Publicada em 09/08/2016 às 08h23.
Ação social leva cinema para detentas do Bom Pastor
Projeto é realizado mensalmente e tem como objetivo contribuir no processo de ressocialização.

Escurinho, pipoca, guaraná e muitas emoções. O clima de uma sessão de cinema é o mesmo em qualquer lugar, inclusive onde o sol nasce quadrado. Na Colônia Penal Feminina Bom Pastor, no bairro do Engenho do Meio, na Zona Oeste do Recife, acontece, mensalmente, o Cineclube Alumia - O Luzir do Cárcere, um projeto que visa inserir exibições cinematográficas na densa realidade das detentas, como forma de abstração, como processo de ressocialização e como ferramenta pedagógica de empoderamento feminino.


Descontraídas, relaxadas e entretidas pela exibição do filme "Que horas ela volta?", de Anna Muylaert, as detentas se mostraram bastante ligadas ao enredo, com direito a gritos de “sim” em alguns momentos de tomada de decisão dos personagens e a várias risadas. Quando vamos ao cinema, geralmente estamos acompanhados dos nossos familiares, amigos ou companheiro. No Bom Pastor não foi diferente. Algumas mulheres estavam abraçadas e outras de mãos dadas a suas parceiras. As demais ao lado de colegas e uma em específico chamava a avó para se sentar. Mas todas pareciam estar bem à vontade, umas até de pés descalços, como se estivessem no sofá da própria casa. Em especial, no momento da pipoca.


Para Inês Ferreira de Lima, de 50 anos, detida há três anos por suspeita do homicídio do marido, o projeto distrai a cabeça e lhe dá a chance de acompanhar as coisas que ela perdeu. “Deus me colocou aqui para aprender. Vem a saudade da minha filha, dos parentes, dos amigos. Vou aproveitar para entender as coisas e sair erguida para reconquistar minha família”, contou, ao enfatizar que prefere os filmes infantis por trazer lembranças da filha. As exibições dos filmes são sempre seguidas de debates com convidados. Na ocasião, como a obra exibida tratava da vida de uma empregada doméstica, a integrante da Sociedade de Mulheres Negras Uiala Mukaji e prestadora de serviços de assessoria ao Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Pernambuco, Vera Baroni, foi convidada para falar a respeito da resistência feminina.


De acordo com a idealizadora e coordenadora do projeto, Juliana Gleymir, de 25 anos, a seleção dos filmes, além de valorizar o cinema nacional e, principalmente, o pernambucano, parte do critério de gênero. As películas com mulheres na direção, na produção ou como protagonistas são prioridade. A escolha também parte da busca por elementos que, de alguma forma, façam parte do contexto de vida das carcerárias, a exemplo dos filmes Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro e Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro. Esses filmes, com canções de brega na trilha sonora, são capazes de gerar uma identificação muito grande. “Me sinto muito feliz em ver que o brega que eu conheço e canto, elas estão cantando junto. É incrível partilhar esse momento e poder construir um diálogo”, contou.


O Cineclube Alumia, realizado desde janeiro e programado para acontecer até outubro desse ano, nasceu da parceria com a Secretaria de Ressocialização (Seres) e a Secretaria da Mulher, viabilizado por financiamento do Governo do Estado, através do Funcultura, com o intuito de levar o lúdico para o cotidiano das presidiárias e aliviar as suas dores. Segundo Juliana, em relação às mulheres, o sistema carcerário é muito perverso e opressor. “A superlotação é um grande problema no país e no estado. Já ouvi história de que há de 7 a 9 mulheres dividindo o mesmo colchão”, declarou.


As reeducandas do Bom Pastor só tem meia hora fora das celas, nos momentos de refeição, de acordo com Yully Melo da Silva, de 23 anos, que é homem transsexual e está preso no Bom Pastor. Para ele, a sessão de cinema proporciona um raro momento de lazer. “A gente quase não sai. Só tem visita dia de domingo. É muito estresse, muita tranca. O filme distrai e faz a gente parar de pensar nas coisas lá fora”, contou. Yully ainda comentou que o momento pediu um trato na beleza. “Dei até luzes para ficar bonito para a minha esposa”.


Além do Cineclube Alumia, a colônia penal possui outros tipos de ações voltadas para a ressocialização e reinserção social, como o projeto De Alma Leve, que ensina a técnica do reiki; o grupo de extensão Além das Grades, que leva apoio jurídico, coordenado pelos alunos da Faculdade de Direito do Recife; e aulas experimentais de meditação, em parceira com a ONG Arte de Viver. Para a gerente da unidade, Charisma Tomé, essas atividades fazem as mulheres esquecerem a condição de aprisionamento.

 


Folha PE

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