Publicada em 03/08/2017 às 14h28.
Nova hipótese liga sexo à microcefalia
Pesquisa feita nos EUA e Fiocruz apura possibilidade de transmissão sexual do zika provocar danos ao feto.

Pesquisadores querem saber se as gestantes carregam mais vírus no sangue com transmissão sexual ou por mosquito

Pesquisadores querem saber se as gestantes carregam mais vírus no sangue com transmissão sexual ou por mosquito Foto: Alfeu Tavares

 

Uma nova hipótese para explicar a ocorrência de microcefalia pode estar na forma de contágio pelo zika. Cientistas brasileiros e americanos acreditam que a transmissão sexual do vírus pode levar à infeção intrauterina e consequente danos ao desenvolvimento do feto. Tentar estabelecer essa possível diferença entre o adoecimento pela picada do mosquito Aedes aegypti e a contaminação via ato sexual, deve ser um próximo passo da ciência na busca de respostas para a ocorrência das malformações em bebês.

Este é o entendimento da bióloga e pesquisadora brasileira da Colorado State University (CSU), nos Estados Unidos, Tereza Magalhães. Ela compõe, com outros especialistas da CSU e da Fiocruz Pernambuco, o estudo “Tropismo urogenital, patogenia e transmissão sexual do vírus Zika”, que tenta estabelecer a incidência de transmissão sexual do zika.

“Ainda não há evidência do agravamento por transmissão sexual em modelos animais, mas é uma hipótese. Acredito que é possível que a transmissão sexual leve a um pior quadro da doença e isso deve ser estudado”, disse a pesquisadora.


“Se a viremia (que é quantidade de vírus no sangue) for maior após transmissão sexual comparada à transmissão por mosquitos em humanos, isso já poderia ser um fator contribuinte para um quadro mais grave da enfermidade”, comentou.

O contágio por via sexual já foi estabelecido entre humanos, em áreas não endêmicas. Quanto aos modelos animais, alguns experimentos já conseguiram estabelecer a relação depois de testes com camundongos imunocomprometidos e primatas não-humanos. Um estudo em primatas mostrou que infecção vaginal e pelo reto pode levar à infecção sistêmica. 

“Os modelos animais podem ser muito importantes para se estudar os desfechos da doença após a transmissão sexual, como nos fetos por exemplo, e inclusive compará-la à infecção por mosquitos”, reforçou.

Até então, um dos entraves a serem superados na produção desse conhecimento é a limitação dos modelos animais estabelecidos até o momento. Hoje, segundo a pesquisadora, a maioria das análises é feita em camundongos com sistema imune comprometido, o que gera resultados enviesados. 

O grupo que a bióloga integra fará uma investigação em duas frentes. Nos EUA serão feitos testes com o objetivo de se estabelecer um modelo animal. Em Pernambuco acontecerá um levantamento clínico, com revisão de casos passados e recrutamento de pacientes novos. Cerca de 260 pacientes recrutados anteriormente para um levantamento de arboviroses podem ser acionados junto com seus parceiros e outros moradores da casa para a nova investigação sexual. 

A ideia é verificar se mais de uma pessoa na casa teve zika e confrontar as sorologias dessas pessoas em busca de pistas sobre a contribuição da via de contágio sexual na grande epidemia de zika dos últimos dois anos. “Nossa suspeita é que os dois modos de transmissão - sexual e por mosquitos - podem estar funcionando juntos na disseminação do vírus”, acredita a pesquisadora.

 

 

Folha PE

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