Você já ouviu falar que embaixo da Praça Chora Menino mora uma família? Se sua reação foi “Como, embaixo da praça?”, pode ter certeza, foi a de todos que ouviram essa história. No entanto, há quem diga que é possível, em alguns horários, ver uma das “moradoras” saindo de um alçapão no espaço público, trocando de roupas e seguindo ao “trabalho”. “Ela entra em um buraco no meio da praça. Sempre a via quando passava para pegar ônibus por ali”, conta a estudante Mariana Fabrício, 21. Não, não há ninguém morando no local. Essa é apenas mais uma das incríveis lendas que permeiam o imaginário popular regional, cujas histórias sempre associam o lugar a assombrações.
Josefa Soares dos Santos, 64, já está acostumada às abordagens dos curiosos. “De vez em quando alguém me pergunta se moro embaixo da praça. Digo que, graças a Deus, tenho minha casa, nos Torrões. Preciso disso não”, conta. A questão é que a servidora pública, há oito anos, é a responsável pela limpeza do espaço público. Próximo a uma das extremidades da área, há uma espécie de cisterna, onde ela guarda os instrumentos de varrição e troca de roupas antes de começar e depois de executar o trabalho.
Na cobertura do “calabouço”, em vez usar a pesada tampa de metal, um guarda-chuva impede as espiadas dos curiosos e areja o local que chega a ter temperaturas insuportáveis. “Uma vez fecharam a tampa, acredita? Me deixaram lá embaixo. Sorte que eu entro com o cadeado e a chave, que não sou besta. Acho que se ficasse cinco minutos naquele calor, eu morria. Maldade mesmo”, lembra a profissional, que garante nunca ter visto nenhum tipo de assombração na praça.

Lendas históricas
A Praça Chora Menino era, na verdade, um grande descampado do Sítio Mondego. Na última reforma, o espaço público ganhou uma estátua em alusão à história que bruxas matavam crianças em sacrifícios realizados na área. “Outra versão é que as escravas negras, impedidas de manter os filhos, viam as crianças serem mortas e enterradas na região”, conta a antropóloga Bárbara Luna.
A história ainda tem outra explicação. A revolta militar “Setembrizada”, ocorrida entre os dias 14 e 16 de setembro de 1831, no Recife, foi realizada cinco meses depois de Dom Pedro I abdicar do trono. Pedindo sua volta, soldados do Batalhão 14 teriam saqueado a cidade e acabaram encurralados na área onde hoje é a praça. Trezentas pessoas acabaram mortas e outras 800, detidas e encaminhadas ao presídio de Fernando de Noronha. “Em todos os casos, a lenda culminou no mesmo ponto: à noite, transeuntes dizem ouvir o choro de crianças que lamentavam as próprias mortes ou as dos pais”, completa a pesquisadora.
E nem tão antigas assim
O medo sempre esteve de “mãos dadas” com os moradores da região e não era restrito aos “choros noturnos”. Na verdade, até bem pouco tempo, muitos evitavam passar em áreas da praça mesmo durante o dia. Tudo por conta de um casarão abandonado na Rua Benvinda que, diziam, era assombrado. Os antigos moradores eram tão folclóricos para a região quanto a própria lenda. Abrahão e Joel Datz, conhecidos como os “Irmãos Evento”, eram judeus, possuiam grandes barbas e frequentavam até oito eventos numa noite no Grande Recife. Para cada um deles, seguiam andando.
Reservados e com um visual diferente, sem querer, metiam medo nas crianças da região. “Ninguém passava na frente da casa deles. Todo mundo os conheciam e tinha medo mesmo”, brinca o radialista João Silva, ex-aluno do Salesiano. Abrahão Datz faleceu aos 52 anos, em 1995, enquanto o irmão, Joel, hoje com 64 anos, ainda é visto em exposições e inaugurações pelo Recife. Sem qualquer sinal de sofrer com assombrações.
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