado, um idoso de 65 anos foi atingido durante um tiroteio entre policiais e assaltantes dentro de um mercadinho em Bezerros, no Agreste. Na sexta, um PM atirou no peito de uma criança de 10 anos que empinava pipa no Totó, Zona Oeste do Recife.


 

Os pais de Mateus denunciarão os policiais à Corregedoria da Secretaria de Defesa Social do Estado. “Vou enterrar meu filho, mas não vou descansar enquanto não denunciá-los”, disse o pedreiro Antônio Carlos de Melo. A mãe do adolescente faz aniversário hoje. Traumatizada, não vai comemorar. “Eu o amava. E me tiraram ele assim. Estou arrasada”, desabafou Sandra Teixeira. A tia do menino, Patrícia Tavares, resumiu o sentimento da família. “Estamos revoltados. A polícia não está preparada. Se queriam imobilizar, que atirassem no pé, não na cabeça. E, mesmo assim, ainda estavam errados, porque meu sobrinho era uma criança, não um ladrão”.


Em nota, o Comando da PM em Pernambuco justificou que “os policiais só usam arma de fogo para agressão injusta contra si e terceiro e que para isso há um protocolo operacional a ser seguido”.


Temor

Em meio a acusações de despreparo policial no uso da arma de fogo, guardas municipais de várias cidades do Estado protestaram, ontem, pedindo o cumprimento da Lei Federal 13.022/2014, que lhes concede atribuições de polícia municipal, com direito, inclusive, a porte de arma. A reclamação é de que, no caso do Recife, mesmo com 40% do efetivo tendo passado por treinamento e com 380 armas adquiridas, o assunto não avançou. Até agora, só Cabo de Santo Agostinho e Petrolina conseguiram aval para equipar suas guardas.


O presidente do Sindicato dos Guardas do Recife, Ewerson Miranda, concorda que é natural a preocupação da sociedade com o fato de mais servidores poderem andar armados pelas ruas, mas lembra que o processo pelo qual os profissionais vêm passando é rigoroso. “De 28 mil policiais militares, temos uma minoria que cometeu delitos. Não podemos pensar a legislação pelas exceções. No nosso caso, a lei determina corregedoria, ouvidoria, código disciplinar, exame psicológico, ficha social limpa, curso de capacitação, para que a Polícia Federal possa dar o aval. Há vários mecanismos para resguardar a segurança. São 1,4 mil guardas que poderiam contribuir mais”, diz, acrescentando que a medida também é uma questão de segurança dos próprios servidores. “Hoje, os guardas não podem proteger nem a si mesmos.”


O professor do Departamento de Ciência Política da UFPE Jorge Zaverucha concorda com a legislação federal, mas afirma que, diante de casos como os que vêm sendo registrados, é preciso estar mais atento à efetividade dos treinamentos. “Se o guarda está bem treinado, ele vai usar corretamente. O problema não é a arma, mas quem a carrega”, avalia. Por outro lado, no caso de PMs envolvidos em ocorrências de balas perdidas, defende a revisão de procedimentos. “Não é normal perseguir bandidos e a bala pegar numa criança. Se há repetidos casos, é preciso ver o que está havendo com o patrulhamento da PM. É necessário questionar, rever modos e cobrar agilidade no esclarecimento dos casos. O que não pode é pessoas ficarem morrendo de graça”.


“Eles (policiais) já chegaram atirando”


Como essa fatalidade ocorreu?

Meu filho tinha ido jogar videogame. Quando voltou, aconteceu isso. Ele estava sentado e atiraram nele pelas costas. Atiraram para matar.


Você viu os policiais atirando?

Vi quem atirou. Se eu visse a pessoa na minha frente, conseguiria identificar.


Foi bala perdida?

O ladrão nem atirou nele (policial). Ele que atirou no ladrão. Eles já chegaram atirando, metendo bala. E eles pensaram que meu filho era bandido também e atiraram num inocente. Já chegaram atirando para matar. E mataram o meu filho.


Você acha que houve um despreparo da polícia?

Eles são muito mal preparados.


Como é lidar com a perda de seu filho, Mateus?

Meu filho era cheio de sonhos. Tinha só 14 anos. Arrancaram um pedaço de mim. E da mãe dele também. Isso não pode ficar assim. Eu quero justiça.
 


Folha PE

 

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