A abordagem nos dois estupros ocorridos no dia 16 de agosto, no Parnamirim, e 8 de setembro, nas Graças, indicam que as violências teriam sido praticadas por homens distintos. Segundo a gestora do Departamento de Polícia da Mulher (DPMul), Inalva Regina, no primeiro episódio o agressor usou faca, entrou no carro pela porta do motorista e tirou fotos da vítima.
No mais recente, ele usou revólver, entrou pelo banco do passageiro e não tirou fotos. Com esses indícios preliminares, o recado da polícia é de que os crimes não são ação de um abusador em série. Ainda assim, boatos sobre o “Estuprador da Zona Norte” não param de ser compartilhados pelas redes sociais, deixando as mulheres em pânico. “A participação da população ajudando a polícia é extremamente importante, contudo sabemos que algumas informações são erradas, o que difunde uma onda de histórias mal contadas que vêm causando pânico na população”, disse Inalva Regina.
Ela solicitou que as informações sobre os casos sejam repassadas diretamente para a polícia pelos telefones 190, 180 ou 3421-9595. Uma força-tarefa foi criada para agilizar as investigações e apurar as denúncias. Desde 17 de agosto o Disque Denúncia recebeu 17 ligações sobre a atuação do estuprador, sendo 11 delas ontem pela manhã.
Entre as demais, quatro se referiam à violência sexual do Parnamirim, cujo estuprador, o ex-presidiário Wellington da Silva Ferreira, 30, foi identificado e suas fotos divulgadas. Na última quarta-feira, relatos sobre sua presença em universidades, escolas e até supermercados da Zona Norte ganharam as redes sociais.
O exame de DNA coletado nos genitais e por baixo das unhas das duas vítimas está sendo feito pelo Laboratório de Perícia e Pesquisa em Genética Forense. O Estado tem um banco de genética com amostras de criminosos, mas a DPMul não pode informar se Wellington está inserido. De janeiro a agosto, 1.126 mulheres foram estupradas no Estado. A Secretaria da Mulher divulgou nota de repúdio assinada por 180 entidades contra a insegurança feminina.
O medo de ser atacada levou às mulheres a recorrerem a sprays de defesa, como os de gengibre, e a armas de choque, como o teaser. A procura por esses itens aumentou em até 400% em lojas do Centro do Recife, segundo comerciantes. Os produtos custam a partir de R$ 100.
A empresária Ligia Barros, 36, está usando o de gengibre. “Minhas amigas indicaram. Costumo andar e dirigir sozinha e, infelizmente, o Estado não nos oferece segurança”, disse. Ao contrário do produto de pimenta ou de lacrimogênio, que são proibidos, o de gengibre tem comercialização livre no País. A embalagem é pequena e portátil, com 40 ml, e rendendo cerca de 20 jatos. Para se tornar ainda mais atrativo ao público feminino, possui diversas apresentações, incluindo as cores rosa, lilás e amarela.
A ação do spray não é considerada tóxica e não oferece riscos à saúde. Porém, a ardência direcional nos olhos e o cheiro forte são capazes de imobilizar. O supervisor de serviços Daniel Cavalcante, 37, comprou o produto para a esposa. “Ela trabalha nas Graças, onde teve o último caso. Está assustada”. O interesse também se estende a pistolas e lanternas de choque. Elas estão ao alcance da mão e custam de R$ 80 a R$ 200.
A gestora do DPMul, Inalva Regina, alertou que esses produtos não são garantia e que, dependendo do fator surpresa, a utilização de um deles pode se voltar contra a própria mulher. “O mais indicado para as mulheres é redobrar os cuidados ao entrar e sair dos carros e evitar ficar ao telefone. Esses itens podem ser um risco quando usados por quem não tem prática”.
Folha de PE