
Imagem: Marcos Corrêa/ PR
Num
evento com poucos representantes da classe artística e no qual apareceu de
braços dados com o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão, a atriz Regina Duarte assumiu nesta
quarta-feira a Secretaria Especial da Cultura do governo de Jair Bolsonaro. Ela prometeu
pacificar a pasta e manter diálogo com a classe cultural e com o Congresso.
"Meu propósito aqui é de pacificação,
diálogo permanente com o setor cultural, estados e municípios, Parlamento e com
os órgãos de controle", disse. Olhando para Bolsonaro, a atriz relembrou a
promessa feita a ela de que teria liberdade para escolher os integrantes da
secretaria.
"O convite que me trouxe até aqui
falava em porteira fechada, carta branca. Não vou esquecer não, hein?",
disse a atriz ao presidente.
Na
sequência, Bolsonaro pontuou que embora tenha concedido todos os ministérios de
"porteira fechada", termo usado na política para indicar que o
titular goza de liberdade para fazer mudanças, ele tem poder de veto.
"Regina, todos os meus ministros
também receberam seu ministério de porteira fechada. Obviamente, em alguns
momentos, eu exerço o poder de veto de alguns nomes. Eu já fiz em todos os
ministérios. Até porque, para proteger a autoridade. Isso não é perseguir",
disse.
Mesmo com a advertência do presidente,
Regina assumiu o posto com uma série de exonerações na pasta, publicadas no
Diário Oficial da União nesta quarta-feira.
Entre os demitidos aparece Dante
Mantovani, que estava à frente da Funarte, a Fundação Nacional de Artes, e que
é aluno de Olavo de Carvalho, o escritor conhecido como esteio intelectual do
bolsonarismo, e membro da Cúpula Conservadora das Américas.
Maestro, ele havia sido nomeado para o
cargo em dezembro do ano passado pelo ex-secretário da Cultura Roberto Alvim,
que deixou o posto em 17 de janeiro após fazer um vídeo com referências a
Joseph Goebbels, ministro da Alemanha nazista.
Mantovani também fez discursos
histriônicos em sua curta passagem pelo cargo, afirmando, por exemplo, que
"o rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto,
que por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo".
No total, foram publicadas 12 exonerações,
muitas delas de nomes ligados à ala olavista do governo. Antes, no dia 7 de
fevereiro, ela já havia demitido a reverenda Jane Silva. Embora Silva tivesse
sido convidada pela atriz para ser a secretária-adjunta da Cultura,
desentendimentos entre as duas fizeram com que ela deixasse a secretaria.
As demissões fizeram com que Regina
passasse a enfrentar resistência da ala ideológica de Brasília, em especial de
seguidores de Olavo de Carvalho. Impulsionaram também reações nas redes sociais
–tanto que a hashtag #ForaRegina apareceu entre os assuntos mais comentados no
Twitter.
O próprio Olavo de Carvalho usou as redes
para criticar a atriz. "Se a Regina Duarte quer mesmo se livrar de
indicados do Olavo de Carvalho, a pessoa principal que ela teria de botar para
fora do ministério seria ela mesma", escreveu antes das exonerações serem
confirmadas.
Além disso, na madrugada desta quarta,
Olavo também publicou: "Aplaudir a indicação da Regina Duarte parece ter
sido uma cagada minha, mais uma entre tantas. Não sei onde vou arranjar tanto
papel higiênico".
Depois de encerrar um contrato de 50 anos
com a TV Globo, emissora que costuma pagar de R$ 60 mil a R$ 100 mil mensais
para artistas veterano do primeiro escalão, a atriz chega ao governo com um
salário de R$ 17.327,65 e se torna a quarta titular da pasta, marcada por controvérsias
desde o início da gestão Bolsonaro.
O primeiro a ocupar o cargo foi Henrique
Pires, que deixou o posto em agosto após dizer que o governo tentava impor
filtros e censurar atividades culturais. O motivo foi a suspensão de um edital
que previa financiamento de projetos LGBT para TVs públicas.
Depois de Pires, foi a vez do economista
Ricardo Braga, exonerado em novembro, após dois meses na função. Por último,
Roberto Alvim.
A Secretaria Especial da Cultura
permanecerá subordinada ao Ministério do Turismo, comandado por Marcelo Álvaro
Antônio. Bolsonaro transferiu o órgão após a demissão do ex-secretário Henrique
Pires e depois de divergências com Osmar Terra, que estava à frente da
Cidadania, ministério ao qual a pasta de cultura estava originalmente vinculada
no início do governo.
Depois da cerimônia de posse, Regina
Duarte levou um grupo de cerca de 40 pessoas a um restaurante de bufê a quilo
em Brasília para celebrar.
"Um restaurante democrático, aberto,
de acordo com a minha gestão", definiu o local escolhido para almoçar,
evento presenciado pela reportagem.
Quatro mesas foram reservadas em uma área
aberta, ao fundo do estabelecimento, para ela e seus convidados. Não havia
bebida alcoólica –convidados tomavam sucos e água em taças de vinhos.
Antes, durante a cerimônia, Bolsonaro
afirmou que se considera um amigo da atriz e que valoriza a cultura brasileira.
Segundo o presidente, diferentemente do que costumam dizer, ele não é um
"brucutu" –termo usado para alguém grosseiro.
"Eu confesso que é um momento muito
difícil, porque o que muitos têm na cabeça é que sou uma pessoa que está longe
de amar a cultura" afirmou. Nas palavras de Bolsonaro, a cultura não
atendia aos anseios da população nos governos anteriores e era explorada com
motivações políticas.
"Nós achamos uma pessoa certa que
agora pode valorizar, por exemplo, a Lei Rouanet, que foi mal utilizada no
passado", disse o presidente. "Com a chegada dessa grande mulher, nós
estamos colocando nas mãos de quem realmente entende do assunto esse
desafio", acrescentou.
O presidente declarou ainda que a atriz
merece "mais do que isso" e que ela vai passar por um momento
probatório no cargo, do qual sairá vencedora. Em meio a críticas da ala
ideológica do bolsonarismo, Regina aproveitou para fazer sinalizações ao
Congresso e disse que "o apoio do Legislativo é indispensável para que se
tornem reais os objetivos da tarefa que vamos realizar a partir de hoje".
Depois de usar termos de relacionamento
para falar do convite para integrar o governo como namoro e noivado, a
"namoradinha do Brasil", como a atriz ficou conhecida por causa de um
de seus primeiros papéis em telenovelas, entrou no salão nobre do Palácio do
Planalto vestindo um blazer branco e um vestido preto estampado de bolas brancas,
acentuando um gestual performático e gesticulando como quem aguarda aplausos.
A nova secretária fez um discurso de cerca
de 15 minutos, durante o qual exaltou o papel e a diversidade da cultura
nacional, defendeu valores familiares e a repartição com equilíbrio de recursos
de fomento.
Sua fala foi marcada por pausas
dramáticas, risadas, olhares e gestos. Ela brincou que sabe que Bolsonaro é
bravo e disse que o humor faz parte da sociedade brasileira, dizendo acreditar
que cultura é "feita de palhaçada".
Ao se apresentar para o cargo, disse estar
"municiada de confiança e coragem" para a missão. Agradeceu
publicamente o apoio do ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos,
e contou ter ouvido dele palavras de incentivo e de encorajamento.
"Vai lá, segura essa para a gente
antes que um aventureiro lance mão", ela afirmou ter ouvido de Ramos.
"Posso ser um tanto ingênua, mas eu acredito que possa se fazer muita
cultura e arte com os recursos que nós temos com criatividade", completou.
No evento, preenchido sobretudo pela rede
de integrantes do governo e por bolsonaristas, estiveram presentes poucos
artistas –entre eles, os atores Carlos Vereza, Rosamaria Murtinho, Mylla
Christie, Mário Frias e Maria Paula, além do locutor de rodeios Cuiabano Lima.
Até a conclusão desta edição, a equipe de
Regina ainda não havia sido anunciada. Mas o ator e produtor teatral Humberto
Braga e o próprio Vereza devem integrar a secretaria.
17 de jan.
Após demitir Roberto Alvim, Bolsonaro
convida a atriz para a secretaria
20 de jan.
Regina diz que vai conversar com o
presidente e programa 'período de testes'. 'Vamos noivar', disse
23 de jan.
Convida a reverenda Jane Silva para o
cargo de secretária-adjunta na Cultura
29 de jan.
Depois de três reuniões, atriz diz 'sim' a
Bolsonaro
30 de jan.
O ator José de Abreu faz uma série de
ataques a Regina no Twitter. 'Sei o que fizemos na sua casa', escreveu
31 de jan.
A atriz posta imagens de artistas que
apoiaram o 'sim' dela a Bolsonaro. Carolina Ferraz e Maitê Proença reprovaram o
uso de sua imagem
7 de fev.
Mesmo antes de ser nomeada, Regina decide
demitir a reverenda Jane
28 de fev.
Rompe contrato que tinha desde 1969 com a
Globo
4 de mar.
Oficialmente nomeada para a secretaria,
ela exonera a ala olavista. No total, 12 pessoas perderam o cargo.
FONTE: Folha/ PE